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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

As carpas denunciam


           Amanhecera os montes cingidos pelos raios de sol, dissipando as brumas habituadas a encenar as trevas em seu período negro do dia. Edificações gélidas, portões descascados, o cenário glacial advertia os moradores da região sobre os miseráveis dias que se aproximavam. Ainda assim os romances podiam ser vistos nas casas de chá nas primeiras horas do dia, nos restaurantes, praças, admirando os resfolegar de folhas e atribuindo a comunhão da paixão com chocolates quentes e beijos frios.
            Levados pela corrente de amores sazonais, os casais escolhiam entre os programas lúcidos e inebriados, dividindo sua permanência de dias em lugares de apreço ao ópio, bebidas, o sexo, alguns a passeios de charrete, bicicletas e tardes a cavalo. A cidade era distante a grandes metrópoles, os pássaros somavam seus alaridos em orquestra outonal se assemelhando aos réquiens.
            Distintamente as lampadas tinham a reverberação alaranjada, como as de outrora, a intempérie e o frio, produziam seu verniz natural as camadas vítreas que escondiam a admirável claridade eletrônica. O aspecto noturno atingia o glamour das noites enluaradas, de estrelas vívidas e enormes.
            - Um pouco menos de estudo.
            - Estou ainda pensando se há realmente possibilidade.
            - Logo voltaremos para a cidade grande, deixei esses jornais, arquivos e manuscritos. Não deixemos que nossa viagem se torne...
            - Ok! Não precisa de apelo moral.
            - Fui sugestiva.
            - Oh! Agora vamos brigar?
            Casados há três anos, as diferenças eram aprazíveis, comuns, entre os dilemas habituais entre os casais jovens. Refutavam de riqueza e luxo, embora, estivessem acima de quase todos que na região estavam nesses dias. Caminhavam entre os demais como quaisquer, a aparência ereta e fina os entregava, ao merecerem mérito por suas famílias. A estirpe é algo previsto entre os homens, uma pele de coloração rosada e aveludada como um pêssego, jamais se relatara como os vestígios de uma como furos, depressões e acne.
            Ostentavam em casas de linhas, tecidos, chás, bistrôs. As luzes mantinham aspecto favorável em sua mesa, um disparate ficarem sem a maior peça do restaurante.
            - Quando voltarmos, quero ver a praia.
            - Não gostas de frio?
            - Sim, mas estamos há duas semanas aqui.
            - As nossas afinidades se comprazem.
            - Como as pessoas que se odeiam?
            - Que quer dizer com isto?
            - Eu nunca mais o veria se fosse um namorado. 
            - Leva isso adiante?
            Inspirado em um guerreiro que degola a cabeça de sua esposa e caminha com a cabeça de órbitas mortas em baixo do braço, para que ela nunca esqueça quem a amara verdadeiramente. O filme iniciou, as cordas manchadas de sangue, os cabelos imundos, o ator belo e barbudo, uma cabeça de cera mal feita. O apelo da platéia era de nojo, alguns desprezo e outros o pavor. Entre as taças de tinto, a noite se lançou na perfeição inebriante das uvas, e o filme era de menor interesse a todos.
            Tinham ainda um pouco de interesse entre os dois, as vezes o carinho, os negócios, e os amantes, a utilidade de se viver num matrimônio acordado entre pessoas de negócios era simples como os papéis de admissão em uma companhia. Embora, estivéssemos observando que a conduta organizacional fosse tão exemplar como no matrimônio. 
            As ruas estavam baldias, os carros andavam vagarosamente, guarnições mantinham gárgulas em expressões pavorosas, assim como as múmias embalsadas vivas em rituais de punição, árvores fantasmagóricas e pios noturnos, a beleza do sinistro imperava, e a destreza em desprezar tudo mantinha-se viva entre os dois. Distantes, caminharam de mãos dadas até o hotel, o veículo chegava até a proximidade, devido uma passarela de concreto direcionasse ao portal da recepção. De um lado para o outro da guarnição no qual caminhavam sobre, tinha água para ambos os lados, e luzes azuladas que embelezavam as carpas aprisionadas naquela lagoa artificial.
            Entraram nas acomodações, salvos, voltaram a trocar algumas palavras, desnecessariamente mantiveram calados após notarem que o contato não era de interesse sequer de um dos dois. Apesar de manterem o desprezo e a medíocre relação que alimentavam há um certo tempo. Os gênios eram diferentes, e conduziam uma trama de difícil aceitação. 
            Mantiveram o tinto no adentrar da madrugada, a esposa foi a cozinha e preparou pães com creme, a uma hora dessas não tinha serviço de copa em andamento, os trouxe envoltos com mel em um cesto de seda com arremates de fios prateados laçados, deixou sobre a mesa e encheu sua taça. Após brindarem o vazio, esgueirou a espera da morte de seu esposo, recheou os pães com veneno e manteve-se atenta em não comer, com reclames a seu peso e o gosto adocicado do mel, também estava sonolenta nesta circunstância.
            Com os sentidos debilitados, olhou para o semblante imóvel do marido e notou que suas íris estavam enegrecidas, mas com órbitas cinzentas como um farol envolto de névoa visto ao longe de um navio.
             Com esforço de quase uma hora, conseguiu com uma maleta de facas e serras, já trazidas para este desfecho, arrancou a cabeça do esposo, e mirou com precisão o meio da lagoa em que as carpas nadavam como se flanassem num céu azul. 
            Por sua gratidão e honra, ela subiu o parapeito da janela para que não perdesse a visão admirável da morte e vingança de seu esposo, o sono estava grave, escorregou nas pedras lisas e atirou-se adormecida ao lago com a cabeça sobre os braços, as carpas fizeram um círculo rosado formando um redemoinho e a esposa se manteve belíssima em seu sono de morte, a cabeça do esposo flutuava como uma flor de lótus.
            No vinho, o veneno de uma aranha mantinha o corpo paralisado por horas, alegando a morte, a substância foi colocada pelo marido, assim que a esposa adormecesse, ele a afogaria, os desejos de morte se compraziam até em seu ódio, os crimes funcionaram como nas tramas orientais em que existe o suicídio em conjunto, neste, o assassínio foi deliberado em uma bifurcação que morre em apenas uma via.
            
- Marcos Leite





sábado, 12 de janeiro de 2013

Infausto


Olhos fitam o negro de meu sentir,
Um cristal convexo de malevolência? 
Alguns ramalhetes murchos 
Colidem o mel da incongruência mística! 

Salga o dedo e risque ao redor 
O brado da lealdade, enfurnado no horror 
O assassínio sádico, 
Queres a mim? 

Linhas atrofiadas relutam 
Precedendo o incêndio magistral 
Soe o trompete para a lua negra 
Esfuziando o feixe de luz carnal intrigante 

Repudio e temor estremece meu corpo 
Criva calafrios na alma 
Regozijo na dor 
Esguelho o hirsuto a salivar 

Ar! Entrai, feri-me a garganta! 
Embrulha-me as entranhas num peso sobrejacente 
Dentes travados na boca 
Sufocados no grito da escuridão 

Bruxuleias descompassando o estalar do tronco 
Escárnio vil despe-me os ossos 
Borbulhando em mim o escarlate 

Guardará um capuz tua face verdugo? 
Tornar-me pó não me faz extinta 
Carbonada matéria sinaliza tua fronte 
Fazendo-te minha caça por toda a eternidade. 

- Dueto de Lee Rodrigues e Marcos Leite





sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O jogo de espelhos


A tarde doce dos elevados ares das montanhas nos encontraram com velocidade amena e nos atribuiu o frescor da região, conhecida como o sul do Estado das minas de ouro e minérios nobres. Já era um pouco mais de seis e meia, e chegávamos numa velocidade reduzida, eu e Ortegas apreciávamos as belezas dos montes e a diversidade de pássaros e árvores, no qual se formavam um vale, e desaguava um rio cujo a profundidade vista ao longo, deduziríamos que não se excedesse a trinta centímetros.
O estilo sutil das casas e a rara envergadura europeia, tornava a cidade aconchegante e com aspecto familiar e suma segurança, no entanto viemos a investigar algo que fosse diametralmente distante do que o cotidiano simples da população assemelhava.
Ao descermos do carro e rumamos a hospedaria, avistamos um homem alto com nariz grande e aquilino, cujo as calças estavam largas e o paletó com riscas de giz.
- Ainda bem que chegaram, estive esperando por minutos infindos.
- Recebi seu telegrama, e viemos de imediato.
- Sugiro que tomemos café, há alguns fatos que devo lhes contar.
- Menezes, nos encontraremos as oito e quinze no saguão, temos de nos aprontar. – Disse Ortegas.
- Obviamente.
O trato no qual jamais encontramos nas grandes cidades, somos surpreendidos a conhecer no interior, tal gentileza custaria muito caro se fosse em outro país, ou mesmo na capital. As dependências eram rústicas, porém, espaçosa e tranquila, assemelharia ao sul da França, onde encontramos o sopro gélido do vento e seus formosos campos umedecidos pelo sereno continuo.
Ao se tratar de um assassinato, as vezes é melhor ser o mais austero possível, se usares um semblante totalmente vulnerável, será reconhecido pela malícia de culpados sagazes. Ao chegarem sequer trocaram palavras com os funcionários, reciprocamente trocaram cumprimentos.
Ao adentrarem o saguão, Menezes os esperavam:
- Sigam me, tenho alguns fatos a serem compartilhados.
- Um pouco redundante, acredito... – Disse em voz baixa, talvez o senhor tenha ouvido e considerou um comentário irrelevante.
Ortegas ao assentar na cadeira de madeira com encosto metálico, decoradas com talas de  couro e espuma, observava os demais que ali estavam. Fora a mesa dos cavalheiros, tinha outra mesa com uma mulher usando um xale roxo, e com anos vividos, acompanhada de uma moça jovem com cabelos negros. Estava quase vazio o local, ao olhar de relance sobre o número de mesas e cadeiras, no entanto, distante deles, tinha um rapaz alto com olhos suspeitos, com o olhos miúdos e redondos, assemelhavam como os de porcos, mas ao conjunto facial tinha um leve fator de beleza.
- Ontem por volta das seis e quarenta da manhã, um assassínio fora cometido nas dependências das quais vivo com minha família, e asseguro-lhes que não tenho participação alguma neste crime, ou em qualquer outro, longe de mim, no entanto um inquérito policial foi iniciado acerca de uma denuncia anônima, perscrutando então a minha possível participação e de minha esposa e filho. Acho que nossa residência serviu de álibi para o criminoso, fingindo então passar-se como inocente e cruzando então a nós, uma batalha entre a justiça e nossa integridade perante a sociedade.
- Conheces a vitima? – Perguntou Ortegas com olhar severo.
- Nunca a vi, é uma mulher magra, com seus cinquenta quilos, e jamais havia a visto nesta cidade, foram encontrados vestígios de sangue sobre o chão do quarto de hóspedes, mas não recebíamos ninguém nesta ocasião, o que mais nos intriga, como alguém pode entrar em nossa própria casa e assassina-la sem que ouvíssemos, claramente o convoquei para que pudesse esclarecer a mim também este caso. E pelo que averiguei, tal dama teria vindo a Passa Quatro, em busca de bordados comumente comercializados aqui.
- Onde estava o corpo? – Ortegas prosseguiu.
- Em um grande baú familiar, é comum na região possuirmos tal artefato, anos atrás as famílias costumavam guardar suas roupas melhores, assim protegendo-as de insetos e luz solar. Todavia, o baú esteve trancado o tempo todo e tal mistério, parece mais uma anedota para a policia do que a simples verdade da qual tento os comunicar.
Com mãos cruzadas abaixo do queixo, Ortegas pensava com olhos cerrados, estive tentando colocar uma logica possível para o caso e tentar não ficar favorável a Menezes, sendo que o possível culpado pode ser o mesmo, todavia, há mais elementos envolvidos, não devo me precipitar ao encontrar soluções tão absurdas como um homem matar em sua própria casa alguém do qual jamais viu e tentar convencer a família a consentir, sem que ao menos tivesse algum desafeto pela vítima.
Em um breve silencio comum, o detetive falou abruptamente:
- Teremos de visitar sua residência, pode ser ainda pela manha?
- Sim, quero que seja solucionado o mais rápido possível, estamos constrangidos com tal ocorrência, e asseguro-lhes cavalheiros mais uma vez, eu e minha família nada temos a ver com isso.
Ao chegarem na casa do contador, se admiraram ao fitarem uma bela casa com cercas baixas próximas a cintura, apoiada por muros com pilastras de sustentação e um grande número de enfeites de jardim, com aspecto amigável e singelo, a casa pelo lado de fora transcendia luz e jovialidade, após entrarem, perceberam que o aspecto também no interior permanecia confortável.
- Vejam, aqui está o cômodo onde foi encontrada morta, seu nome é Senhorita Elen Negreiros, e morava cerca de três horas da cidade. Tais dados foram informados pela policia, do qual presumo que queiram tal dossiê, tive a petulância de pedir aos policiais uma copia dos dados obtidos, para que pudesse entregar a ti meu caro.
- Sugiro que nos deixe a sós Menezes, gostaria que ficasse no quarto apenas Hugo e eu.
- Desculpe senhores. – O dono da casa saiu aos suspiros.
- Vejo que é um caso complicado.
- Hugo, talvez, um pouco provável, mas tenho minhas perspectivas quanto a tal crime, não é tão incomum como pensas.
- Percebo que está com um mapa do assassinato na cabeça.
- Acertou! – o detetive deu com a cabeça para trás e sorriu sorrateiramente.
- Analisemos os vestígios, não há nenhum tipo de pista que comprove que a vitima fora morta aqui neste cômodo, apenas um pouco de sangue, mas não há fios de cabelos e nenhum outro vestígio como unhas ou terra, claramente sairia fuligem de seus sapatos ou mesmo fios de cabelos cairiam no chão caso fosse morta neste local. Porém, o corpo não está mais a nosso dispor, mas o que vejo nos relatórios da pericia, é, Elen fora morta a facadas na glote e no peito, com profundidade de oito a treze centímetros, isso mostra o quanto tomado de fúria o assassino estava, seja por algum motivo pessoal ou a mando de alguém.
Hugo, veja, a quantidade de golpes foi pequena, todavia, a força no qual empenhou a usar, foi de extrema intensidade, o que descarta a hipótese de uma mulher te-la matado. Outro fato é que se tivesse sido morta neste lugar, todo o chão estaria coberto por sangue, um golpe próxima a tal região no corpo cortaria veias do pescoço com grande fluxo sanguíneo.
- Mas se me dás tais dicas, qual é o real motivo? – Disse impaciente.
- Assim que tiver a súmula formulada por mim mesmo, eu a divulgarei. - Ortegas disse com tom cínico.
Ao olharem o baú não encontraram nada, apenas um delicado bracelete de ouro, com as insígnias EN, o que pertence a Elen Negreiros, porem não passava de uma jóia, e uma pista singular, no qual os desinformados concluiriam que ao encontrar um bracelete valioso e o assassino não o roubasse, a carta de resignação seria que o crime tivesse sido por motivos pessoais entre ambos.
- Terminamos por hoje, amanha voltaremos e permito-me a dizer que com a resolução do caso. – Impôs Ortegas.
- No entanto preciso que responda mais algumas perguntas. –  o detetive prosseguiu. Há mais alguém na casa do que seu filho e sua mulher?
- Sim, há uma criada, chamada Beatriz Fontes, e está com a família cerca de vinte anos.
- Ela recebe visitas?
- Creio que não, jamais em toda sua presença com minha família ela trouxe alguém ou recebeu alguém aqui.
- Conte mais sobre a rotina familiar?
- Levantamos cedo e voltamos a tarde, e quem fica na casa este meio tempo, é apenas Beatriz.
- Como tens certeza que não recebe ninguém? É jovem?
- Sim é jovem, tem vinte e sete anos, a mãe faleceu quando menina, então como Helena trabalhava aqui, a adotamos e a empregamos.
- A cidade é pequena, e já vira alguma vez ela se encontrar com algum rapaz?
- Uma vez a vi, a encontrei com o jovem que estava hoje na ultima mesa quando tomávamos café. E atribuo esse encontro como mera coicidência. A vi de longe e seu semblante consternado, exibiu uma recusa ao se falar com o jovem, mesmo que ele estivesse apenas pedindo alguma informação.  Se recorda dele? – Inquiriu Menezes.
- Sim, recordo.
- Pois bem, teremos de interrogar a senhorita Fontes, ela se encontra?
- Sim, posso chama-la, a proposito detetive, peço que deixe minha família de lado quanto a interrogatórios, já estão abalados o bastante, não gostaria de um constrangimento ainda maior.
Com olhar fixo e levemente com o semblante alterado, Ortegas disse:
- Estou investigando o caso, não posso limitar a gracejos familiares.
Após o categórico recado, o detetive sentou numa cadeira e colocou seus braços sobre a mesa, acenou para que Hugo sentasse e esperaram até que a criada chegasse.
Com passos apressados e deturpados, abriu-se a porta e entrou o dono da casa e a criada, pedi que permanecesse apenas a criada e Ortegas e Menezes assentiram.
- Cá estou, que querem de mim? – Disse assustada.
- Fique tranquila senhorita, precisamos apenas de algumas respostas para podermos analisar o fato em questão.
- Não estou metida nisso, cruzes, como podem pensar tal possibilidade.
- Peço que acalme-se. – o detetive com sorriso bondoso a confortou. E continuou. Vira algum rapaz ou homem entrar na casa a não ser o filho e o próprio dono da casa?
- Não senhor, não entrara ninguém aqui.
- O que fazes a dona da casa?
- Ela possui dotes delicados, e é uma bordadeira muito conhecida na região. Tem uma loja próxima ao centro e costuma sair junto do marido e do filho.
- Neste horário você já está trabalhando?
- Sim, preparo o café e começo a cuidar do restante. Mas do que isso importa para seu portifolio? – Perguntou confusa.
- São perguntas senhorita, e quero saber também de outro fato, a segurança da residência pelo que me parece é um tanto vulnerável, com cercas baixas e sem muito o que proteger.
- Sim. Mas temos um jogo de espelhos, no qual o corredor informa quem entra e sai, e assim temos ao menos a chance de ligar para a policia.
- Bom, isto é tudo senhorita Fontes, estamos satisfeitos de sua colaboração.
A criada abaixou a cabeça como uma reverencia e saiu rapidamente pela porta.
- O que achas Hugo?
- Sinto sinceridade em suas palavras.

Ao voltarem para a hospedaria, ficaram surpresos com um telegrama destinado a Ortegas com a seguinte descrição:
“Estamos próximos, quem sabe entendam o reverso da moeda”.
Não tinha remetente e era um telegrama comum do correio, o que permitiram pensar que talvez o assassino já estivesse a espera dos cavalheiros. Usou tal mensagem como uma alfinetada sarcástica na honra do detetive quanto a complexidade do caso. E acendeu em sua mente um parecer de duvidas quanto aos depoimentos de Elen Fontes e Alberto Menezes, o que poderia ser apenas uma encenação, e terem atuado com proficiência para o caso não ser solucionado.
Mas se Alberto estiver envolvido, qual o interesse de contratar meus serviços e ainda ser sentenciado pela policia, vejo que é um homem de respeito no município, mas, se tiver um segredo ainda que não tenha me contado, o descobrirei rapidamente. Quanto a criada, ela me pareceu um tanto verdadeira, mas não posso esquecer a primeira lei que um detetive deve ter em mente, as pessoas mentem, e também minhas perguntas não foram nada sugestivas, não a questionei sobre a vida pessoal e amorosa, no entanto, se encontrou o homem que vimos hoje no salão de refeições, pode ter a breve hipótese que tenham criado tal plano para a morte de Elen Negreiros. Mas se pelo que vejo não a conhece, e ainda tenho minhas duvidas quanto ao rumo de como as coisas andam. – Ortegas pensou consigo.
- Que achas sobre o caso meu caro companheiro?
- De nada sei, as pistas estão cada vez mais complexas, e estou a ponto de enlouquecer. – Disse.
- Seja menos afoito Hugo, temos ainda que entender o rumo e ordem dos fatos.
- Já tens o desfecho?
- Ainda não.
Com o passar da noite e a grande serenata de estrelas a admirar sai para apreciar um pouco de ar fresco, com meus pensamentos voltados apenas para o crime, no entanto, o ar e a beleza do Sul de Minas, me fez conceber um melhor estado de espirito e adentrar uma breve parcela de meus pensamentos para o campo onírico. Enquanto estivera ao relento pensando e aproveitando o grande e belo luar passaquatrense, Ortegas estava dentro do quarto a pensar no qual motivo foi traçado todo esse caso. Após duas horas respirando ar puro e bebendo um pouco de água fresca, recolhi-me.
Manhã de quinta-feira, o dia nasceu com a suave temperatura e permitiu que nos aprontássemos com melhor comodidade, ao entramos no salão de refeições. Vi que a mulher do xale roxo, estava sozinha, e o rapaz alto estava na mesma mesa. Percebi que o detetive riu para si mesmo e trocou meia dúzia de palavras comigo.
- Temos de voltar para o calor da cidade grande.
- Incito que fiquemos ao menos um mês nessa bela cidade.
- Hugo meu caro companheiro e amigo, eu gostaria, mas há outros casos para solucionarmos.
Assenti com a cabeça e não insinuei qualquer pergunta para que não mudasse o humor ou estimulasse alguma euforia em meu amigo.
- Eles virão até aqui!
- Eles quem? – Perguntei
- Alberto e os oficiais.
- Agora pela manhã?
- Agora pela manhã.
O tempo de que eu pudesse a mexer a colher na xicara de café, chegaram e se assentaram, dei dois goles e me mantive com olhos e ouvidos bem abertos ao que o detetive tinha a nos falar.
- Caros, devo me apresentar, me chamo Miguel Ortegas, sou detetive particular e aceito apenas casos que me interessam, assim quando recebi tal, percebi que não seria tão simples, mas interessantemente o bastante para o gozo de minha profissão.
Mas antes gostaria de convidar os demais do salão para assentarem conosco, tanto a senhora com xale e o jovem da ultima mesa, assim sendo porei por dentro dos fatos.
O crime de Elen Negreiros é mais um caso simples, motivo, a herança familiar, tal senhorita com a idade elevada e endinheirada o bastante para deixar cerca de dez pessoas numa condição altamente favorável, foi o alvo mais fácil para tal enlace de interesses familiares. Como vemos, o jovem e o senhor que se esconde atrás do xale, são parentes distantes que restaram da pobre senhorita Negreiros, isto mesmo meus caros, senhor atrás do xale, através de minhas referências oculares, percebi em um buraco da fechadura quando passava pelo corredor e ouvi uma conversa estranha, falando em tom moderado as seguintes palavras ... moeda... ...reverso..., tive de espiar pelo buraco da fechadura, pois, recebera na mesma noite um pouco mais cedo, um telegrama com tais palavras no texto, e vi que o senhor colocara o xale de lado e tirado a peruca e com um copo largo nas mãos e um liquido marrom, semelhante ao whisky, ria para o jovem grandalhão. Após considerar isso como um fato maior dos culpados, tomei referencias de que Jorge Negreiros era um ator falido e vivia pela bondade e gentileza de sua prima rica, a finada em questão, e Yuri Negreiros é único sobrinho que a senhorita Negreiros possuíra, no entanto, o mau comportamento do garoto e o temperamento dificílimo fez que ela o mandasse para um colégio interno. Aliados, tramaram e executaram a morte de Elen Negreiros.
- Vejo que descobriu tudo senhor Ortegas! – Disse com tom franco,  Jorge, que há pouco usava o xale.
Devo continuar, o fato de envolverem a família Menezes no assassinato, foi apenas para terem um álibi, segundo o dono do hospedaria o último dia pago para ficarem aqui seria amanha, e com esse tempo dois dias tranquilos na cidade, ninguém os notaria ou os culparia por tal crime, que aos olhos nus entendemos como inconciliável, ainda assim atuaram com maestria, portanto com tal limite de tempo, denunciaram anonimamente à polícia sobre o ocorrido. No dia o qual chegamos, ambos estavam a nossa espera, pois, os dois mandaram o telegrama a meu nome zombando de minha competência. Estavam nos mesmos lugares, no entanto, tinha uma moça de cabelos negros, que por mera coincidência, e por sorte de Jorge Negreiros, passara pela cidade para resolver assuntos trabalhistas, e o senhor com o xale se apoderou da possível companhia da jovem na mesma mesa para ludibriar meus olhos e de Hugo meu comparsa, como sendo sua dama de acompanhamento.
Já quanto a casa, na noite anterior inverteram os jogo de espelhos, dando assim a impressão que ninguém entrou na casa, pois os dois lados do corredor há uma pilastra do tamanho do muro para o sustentar, e são localizados há distancias parecidas, ontem ao sair, eu mesmo o virei e vi que o jogo de espelhos engana se for colocado do avesso. Sr. Menezes se esquecera de me avisar que Beatriz Fontes, sua criada, tem um grau ostensivo de surdez, e que faz tratamento para a cura de tal inconformidade. Os dois assassinos, esperavam a saída da família, ao saírem entraram pelo corredor, pelo lado no qual o espelho estava invertido, e o fato de não terem vizinhos, foi a intenção de colocarem na sua casa o corpo. Ao entrarem colocaram um pouco de sangue da vítima em um dos cômodos e abriram o baú, e cada um com seus dois braços a tiraram do lençol e a colocaram com cuidado. Obviamente a criada, não veria, sendo que as cozinhas nesta região, costumam ficar pelo lado de fora da casa, assim não permitindo que cheiros provindos de lá se espalhem pela casa. Como ela estava na cozinha, daria tempo suficiente de fazerem o que fizeram e saírem ilesos, mesmo que na cozinha o jogo de espelhos funcionasse da mesma maneira.
Com uma das mãos sobre a boca Sr. Menezes preferiu ficar quieto e olhar fixamente para o semblante orgulhoso de Miguel Ortegas, o qual, finalmente disse:
- Após solucionado o caso, me retiro e os deixo com as devidas provisões a serem tomadas pelos oficiais.

- Marcos Leite



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Blefe


Quando o sol deixar de brilhar
Os fantasmas do passado me buscarão
Atormenta-me,
Réu confesso, sou!

Corto meus laços
Enlodados na culpa perversa
Um assassínio,
Premeditado.

Lembrarei da carta magna,
A tirarei do bolso
E colocarei sobreposta
E recordarás também de sua atuação.

- Marcos Leite

terça-feira, 10 de abril de 2012

Alfredo e o Lago

  
Solenemente sozinho, a cavalo, olhando entre os galhos tortos, estava eu passando sobre o caminho do lago, as nuvens dissipadas do vento mais sulfúrico que poderia ter nessa época do ano, a acidez do ar mostrava quão o exonfre poderia consumir qualquer ser que pudesse habitar a terra.
Em meu peito um sentimento gelado como de uma grande dose de nitrogênio, tão frio que arrepiaria até um rinoceronte adulto, em meus delírios lembrava-me de sua ida. Sentia pelo fato de não o visitar com frequência requerida, era um de meus luxos me inebriar com alguns livros sobre minha poltrona a noite e me esgueirar de meu amigo.
Seus traços pecaminosamente belos, pálido e dentes alinhados, meu amigo, conhecedor de grandes estratégias de lutas, um soldado, dos melhores, porém morto de forma silenciosa e misteriosa, ainda assim julgo descobrir o assinassino ou ao menos a forma que o assassinio se propôs.
Um pássaro de mau agouro me seguia, entre os galhos eu jamais poderia o ver, o trote de meu animal ecoavam abafadiços e apenas entenderia o pio da ave que servia de maldição entre aquele desconexo e lúgubre atalho.
Tinha o aspecto mais negro e triste que já havia visto, as águas assemelhavam ao ébano diluído por ácido numa ação conjunta de uma tragédia emblemática de posições e cargos em um labortário, utilizando de mercurio e exonfre, provavelmente a corrosão do lago e os peixes aparentaria a cena que meus olhos retratam nesse momento.
Alfredo sentia sempre que o ar estava fosco um grande desejo de andar entre a relva e algumas vezes caçar animais estranhos ao entardecer, era sagaz e solitário, não se casara e sua vida era escura e baldia. Conhecia sua propriedade muito bem, mas sequer dava luxo de aproveitar de todas as continuas peripécias que o lugar lhe proporcionaria.
Estranhamente seus criados foram morrendo, até que a última, Helena, morrera de uma doença comum, contraída devido a umidade do ar e o excesso de bolor aglomerado nas paredes e móveis. Era uma mulher velha com saúde debilitada, parecia mais uma hóspede, pois sua função, deixou de ser uma ágil criada e tornou-se uma cozinheira desmazelada.
O pássaro que me seguia, creio eu que gostaria de mostrar algo sutil que não percebera, pois o trote do animal em que estava montado não relutou instante qualquer, mas seu breve pio parecia como uma locomotiva de minha mente, com espectros e uma grande quantidade de vozes soando semibreves e breves, semelhantes ao lamento de um clarinete.
Ao que me parecia mãos gélidas tocavam minha cintura, e nesse momento as achei generosas, estavam tocando algo que raramente fora deflorado por alguém, minha sisudez jamais permitira que eu fosse tão dócil ou agradável. Já intitulado como estranho ou mártir, estava eu com esses sentidos agora, comicamente as cabeças inúteis chamariam de um fantasma, mas o que era fantasmagórico não era esse meu sentir e sim o que estava a pensar, como foram encontrados cadáveres ao lago próximo a casa de Alfredo, desfigurados e todos sem o anelar. Supostamente alguma seita, ou quem sabe um simples pacto entre os mortos.
Veemente que eu não sentia nada que fosse ao lado de minha coxa, ao aferir que se a garupa tem algum indivíduo, por consequência tocaria próximo a carne de sua coxa e sentiria ao menos o volume de outro membro inferior tocando o meu. O ritmo do animal estava acelerado, com essa premissa assumo que estou só sobre meu potro e minha sela.
Mãos finas, finas e agouras é o que sinto em minha cintura, como mãos femininas, geladas e firmes, mas meu consciente elucidava outro destino para meus pensamentos, assim como entender os motivos dos crimes e quais foram os primeiros homicídios.
Ao longo eu avistava o lânguido lago, a morbidez atraia os olhos da lua,  qualquer raio de luz irrelevante poderia iluminar uma polegada do corpo sombrio, era absurdamente negro e viscoso.
Auferi as palavras da paisagem que expurgou meu delírio nefasto sobre, o agouro da ave continuamente tocando meus tímpanos, ainda assim não percebera se já teria se tornado um tormento ou realmente ela existira. Grandes e enormes proporções de batalhas era o que eu imaginava, mas de toda minha presunção, meu inconsciente era mais irônico do que poderia imaginar, as respostas trancadas com enigmas lineares de assuntos e chaves lógicas.
 Alfredo! Exclamei, a beira de sua lápide torneada em ouro, “Alfredo Fughir, um dos maiores homens de nosso tempo, tragado pela morte ainda jovem, será nosso tenaz soldado para sempre. RIP.”
Minhas lágrimas estiveram o tempo todo a minha espreita, mas não caíram, ate então o que tínhamos acordado em vida era de que aquele que encontrasse o espírito encapuzado se aquietaria de vez e assim permaneceria ao outro, sem palavras ou lamentações.
Preferi caminhar sobre a terra escura, espiar e afrontar os maus pressentimentos que o lago me traria, mesmo ciente de que toda e qualquer luta que tivesse de nada adiantaria, meu pobre e pequeno corpo carnal contra uma valsa de espectros praguejando e atormentados de seu fim determinado.
Ainda que a atmosfera estivesse pesada como meus pés, eu estava em paz, meu espírito estava acomodado a meu princípio, a visita fora concluída e o que me restava era aproveitar um pouco mais da morbidez da qual meus lábios se estreitavam.
Como não perceber isso, morto há tanto tempo, ainda quando um soldado, suas mãos obviamente seriam gélidas e leves, mas ainda não sei a espessura de uma mão que não vi, certamente eu sabia o porque de estar aqui, mas ainda que não tivesse ganho eu teria ludibriado meu consciente contra o misterioso inconsciente, era claro o motivo de sentir a mão de Alfredo sorrateiramente sobre o ílio, seu assovio personificado em um pássaro ou quem sabe um de seus amigos espirituais. Com toda pompa e gracejo me guiou até o local onde nos dois estaríamos em plena e sã harmonia, meu querido amigo me trouxe ao local combinado de nosso trato e jazeríamos aqui ou penaríamos até o esquecimento.

- M. Leite

domingo, 12 de junho de 2011

Engraçou-se



O alucinado acaso
o assassínio impecável
o sangue do escárnio


A seda de seu lenço
as jóias geladas
adaga cravada


Entre os olhos de ira
eis o réu.
És vingança paga.


- M. Leite
 
 
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