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domingo, 16 de junho de 2013

Kingur - Você é o rei



          Parte 4 – Você é o Rei - Final
          
          Foram os dois pelo caminho até Gallard, antes Sophie voava como um sabiá, agora andava com suas perninhas curtas, se cansando e olhando ao redor para toda a destruição de Kingur. Foi um longo caminho, mas enfim chegaram a Grande árvore. Assim que atravessaram os limites de Gallard, a menina e o tiziu sentiram um estranho amortecimento em seus sentidos.
           - Sophie, não se deixe adormecer, fique de olhos bem abertos, não durma, preste atenção em tudo.
         - Por que sinto tanto sono?
         -  Porque a atmosfera de Gallard suga toda a sua vitalidade, tome cuidado. Pense em coisas boas.
        -  Vou tentar.
        Chegaram até um tronco podre e seco de uma antiga árvore, o tiziu olhou em volta e disse:
         - Estamos aqui.
         -  Aqui onde?
         Disse a menina com olhos arregalados.
        -  Quieta, não estava falando contigo.
         Neste ínterim um grande e feio Abutre chegou voando baixo até eles. Pousou no tronco da velha árvore e disse:
         - O que quer aqui tiziu?
         -  Salvar Kingur. Eu trouxe a menina.
            O abutre a encarou, seus olhos luziam como anéis dourados, impressionavam e deixava os demais perplexos com tamanha intensidade, o semblante se tornou amigável e de assalto abriu suas grandes asas, ficou grandioso, e o tiziu e a jovenzinha sentiram medo, pois, o tamanho do da ave era deveras maior que ambos em centenas de vezes, gritou de seus pulmões bem alto e tão agudo que ecoou ao longe.
Sophie fechou os olhos e o tiziu escondeu-se atrás dela. Temeram a morte, e a falta de amor do estranho. Então o silencio pairou sobre eles, e ela abriu os olhos e viu um jovem menino, de cabelos louros em uma extensa túnica, a roupa era um tanto bela, mas parecia também nem um pouco adequada para a ocasião.
- Você transmutou?
- Oh sim! Perdoe-me, estive a sua espera há longos anos. – Disse cordialmente o menino.
- Cheguei há pouco, e tudo parece tão confuso e novo. Seu sonho era mesmo tornar-se um abutre? Porque escolhestes esse animal tão estranho.
- Não escolhi.
- Segundo Karnel, o tiziu, aqui escolhemos o que queremos.
- Em Kingur sim, mas não em Gallard.
- Oh! Então posso me transformar em algo que não goste.
- Tens medo de algo?
- Claro, aranhas. São horripilantes.
- Não pense, pode se transformar em uma, quando teu delírio se tornar realidade, e não quero que seja assim, pois, a beleza de teus rubros cabelos a fazes tão faceira.
Sophie corou e pediu para o tiziu bem baixinho que ele falasse um pouco, e em teu coração criou uma centelha de carinho, todavia, o que sentira a passos largos desde que vira Rafael triste e enrijecido fora pena e dor.
- Temos um dia cheio, ou uma noite, seja lá como for.
- Fico feliz que a trouxe e viera junto meu belo tiziu, estava com saudades.
- Estive também, mas desta vez não o abandonarei.
- Nunca me abandonastes, foi eu mesmo que fiz isso, pois minha mente me tornou assim, vaidoso, como as pessoas grandes, e elas além de esquisitas, sequer se importam com os outros.
- Talvez tenha tempo ainda de recuperar suas venturosas belezas.
- Tenho esperança. – Interpelou Sophie e o menino simultaneamente.
Os três se acomodaram em um tronco retorcido, e tentaram pensar em coisas, mas os pensamentos eram como uma nuvem vulgar, que vagava sem destino ou beleza, se desfazia em tão poucos segundos que se sentiram compelidos por suas próprias cobranças, o jovem e a jovenzinha se culparam, e o tiziu tinha seus olhos cerrados, parecia que estivera em um sonho, bem distante dali, pensava em seus dias ensolarados, e em sua cor e maestria ao participar da inefável beleza da natureza, o ritmo da vida, os pássaros, as arvores, os rios, e toda a vida existente que habita uma frondosa floresta ou capoeira.
Começaram a questionar-se. A de cabelos negros agora, pensou em tua vida e tuas atitudes, o desprezo, a vida vaidosa, e o ato de procrastinar os sonhos das pessoas que amava, e esqueceu também ate de teus próprios, olhos para suas mãozinhas e pensou que seria difícil ajudar alguém confeccionar cartões de natal agora, era tão pequenas que jamais poderia usar uma tesoura convencional,  se entristeceu e pensou em bolos, jamais trataria de preparar algo dessa magnitude caso tivesse um corpo tão pequeno, não aguentarei levantar sequer um copo de trigo, que dirá partir os ovos. E então pôs-se a pensar que poderia fazer pinturas e desenhos em folhas pequenas, e as ajuntariam e formariam um belo cartão. Pensou também que mesmo com a pequena mãozinha se fosse determinada poderia produzir origamis minúsculos, sendo assim uma grande artista minimalista, e em seu peito brotou novamente alguns sonhos.
O menino, sentou-se próximo a um pequeno buraco, e viu que ate mesmo sendo negro e sujo, tinha uma fina era que brotava com dificuldade e percebeu que as dificuldades da vida nem sempre nos privam de sermos fortes e comparou-se com ela, se recordou de tua vida, de toda sua preguiça, seus luxos, e maledicência, e se arrependeu de ter um peito tão excêntrico, calou-se de todas suas exigências, fitou novamente era que crescia vagarosamente e pensou que de nada fez quando estava livre, não colecionou figurinhas, deixou de fazer novos amigos, e jamais educou seu coração para que sua família tivesse orgulho dele. E se entristeceu.  Mas recordou-se de tua fazendinha, a de brinquedo, com um cavalinho baio, três vaquinhas gordas, um carneiro, galinhas, cercas para marcar o curral e uma velha camionete para ir a cidade, e então recordou de tua infância, e usufruiu da nostalgia bonita, sem regras ou imposições, meneou a cabeça duas vezes e dedicou-se a pensar que faria de tua bela fazendinha um presente a alguém, e sorriu. 

O tiziu por sua vez sorria, recordava-se da entrega de jornais, de quando era um vendedor de leite, quando trabalhou como carteiro, e também quando a feira era sua casa.  O humilde menino pensou então quando era jovem também, e se recordou das dificuldades, da fome, e da humilhação, se lembrou que não tinha sapatos no frio, e sua mãe com dedos nodoados do árduo trabalho em vida, fazia as vésperas do inverno meias de lãs e alguns arremates em outras antigas, e assim a singela família com teus poucos confortos superavam o inverno. E se questionou o porque tornara-se um tiziu, e a resposta flanou sobre sua mente e em teu coração ele sorriu e continuou sorrindo com olhos fechados, teu semblante de todo o êxtase demonstrava a cordialidade e respeito que todo o tempo cultivou, e então entendeu que a forma do tiziu foi um presente dado a si mesmo, a beleza e fragilidade de um pássaro brasileiro, se espelhara em sua índole e personalidade,  sem exultar seus ganhos, nem cultivar a cobiça em teu ser, acalentou os outros com tua presença e fez-se assim amigo de outros, mesmo com tua aparência diferente e gostos incomuns.
Uma luz pairou sobre os três,  estavam de olhos fechamos e então abriram lentamente, se assemelharam com a luz e ela por sua vez era um raio longo e de espessura cilíndrica, brotava da terra e atingia em media quatro metros, era um esplendor, ao invés de uma luz solar ou elétrica, um esplendor que fora gerado da lagrima de ambos, o que o tiziu e o menino, Gallard, precisavam era o arrependimento, a lagrima de arrependimento de Sophie e de todas tuas atitudes impensadas quando jovem, e obtiveram. O esplendor reluzia como um espelho místico para os olhos de cada um.
O tiziu viu-se bonito, com sua esposa e duas filhas, vestido de oficial, e uma boina que o demonstrava garboso e tenaz. A menina se viu entre animais, e percebeu sua vestimenta branca, tornara-se uma medica deles. Já Gallard, o que criou a tristeza na dimensão Beta, tornou-se um bibliotecário, mas já velhinho, talvez teu tempo nesta dimensão foste outro, fora talvez abduzido quando era mais velho e sua vida negra de jogos de azar o fizeram criar uma lúgubre atmosfera, sofrera com tais pensamentos, e reconheceu-se no esplendor que a vida o presenteara com a nova posição.
Uma voz entre o esplendor soou levemente:
- Sabem por que estão aqui? Sabem quem sou eu? Sorriu belamente, sou Rafael, o cisne, estive aqui o tempo todo, e cuidei para que vocês encontrassem a chave de teus próprios medos, se recuperassem de tuas transgressões, e fizessem o melhor de si, e obteve êxito.
Sem interferências confiaram uns aos outros a própria vida, o menino esperou a bondade do pássaro, e a menina doou de sua generosidade a esperança a eles, criaram entre si o amor e o carinho, e então cativaram-se. Os perigos ou a escuridão não se impôs sobre suas escolhas e cultivaram a chama da esperança.
Apareci como um cisne para ambos, mas o tiziu que não sabia nadar eu o acolhi, você Sophie, fiz com que a flor fosse sua casa, e o menino era meu amigo, um outro cisne quando chegou, mas me abandonou, pois, não era o bastante bom para ser teu amigo.
Encontraram a chave dos mundos, cativaram uns aos outros e perceberam que o mundo não esta cheio deste sentimento, a conduta que tiveram foi o que fizeram refletir, e as incoerências foram corrigidas pelas próprias reflexões. Quando fecharem os olhos e pensarem no que viram em mim, a minha luz, vão voltar de onde vieram, assim como foram trazidos, e terão de fazer tuas próprias mudanças, assegurando o futuro que os revelei, caso não tratem de comportar-se de tal maneira, terão a vida distante do que aqui exibi.

Se cativas o amor a alguém, deve ser firme em teu feito, assoprar a plenitude e a lealdade aos olhos daquele que escolheu, entre os amigos e o amor, criaram aqui um ciclo de fidelidade, os sonhos não se misturam, mas se queres bem uns aos outros, sigam sua vida com retidão, não te estribes por vias menores, elas não mostrarão o civil, a medica de animais e tampouco o velhinho bibliotecário.
Kingur se refere ao Rei, você ser o teu próprio dono, escolheram aqui o que queriam ser, e na vida da terra escolhemos, a vida lá tem pessoas que nos atrasam, e pedras que nos machucam, aqui escolheram ser e logo se tornaram, não tiveram que trabalhar ou fazer preces de sonhos, e então viram também que tornaram-se outros seres, mas rapidamente deixaram de ser, creio que de onde vieram, se escolherem algo podem ser a vida toda.
Eu despeço de vocês com um fraterno abraço. E então a luz se esvaiu-se do centro  de onde estava, e passou por eles como um vento, e os abraçou ligeiramente, e Sophie se deu conta que estava engomada em um pijama de algodão, sobre os cobertores, em um domingo gélido no sul de Minas Gerais. Acordou de tal belo sonho, e olhou para o espelho, viu em seus cabelos ruivos, um pouco de glitter, sorriu levemente e foi despertar sua casa com um belo bolo enfeitado  e doses gordas de café e leite.


- Marcos Leite e Priscila Pereira

Leia aqui também: http://www.recantodasletras.com.br/contosdefantasia/4345391

terça-feira, 10 de abril de 2012

Alfredo e o Lago

  
Solenemente sozinho, a cavalo, olhando entre os galhos tortos, estava eu passando sobre o caminho do lago, as nuvens dissipadas do vento mais sulfúrico que poderia ter nessa época do ano, a acidez do ar mostrava quão o exonfre poderia consumir qualquer ser que pudesse habitar a terra.
Em meu peito um sentimento gelado como de uma grande dose de nitrogênio, tão frio que arrepiaria até um rinoceronte adulto, em meus delírios lembrava-me de sua ida. Sentia pelo fato de não o visitar com frequência requerida, era um de meus luxos me inebriar com alguns livros sobre minha poltrona a noite e me esgueirar de meu amigo.
Seus traços pecaminosamente belos, pálido e dentes alinhados, meu amigo, conhecedor de grandes estratégias de lutas, um soldado, dos melhores, porém morto de forma silenciosa e misteriosa, ainda assim julgo descobrir o assinassino ou ao menos a forma que o assassinio se propôs.
Um pássaro de mau agouro me seguia, entre os galhos eu jamais poderia o ver, o trote de meu animal ecoavam abafadiços e apenas entenderia o pio da ave que servia de maldição entre aquele desconexo e lúgubre atalho.
Tinha o aspecto mais negro e triste que já havia visto, as águas assemelhavam ao ébano diluído por ácido numa ação conjunta de uma tragédia emblemática de posições e cargos em um labortário, utilizando de mercurio e exonfre, provavelmente a corrosão do lago e os peixes aparentaria a cena que meus olhos retratam nesse momento.
Alfredo sentia sempre que o ar estava fosco um grande desejo de andar entre a relva e algumas vezes caçar animais estranhos ao entardecer, era sagaz e solitário, não se casara e sua vida era escura e baldia. Conhecia sua propriedade muito bem, mas sequer dava luxo de aproveitar de todas as continuas peripécias que o lugar lhe proporcionaria.
Estranhamente seus criados foram morrendo, até que a última, Helena, morrera de uma doença comum, contraída devido a umidade do ar e o excesso de bolor aglomerado nas paredes e móveis. Era uma mulher velha com saúde debilitada, parecia mais uma hóspede, pois sua função, deixou de ser uma ágil criada e tornou-se uma cozinheira desmazelada.
O pássaro que me seguia, creio eu que gostaria de mostrar algo sutil que não percebera, pois o trote do animal em que estava montado não relutou instante qualquer, mas seu breve pio parecia como uma locomotiva de minha mente, com espectros e uma grande quantidade de vozes soando semibreves e breves, semelhantes ao lamento de um clarinete.
Ao que me parecia mãos gélidas tocavam minha cintura, e nesse momento as achei generosas, estavam tocando algo que raramente fora deflorado por alguém, minha sisudez jamais permitira que eu fosse tão dócil ou agradável. Já intitulado como estranho ou mártir, estava eu com esses sentidos agora, comicamente as cabeças inúteis chamariam de um fantasma, mas o que era fantasmagórico não era esse meu sentir e sim o que estava a pensar, como foram encontrados cadáveres ao lago próximo a casa de Alfredo, desfigurados e todos sem o anelar. Supostamente alguma seita, ou quem sabe um simples pacto entre os mortos.
Veemente que eu não sentia nada que fosse ao lado de minha coxa, ao aferir que se a garupa tem algum indivíduo, por consequência tocaria próximo a carne de sua coxa e sentiria ao menos o volume de outro membro inferior tocando o meu. O ritmo do animal estava acelerado, com essa premissa assumo que estou só sobre meu potro e minha sela.
Mãos finas, finas e agouras é o que sinto em minha cintura, como mãos femininas, geladas e firmes, mas meu consciente elucidava outro destino para meus pensamentos, assim como entender os motivos dos crimes e quais foram os primeiros homicídios.
Ao longo eu avistava o lânguido lago, a morbidez atraia os olhos da lua,  qualquer raio de luz irrelevante poderia iluminar uma polegada do corpo sombrio, era absurdamente negro e viscoso.
Auferi as palavras da paisagem que expurgou meu delírio nefasto sobre, o agouro da ave continuamente tocando meus tímpanos, ainda assim não percebera se já teria se tornado um tormento ou realmente ela existira. Grandes e enormes proporções de batalhas era o que eu imaginava, mas de toda minha presunção, meu inconsciente era mais irônico do que poderia imaginar, as respostas trancadas com enigmas lineares de assuntos e chaves lógicas.
 Alfredo! Exclamei, a beira de sua lápide torneada em ouro, “Alfredo Fughir, um dos maiores homens de nosso tempo, tragado pela morte ainda jovem, será nosso tenaz soldado para sempre. RIP.”
Minhas lágrimas estiveram o tempo todo a minha espreita, mas não caíram, ate então o que tínhamos acordado em vida era de que aquele que encontrasse o espírito encapuzado se aquietaria de vez e assim permaneceria ao outro, sem palavras ou lamentações.
Preferi caminhar sobre a terra escura, espiar e afrontar os maus pressentimentos que o lago me traria, mesmo ciente de que toda e qualquer luta que tivesse de nada adiantaria, meu pobre e pequeno corpo carnal contra uma valsa de espectros praguejando e atormentados de seu fim determinado.
Ainda que a atmosfera estivesse pesada como meus pés, eu estava em paz, meu espírito estava acomodado a meu princípio, a visita fora concluída e o que me restava era aproveitar um pouco mais da morbidez da qual meus lábios se estreitavam.
Como não perceber isso, morto há tanto tempo, ainda quando um soldado, suas mãos obviamente seriam gélidas e leves, mas ainda não sei a espessura de uma mão que não vi, certamente eu sabia o porque de estar aqui, mas ainda que não tivesse ganho eu teria ludibriado meu consciente contra o misterioso inconsciente, era claro o motivo de sentir a mão de Alfredo sorrateiramente sobre o ílio, seu assovio personificado em um pássaro ou quem sabe um de seus amigos espirituais. Com toda pompa e gracejo me guiou até o local onde nos dois estaríamos em plena e sã harmonia, meu querido amigo me trouxe ao local combinado de nosso trato e jazeríamos aqui ou penaríamos até o esquecimento.

- M. Leite
 
 
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