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terça-feira, 24 de junho de 2014

Nuvens trôpegas

















As fermatas pianíssimos anunciam
O prelúdio do silêncio,
Surgem do último sopro ou toque
Fenecem as notas em despedida

Flutuam os sentimentos despertados
Envolvem-se em nuvens trôpegas
Transbordam partículas avermelhadas
Da profunda dose do amor

Sorri, próximo a calda do piano
Olhos a perscrutam, admirando em gracejo.
Bailam em desanuvio musical
Acometendo os beijos as partículas enamoradas.

- Marcos Leite



domingo, 17 de março de 2013

Finale


    A solidão encontra um arco de luz reluzente, ogival, perpetua a beleza da quietude e as sombras que permanecem no ar, o redemoinho de angustias e pensamentos, flutuando como centelhas de vida, ou quem diga flechas de cupidos doentes espalhadas pelos ares.
                Dramático é o som, o erudito, a exponencial  doçura da vida, onde a terra e os homens, foram presenteados com tal formosura, sublimada as nuvens e o brilho da noite. Um píncaro de maestria,  gotas douradas da existência, diluídas aos escuros passos do cotidiano, por obséquio  de tentativas inúteis, promovendo uma chaga de injustiça ao fato consumado da falta compreensão, da cadência auditiva dos serafins.
                Lesiona-te o sabor do vinho, adicione uma gota de azimute, caminhe pela soleira e estribes da vida, exumando seus sentimentos frios e consternados para a terra, exumar do ar para terra, ao corroborar um frenesi de escárnio e ira, a mente será o portal, da vida ou morte.
                Se tens os dedos e pés cansados, de que te enobreces? Venturoso o rebanho tratado pelo pastor, imunda a pestilenta e miserável ganancia que em teus olhos brilham. Acharias miraculoso um esplendor ricochetear acima de tua tez?
                Desatem os ombros, desfaçam os nós, deita-me no átrio, com véus brancos, flores mortas, e que meus olhos estejam cerrados, o rosto macilento seja como cartão de visita aos próximos, e que em meu esquife seja bonito.

- Marcos Leite

quarta-feira, 13 de março de 2013

Caminhe devagar


Atravessamos um era inóspita de sentimentos verdadeiros, partilhamos de sorrisos e alguns reflexos do prazer, tocamos a vida mais depressa, esquecemo-nos de beber água, e corremos para que nada saia do lugar, estamos num caos moderno, onde as pálpebras tendem a fechar e os ossos estão machucados das pancadas cotidianas.
Os dias correm com galeio, como um vai e volta de um balanço num singelo parquinho, se avistares crianças ali, és um sujeito de sorte, estamos restritos a emoldurarmos em nossas cadeiras, ligarmos os computadores e apreciar a diversidade de coisas e alternativas que a rede nos proporciona, nos distanciando de nossa vida em momentos, ao olharmos de soslaio, pode ser que veja uma porta, ou duas, de um guarda roupas velho com livros e discos, e estão empoeirando a cada dia mais, sem que você perceba o quanto de vida tens esnobado ali.
Há uma fabulosa sincronia de pensamentos, poderíamos tratar isso como um jogo, um banco imobiliário, ou quiçá, uma disputa de dardos, perscrutando nossos intelectos de um pouco mais de genialidade, hostilizando o seu presente comum, o que vês todos os dias no mesmo local, e lhe preenchendo de um sentimento incomum de êxtase, encontrar conceitos e teorias, nos trás um sutil sentimento de satisfação.
Ter vontades de mudar o mundo e o rumo das coisas, das pessoas e do seu próprio destino, há muitos que conheço que estão a espera deste mesmo bote salva-vidas, mas não vieram com o colete salva vidas, além do mais, as ruínas das terra não foram deixadas por homens que estavam dispostos apenas a fazer algo melhor em conjunto, observo que estavam a próprio punho de tuas perspectivas, e zombo que de alguns foram vulgarmente mal sucedidas.
A vida segue como um ribeirão, deságua num córrego, beija o rio e dobra-se no oceano, e quando seus pés estiverem cortados, teus olhos vencidos, e teus lábios sedentos, adentre à formosura das águas  esquecendo teus diagramas e planos, saboreando um grande gole de tua existência, e talvez perceba que a pressa e o dinheiro só vão lhe fazer ter menos tempo por aqui.

- Marcos Leite


segunda-feira, 4 de março de 2013

Mães, seres de luz


Ao abrirmos os olhos no colo maternal, temos a intensa percepção do amor, da bondade e do carinho, a natureza e as bênçãos agem involuntariamente. O primeiro olhar,a graça divina de se multiplicar, e a fragilidade do coração de uma mãe ao ver seu filho desabrochar para o mundo.
                Os anos são como sopros de flauta, doces e altos, mas breves, nada se opõe ao tempo, ele chega e nos leva como uma maré revolta, o círculo vital da existência humana e a chama fumegante da glória da vida. Há momentos que nos damos conta o quanto privilegiados somos. Atentando-se as cores, as flores e as águas, nada seria belo, se não tivéssemos a consciência da beleza do viver, e nem mesmo entenderíamos o que é ter tal galardão.
                Preocupações e desafios, estamos grande parte do tempo neste limite entre a loucura e o desespero, embora, lembrássemos das coisas que nos fazem bem, trataríamos de respeitar nossos familiares com maior doçura ao invés de conjectura.
                Um dia deixaremos de brilhar e de fazemos parte da terra, estaremos em outro lugar, e deixaremos fragmentos, pessoas e os filhos, os quais jamais esquecerão o quanto de amor dedicamos, pode-se pensar que estamos num desfecho com olhos vencidos, onde os marinheiros não possuem mais mira, talvez estipulássemos que o tempo e as outras pessoas proferem palavras, e algumas alimentam o coração com a plenitude e outros acalentam-no a miséria.
                Ninguém além do Pai, cativarias tanto a amor a ti, se não fosse a que estivera grávida, nos braços dos quais pousou pela primeira vez, e do perfume intrínseco materno. Quando deixam de existir, as mães se tornam estrelas distantes, das quais estamos sempre procurando, acerca de que um dia quem sabe consigamos ouvir sua voz doce novamente. São estrelas nobres, brilhantes e esfuziantes, e Deus é testemunha, que se não existissem lá, lá no paraíso, um pouco menos de luz teria na terra e nos céus.
                Na ternura de teus pensamentos, nas lágrimas ou na saudade, sempre se recordará as páginas de sua história, não encontrarás ninguém que cozinhe tão bem quanto, ou alguém que te cubra numa noite fria caso seu cobertor esteja estirado. Sentirá saudade até mesmo das repreensões, e o esplendor de tuas palavras sinceras de graciosidade, dissiparão sempre em teu semblante quando falares delas.

                - Marcos Leite



terça-feira, 13 de novembro de 2012

A esfinge nua


Desfeito os braços cruzados, entre as avenidas principais, os olhos pulam para as extremidades crepitantes, o ar é fosco e denso, o que se assemelha um golpe de fumaça, tal, muito conhecida pelos que grunhem entre os carros e as motocicletas.
Uma esfinge, gigante, urbanizada, com traços da Gioconda nos lábios e olhos severos, és assim, adentra o pensamento de que a vê, imóvel e nua, longe e fria. A companhia dos enlodados das ruas, com as velhas vestimentas e a grossa pele a vagar. Andarilhos, pedantes e mendigos.
Um piscar de olhos e nada disso verás, a intempérie se encarregará, o que se pode apenas suportar é um pouco mais de ar fresco longe disso, não tratará de conciliar-te mais com a esfinge, os dias e as horas serão apreciadas, a pintura gigante, esmorecerá de suas vistas. Queres um sino azul? O Natal está breve, se acalente, o preço não é tão alto. Apenas quero suas noites.
Uma fermata de pensamentos, assim, mas continue, não lhe restará muito deste corpo belo e jovial com o passar do tempo e a deterioração das ruas. Apenas o seus olhos, quero também admirar. Mesmo que os meus tenham dono, já estou com idade elevada, mas há fartura em meus bolsos.
Ainda assim com dedos imundos, vejo que serão alvos e dóceis, não apeteço a ti? Fale mais, estas de boca fechada, mas teu semblante lhe entregas.  Contemple-a pela última vez, ela não te devorarás, e de adeus para a esfinge.

        - Marcos Leite

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Por de trás de suas pálpebras


Feches os olhos
Enxergues no negro por de trás de suas pálpebras
A bondade e a loucura de sua alma
Formule os animais como nas nuvens pela manha.


É integro, generoso, íntimo
Está, você e você apenas.
Embarcas no teu próprio delírio
Emanando a ti o sopro da descoberta


Medo, tens.
Não o cultives mais
Se imaginares o cavalgar da carruagem
Tombarão, sobre a grandeza negra de sua mente
Esfuziando a ti.


Reflexos, cores de milésismos
contrariando a razão
 adornando a beleza e a fragilidade
da arte fumegante dentro de si.


- Marcos Leite


sábado, 6 de outubro de 2012

Você me perdeu



                Ligaria os fios, ao reconhecer o êxtase da plenitude, se tais delicados e graciosos fios dançassem no ritmo do amor, flutuando e estendendo até a luz engrandecedora do astro solar. Apetece-me, o semblante dócil, os olhos cativos e os lábios trêmulos.
                O condensado ar exalado de seus saudáveis pulmões germinam o pleno carinho em meu peito, traçando a inexatidão abstrata do sentimento mestre da existência, obrigando me a embriagar e reconhecer o mais sublime frescor do amor.
                Concederias uma dança? Os olhares ternos se emoldurando ao engrandecedor rastro da beleza, a qual nossa aura esfuzia e torna o tempo mais vagaroso. Se pudesse, estaria pela eternidade bailando contigo, garantindo a nós o intento da paz.
                Martirizando minha estrada desconexa entre a razão e o lirismo, mas ai de mim, preferível um jogo retórico, contornando então a montanha, e assegurando as malevolentes intenções. Agirias até consigo mesmo?
                Um trato em meu paletó, a cabeça erguida, os breves cachos engomados, aspirarei o futuro acolhedor, e repararei as parcelas e quadros de tempo a serem provados. Ai de mim, se estivesse próximo ao olhar esmorecido aliciando minha íris, de não sondar os campos vistosos do alvorecer.
                Um arlequim sagaz, politicamente longe de ser um deles, embora o coração esteja partido, não me contentaria de entristecer-me mais por ti, um alegre sopro de justiça paira aos meus ouvidos e intercede para que tal atitude seja garantida para a sucessão de meus dias felizes.
                Levo-te ao exemplo da humildade, fomentando a cordialidade ao teus passos, consolido ainda, uma grande gota de arrependimento para teu eu, saboreando com asco a perda do sentir, íntegro e bondoso.
                Besunto as estrelas com mel, impondo as claras em neve, e ofereço-lhe uma fatia, a qual o segredo, contarias ao honesto valor.
         
            - Marcos Leite

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Os atormentados


O que levarás quando fechares os olhos?
Ainda que tenha feito.
Apenas os atos serão levados em consideração.

Já reservastes sua bela casa lá?
Mesmo que seja um alto investimento
Uma maneira sofisticada de termos garantia
É o que dizem por aí as vozes roucas das ruas.

Realmente, também concordo!
Viver intensamente, sem ter limites ou verdades.
O mundo é uma bagunça, meu corpo também, e até meu traseiro.

Quando cruzares o sol.
Não estribeis de teu pensamento.
A colheita chegou,
Pois a plantação esteve em outrora!

- Marcos Leite

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Desposar-me-ia


Saberia dar a ti um breve sopro
Expurgando minhas aflições
Contanto que recebesse minhas predileções

Uniria o ar a tua face
corando seu semblante 
Lançado a meus olhos

Habitaria nas mesmas dependências
Implicaria com o modo de se vestir
E admiraria sua beleza

- Marcos Leite

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Carta a minha querida esposa


Numa tarde de outono, estarei sentado no banco a espera de ver-te, com os raios breves do sol a iluminar o dia, desabotoarei minha bolsa e jogarei migalhas para as aves, permancendo assim no frio e na atmosfera dócil para meu peito e triste para meus olhos.
          Se encontrasse seus passos próximos a mim, trataria de compor uma canção com suas pegadas, retribuindo sua visita com meu generoso carinho. Impondo-me as leis da vida, ou quem diria enganando o tempo.
          Tombo em pensar que meus dedos estão velhos demais para uma serenata, e minha voz não é mais a mesma, apenas elucidarei a melodia, fecharei minhas pálpebras úmidas e pensarei em você.
          Jamais cumpri minha promessa, uma culpa que levarei até o fim, estender minha vida e deixar-te do outro lado da margem, meu veleiro vai mal, estou a ponto de naufragar, ainda sabendo que estou aqui sozinho, mas não pude realizar tudo, você se foi e uma avalanche em mim, iniciou.
          Intimidaria contar-te que hoje em dia não se vendem mais leite em frascos de vidro? Ou que o café e o trigo são vendidos em sacos plásticos? Sorriria ao ver as caixas de leite, são práticas, mas o leite parece não ter o mesmo sabor.
          Está chegando, é, ainda há tempo de pensar no que, mas o que posso comprar? Depois de amanhã, não me esqueci querida, o aniversário de casamento, tratarei de encomendar belo buquê com tulipas azuis, suas prediletas, e também algumas rosas amarelas para enfeitarem.
          Já é hora de me apresentar novamente ao meu local de convívio, com pessoas das quais não conheço, alguns simpáticos, e outros um tanto ranzinzas, mas tenho paciência com eles, sempre em meio de minhas leituras pensei como é triste a perda do intelecto, então não as menosprezarei.
          Estou com o peito cheio de saudade de ti, hoje vejo que o passado é um laço de fita, e o presente é apenas o nó. Mas o futuro é desfazê-lo, e sinto que não perdurarei muito tempo por aqui, não que não goste, mas já estou cansado e velho, mas em meu coração tenho as belas lembranças e a paz divina. E peço que não te estribes de meus pensamentos, pois, se vivi até hoje, foi apenas por pensar em ti.

         - Marcos Leite

sábado, 7 de julho de 2012

Ao meu amigo enxadrista


Buscaria em teus olhos as correntezas de minha insensatez mesmo que houvera grande garbo de minhas honorárias passagens esquecidas desse astuto local onde minhas vértebras sentem calafrios, saciando a saudade que dolorosamente carrego e entre meus dedos, fomentam um fato inexato entre a lógica e o pavor. Raramente trataria o espaço que de mim é acomodado, mas as lembranças felizes que trago ao lustre cinzento sobre as cabeças que aqui estiveram e olharam a vida desvanecer.
                Tórrido ar de todo o aglomerado das substâncias errôneas sucumbirão uma carta a mim mesmo quanto as minhas pegadas familiares, entornadas pela terra e suas entranhas, jazeria mais um, eu, ou aquele, que tentara colidir a razão e o tempo.
                Quisera estar entre as folhas rubras da estante encostada fronte a moldura lúgubre de olhos fixos, ainda que quisera, talvez, a atmosfera gelada inundou as mais espaças basculantes e trouxe o pensamento daquilo que jamais fora esmiuçado.
                Bruxuleou a chama anis de uma das velas quando pude olhar nos olhos de meu austero amigo, sobre tais qualidades que proponho a contar, embora suas vestes tivessem maltrapidas, o tempo é o álibi para tal pecado nefasto de todas suas longas e pungentes escolhas, olhos brilhantes como estrelas grandes em noite enluarada, mas veementes sugestivas e traçadas a mãos de anjos, cabelos negros, tão escuros que na escuridão fazem o brilho azulado de seu reflexo jovial e controverso, dentes e lábios pecaminosamente belos. Com o olhar cravado feito presas inundou-me de sentimentos arbitrários.
Haveria ainda oportunidade de trata-lo como um grande homem, ou esquivaria de todo o desmazelamento que carrego em meus bolsos e pés?! De súbito jamais consideraria suas visitas inesperadas que quiçá compreenderia em melhor hora. Caso fosse o mais sutil dos meus companheiros, sugiro um jogo para que nossas diferenças jamais atrapalhem nossa proximidade, rapidamente trago de minhas facetas imorais um discurso entorpecente.
         Trato apenas de um jogo, mova primeiro o peão, seja o mais franco dessa vez, e tente ao menos correr das trapaças organizadas que de tanto o critiquei, mas severamente peço que não use de seu conhecimento obsoleto, que apenas saberias alguém semelhante a ti, se consideras um escárnio, delibero que seus lábios permitam menores contrações, sugeria ainda que lançasse com menor frequência o desprezo no qual hostilizadamente leio eu sua face.
E que ainda, não trate apenas como um simples mover no xadrez, mas que minha presença o satisfaça cada vez mais de suas vindas, seja sem o vinho e todas as gargalhadas de outrora, sabes de que falo amável amigo, ainda que tentasse livrar as lágrimas de seu olhos, creio que as maçãs de seu rosto estão cada vez mais pálidas e belas.
Se cada passo ilustre de meus pensamentos trazem a ti, lembranças em vida, trato de esquecê-las quando estiver sobre minha presença nas partidas, mas obviamente gozarei das recordações como um manto aveludado de minha memória, traçando uma linha desconexa entre a luz e a escuridão, embora não esteja pregando nada que afete sua convicção humana ou espiritual, romperia meus laços intrínsecos quando a saudade de seus questionamentos inconvenientes sobre a maneira na qual levo minha arte. Humilhando me a fazer parte de seu posicionamento vil e agourado, estando mesmo entre a solidão de seus dias e a minha perturbação, reconheço que em breve estarei contigo para tratarmos de ocasiões que realmente superam a dor da perda e o frêmito gosto da morte.

- M.Leite

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Rotina




Os olhos semi-cerrados
Bocas abertas como uma elipse
Trejeito desacelerado e preguiçoso.

Os raios brilham pela janela
Obrigações que lhe aguardam
Espelho que zomba, o tempo evapora.

A noite o lar te aconchega,
A cama lhe acaricia
E o beijo de um carinho te alivia.

- M.Leite

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os sinos não dobram, se quebram!


           O pensamento atormentado de pessoas que clamam por ajuda é entoado freneticamente por suas cordas vocais, cordas e coros, muitas delas, pessoas desesperadas entre uma chuva de chumbo e desatino de sangue. A fumaça da impiedade invadia todo e qualquer canto, assim contavam os pássaros que fugiam e choravam.
O som contundente da marcha seqüente temia e arrepiava espinhas, e olhos banhavam rostos por onde passava, já era uma loucura surreal, não havia segurança dos pais, pessoas mortas, ensacoladas, sem cerimônias ou reconhecimento. O dia era negro, e as semanas também.
Mãos de ferro no controle, ira, pensamentos, ideologias, carnificinas e genocídios. Nem o sol mais brilhava, a fuligem dos canhões e os destroços já se adequavam a pintura futura do grande jornal que a publicaria.
Os traços da tirania eram marcados no chão, pelos tanques e carros ferozes que pareciam raposas rajadas de verde e marrom, a presa eram humanos, sanguinárias e fulminantes predadoras deles, mesmo que não tivessem culpa de nada.
                O lamento do urutau personificado no blues invadia corações daqueles que se perderam nesse lago sem fim, escuro e maculado. Sem vestes e pertences escondiam alguns atrás de portas e diques. Sem que soubessem que a radioatividade encarregaria de os consumir.
                De fato os sinos não dobram e sim se quebram, deixam de tinir e anunciar belezas e as flores da primavera, deixam a vida e a plenitude.

- M. Leite

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Margaridas do campo


O sol encontrava as frestas
A janela estava solitária
O brusco aspecto do dia

Os olhos sondavam o vento
O mesmo bailava
Lá fora só tinha margaridas

Cantando e beijando
Pássaros e beija-flores
Enfeitava com maestria.

-M.Leite

sábado, 23 de julho de 2011

O adeus de Amy Winehouse


Olhos verdes cor da esperança, boca vermelha, nariz longo e belo, sorriso e cabelos negros, maquiagens e tatuagens, certos aspectos contavam um pouco de uma Diva, aquela de voz grave e rouca que envolvia os pensamentos e sentimentos, suas canções tocavam como o salve de seu tormento cotidiano. Poderia se pensar o que leva uma artista excepcional chegar ao ponto de deixar tudo e todos, por um pouco de paz momentânea com seus pequenos inimigos que a tragavam para o fim.
Soava como um estranha nesse mundo de belas, era um tanto desajeitada em seus saltos e seu sorriso era cômico, talvez nem mesmo soubesse como se portar diante de tantas câmeras e pessoas cuidando de sua vida o tempo todo. Mas sua diferença não era a quantidade do corpo que mostrava no palco, ou gafes espalhafatosas, algumas ocorreram, mas essa por sua vez era muito talentosa, de timbre garboso e forte demais para ser irreconhecível, talvez seu talento todo fosse mais um fardo em sua vida.
A brilhante Diva do soul, hoje está em paz, seu tormento cessou de vez, os dias, nem as pessoas, nem o sofrimento, nem nada vai incomodar mais, pois esse dia ela deixou de existir pra gente, mas fez o bastante para se consagrar como uma cantora, artista e personalidade. 


- M. Leite

domingo, 12 de junho de 2011

Engraçou-se



O alucinado acaso
o assassínio impecável
o sangue do escárnio


A seda de seu lenço
as jóias geladas
adaga cravada


Entre os olhos de ira
eis o réu.
És vingança paga.


- M. Leite

sexta-feira, 10 de junho de 2011

No metrô

Os passos estavam calmos, andavam vagarosamente entre aquelas centenas de pés que rumavam em uma só direção, havia muitas cabeças, de muitos tamanhos e ornamentos diferentes, algumas tinham bonés, outros chapéus, lenços, faixas e uma e outra sem fio algum. As feições eram as mais diversas, algumas preocupadas, outras emburradas, algumas sorridentes e outras com sobrancelhas altas e olhos arregalados de pressa.
O embalo da escada que rolava era vagaroso, as bolsas incomodavam os que passavam, outros ficavam na frente como se nada tivesse acontecendo, a escada não parava e entrava e saia pessoas nas extremidades da superior para inferior.
Defrontavam com algumas pilastras de madeira e acrílico, tinham pessoas lendo as mensagens, outras ao telefone, gente era para todo lado.
Mas o olhar não deixou de perceber que havia algo mais, os ouvidos todavia começaram a sentir um toque doce, notas e mais notas ligeiras soadas por um exuberante piano. Eles tocavam músicas consagradas e esquecidas, havia uma roda de pessoas apreciando o momento.
O pianista sentado em seu banco feito de madeira maciça e acolchoada, comandava as canções, as notas iam se vinham nas mentes das pessoas e faziam bocas mexerem e olhos brilharem. Um senhor, um pouco velho, com cabelos brancos, nariz comprido, olhos pequeninos, trajava uma roupa humilde, mas muito adequada para a ocasião, era um cantor, daqueles que tinha na voz a ternura que emocionava os corações, a solidez de um tenor e o gracejo da calmaria, ele nos olhava com um olhar de gratidão, de poder em sua avançada idade mostrar seu talento, o rouxinol que trazia em sua garganta de velhas cordas fortes.
Apoiada sobre o piano, havia uma mulher com a idade avançada, assim como o velhinho bacana, ela cantarolava com amor as músicas de sua juventude, fechava os olhos com êxtase e entoava sua voz leve para o alto, era uma pessoa muito feliz e generosa, não a conhecia, mas sua feição a entregava.
As canções e notas foram tocadas, pessoas iam e vinham, a maioria delas apressadas, no entanto aquela noite valeria mais a pena, pois a beleza que fora vista, refrigerou os corações.


- M. Leite

sábado, 19 de março de 2011

Os olhos do tempo



O tempo caminha
Ele nunca espera, ele passa e se acaba.
Se acaba, porém para alguns.
O tempo nunca morre.

Os seres que deixam de existir,
E suas memórias, extraordinárias ou não,
Vão para onde?!

Seus olhos que não envelhecem
Em relação ao resto 

Esses olhos que viram tudo
Enquanto ele existiu e até mesmo quando deixou.

E porque não deixar de existir
Quando sonhamos com um lugar
Melhor, e que todos estarão lá.

Ou mesmo para que outros
Existam em nosso lugar
E façam a diferença para outros
Que nós não fizemos, por não os termos conhecido.

Envelheceremos um dia e nada poderá ser feito
Mesmo que fórmulas e técnicas
Sejam desenvolvidas e criadas
Um dia envelheceremos e morreremos.

- M. Leite (25/01/2007)
 
 
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