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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Kingur - Gallard


Parte 3 - Gallard

Os dois seguiram juntos como duas criancinhas brincando em uma floresta encantada. Andaram tanto que os pezinhos de Sophie começavam a doer, transformou-se em um sabiá do peito amarelo e voou a frente de Karnel, que vendo a iniciativa de Sophie,  transformou-se também  e ambos voaram juntos até uma árvore enorme que parecia separar e guardar Kingur de algum mal.
- Onde estamos?
-  Estamos  na divisa de Kingur, do outro lado da Grande árvore está o  reino de Gallard, lá tudo é sombrio, sem cor, sem imaginação e sem amor. Olhe, vês  a escuridão e os tons de cinza?
- Vejo sim, é muito feio e triste. O que fazemos aqui?
- Temos que salvar Kingur de se tornar como Gallard.
- Mas como? Kingur parece bem, nunca será como Gallard.
- Kingur  era toda a dimensão beta, quando Gallard se instalou e foi tomando pouco a pouco o território. Hoje ele já tomou mais da metade da nossa dimensão.
- Que horror, mas como podemos detê-los?
- Foi por isso que te raptei da dimensão alfa, preciso de você, só você pode nos ajudar a salvar Kingur.
- Mas como? Aqui sou tão pequena e indefesa.
- És pequena porque queres. Mas isso não importa. Só preciso de uma lágrima sua.
- Deixe disso, não quero me meter nisso, estou farta de tantas coisas, de cisnes que falam, de um tiziu que se torna em menino, veja meu cabelo?! Sai glitter dele? Veja! Estou farta, quero voltar pra casa, e fazer as coisas como a menina que era. Já pensou quanto tempo estou aqui? Nessa pintura? Nesse quadro? Sei lá o que quer dizer isso tudo.
As nuvens negras como o ébano, tão densas que parecia a escuridão da noite, se precipitaram ao olhar de Sophie e o menino, estavam inertes sobre uma nevoa, ambos sentados, e os olhos deles brilhavam como safiras, ela fechou os olhos, cruzou os bracinhos e franziu os lábios, a tristeza e a trevas se aproximavam e o frio os beijou com intensidade.
Algumas gralhas negras voaram sobre os dois, um circulo macabro delas, grasnavam no ar, e riam-se, não tinha claridade, e a rara luz que vinha da lua os deixava prateados com o brilho mórbido do ser de luz.
- Sophie! Não faca isso, por favor!
- Que estou a fazer? Karnel deixe me em paz.
- Sophie, lhe peço, lhe peço, sua mente esta criando a atmosfera medonha e noturna, pense nos lírios.
- Não sou eu, estou enfurecida, não têm o direito de colocarem-me aqui, como uma mera criança, pequeninha, veja eu não aguento sequer comer um grão inteiro de arroz.
            - Sophie, você esta escurecendo Kingur.
            - Não! Não sou eu, o clima aqui mudou, não tenho culpa de nada.
            - Se não pensares nas flores, em Rafael, na beleza das tintas, ou nas frutas, Kingur será negro como o reino de Gallard, parece que não vês? Estou aqui o tempo todo te mostrando.
            - Não seja petulante Karnel, não estou fazendo nada, meus pensamentos estão apenas tristes. Deixe-me em paz.
            - Pode ser que  nada mais brilhe aqui.
            Levantaram, o menino colocou a pequena Sophie nos ombros e ela sentiu que estava nos ombros de um gigante, o chão estava longe e o frio estava intenso.  Pensou consigo mesma sem que falasse com Karnel enquanto ele andava rumo ao encontro de Rafael – Não vejo mais lírios, os animais sumiram, essa nevoa e a escuridão estão crescendo cada vez mais, estou no ombro de um gigante, que mais se parece um robô, ele não tem traços normais, nem sequer pisca os olhos, e para onde estamos indo? Oh! Onde estou? Quero sair imediatamente daqui.
            - Chegamos, aqui esta o lago.
            - Estas maluco, o lago não é negro, era anil, onde esta Rafael?
            - Estás ali.
            - Não, ele é um cisne branco e de luz, não um negro maltrapido, com olhos cansados e o pescoço baixo devido sua idade. Vou até lá questionar aquele velho cisne negro.
            - Não menina, o lago pode ter animais agora, e ele esta triste, não poderá conversar contigo. Não vês?
            - Que tipo de animais. – Perguntou com medo.
            - Serpentes, peixes carnívoros, vermes. Não sei ao certo.
            - Por que ele não é atingido pelo mal em baixo das águas?
            - Ele é um cisne, e é respeitado entre os demais, mesmo nessas condições.
            Colocou suas mãozinhas sobre os cabelos e viu que estavam secos, não saia nada mais deles, não tinha sequer uma partícula cintilante, Sophie tinha agora os cabelos negros, toda a vida e a beleza ruiva deles, fora tonalizada pela atmosfera lúgubre. As flores do lago estavam murchas, e o menino transformara em tiziu novamente, sua real forma, as frutas não existiam mais e a solidão se instaurou no bosque de Kingur, o reino que cintilava luz e tintas, estava seco e melancólico.
              Sophie não acreditava que Kingur estava sem cor e sem vida, fora em apenas alguns instantes, tudo se transformara em lúgubre falta de cor, falta de leveza, de beleza, de alegria. O tiziu  olhava para ela implorando por uma mudança, mas Sophie desconhecia o real motivo da transformação horrenda que se operava a sua volta. Sentou na beira do lago outrora límpido e cristalino e agora, imundo e fétido, cruzou suas perninhas e com a mão sobre o rosto chorou.
              Suas lágrimas escorriam como uma cascata e isso piorava ainda mais o ambiente, nuvens rubras se avolumavam sobre suas cabeças, relâmpagos e trovões estouravam no ar, o cheiro químico dos relâmpagos impregnava Sophie de mais tristeza e melancolia. Queria estar em casa.
             Karnel, o tiziu, implorava para Sophie se controlar senão destruiria toda a dimensão beta. Começou a chover, inundando os dois e congelando-os, Sophie chorava ainda mais, por ver como tudo estava piorando.  Karnel disse:
            - Sophie, olhe para mim.
             Ela levantou sua cabeça o olhou em seus olhos.
             - O que mais gostavas em Kingur?
             -  Não sei, gostava quando não estava chovendo.
            - Então confies em mim e pare de chorar.
            A menina parou de chorar lentamente, aos poucos se acalmando, notou que a chuva ia cessando a medida que suas lágrimas secavam.
            -  A chuva está parando por que parei de chorar?
            - Eu tinha te avisado que podias fazer qualquer coisa em Kingur, lembras?
            - Sim, mas não achei que era tão sério.
            - Pois é sério sim. Queres salvar Kingur agora ou ainda estás zangada comigo?
            - Ainda posso salva-lo?
            - Podes  se realmente quiseres.
           -  Quero.
           -  Então vamos, teremos que volta até Gallard.
           - Não quero voltar lá, olha o que aconteceu na ultima vez que estivemos lá.

           - Não temos outra escolha. Se você controlar suas emoções estaremos bem.
     
            Continua...


- Marcos Leite e Priscila Pereira


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sibil



Pules, não intervenha, está a espreita
Um uivo, ouço, não passa de um ritual
O alarido dos pássaros na noite, não existe.
Um lago, aqui jaz minh'alma.

Corte o lábio, e perfure, a agulha desenha.
Chamarão te de bruxa, um elogio.
Lance ao fogo, as partes podres
Os corpos estão nos ataúdes, com fartura.

Sibil, és tu, a lua da noite
Grasne seu sorriso para o breu
Um feitiço, hedônico, letal.
Assopre as velas, sortilégio lançado.

Sentado aqui, sob o luar refegado
Olhos erguidos, no céu cinzento
Sou violento, e isso és um tormento.
Ao meu redor, sinto as pupilas rúbidas cada vez maiores
me confrontarem...

Elas me afrontam a trucidar
Olhando-me e dizendo-me:
O que houve com você, filho, voltarás a ser quem eras!
Transmutação.

Respondo-lhes com uma pergunta parecida:
O que houve com nós dois?
A vida se esvai assim, sem avisar
Surge no céu como uma nuvem vulgar...

- Dueto de Mauro Alves e Marcos Leite

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Matizes


O peso de minha bagagem me cansa
Piso em folhas úmidas agora
O alarido dos pássaros sombreiam o horizonte
Chegando a mim, o frescor admirável do lago

Calço meus dedos nus de areia
Desço no galeio do vento
Entre o panapaná gris das pequenas borboletas
Canto minha canção.

Desanuvio as cores no degradê anil
Permitindo que a luz do sol apareça
Entre as cintilantes águas douradas

És mestra,
Oh! Pintura!

- Marcos Leite

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O espelho oval


              As opressoras rajadas de vento que sucumbiram sobre a palidez da neblina onde me encontrava atuou com maestria em meu sentir de que além do que estivesse pensando naquele instante, nada poderia mudar o trajeto de meus passos, singulares e contínuos passos.
Meus pertences assemelhavam a uma manada extensa, ruidosos, cada vez mais ruidosos, estive por alguns minutos me perguntando se algo me encontrasse eu teria minha vida ali tirada ou ainda que pudera estraçalhar meus olhos com supostas chaves. Piamente conclui que estivera solitário por aquela via, e nada que eu fizesse poderia tirar-me deste fim.
Janelas grandes e luzes, o que vira era isso e nada mais, o ar estava tão fosco que se eu me perdesse de mim encontraria apenas o cinza amarelado da calmaria e ainda assim perderia meus sentidos.
Enfurnado de lógicas banais sobre o cotidiano noturno que vivera naquela época, indiscutivelmente assopraria todo o salobro pó de minha mente ao encontrar com algo tão inesperado que ainda lhes mostrarei, e firmemente terei de saborear os olhos daqueles agourados leitores que assim se fazem prostrados a mim.
Instintivamente o que meus reflexos oculares permitiam encontrar era apenas uma construção antiga, árvores negras e toda a quietude que sequer desafiada foi por algum animal. Obviamente que o silencio tomara conta daquele lugar há mais de séculos, obrigando-me a contentar com a fajuta companhia de minhas vestes e o sopro soante da própria quietude.
Expurgado de meus medos encontrei-me ao cômodo com altura superior a oito palmos e meio, desvencilhado da mobília e abraçado por véus alvos, embora estivesse com feição severamente atenta alguns dos véus passaram por mim como rastros fulminantes, é fato que meu mero consciente arguido de poder, jamais aceitaria outra teoria.


          Quanto mais posso pensar dessa maneira em que meus dedos estão com vida própria, deliberados a criarem algo que jamais faria se estivesse francamente utilizando para benefícios próprios, a não ser que a arte não incorporasse em mim de forma tão abrupta, cá estava olhando entre um longo tecido, entre o atrito de questionar quais eram as hipóteses encontradas para tal objeto ofuscado.
Após revelado relutei meus membros a olhar entre o que me amedrontava encarar, assentei e coloquei meus punhos sobre a superfície, lisa e envernizada, senti que havia poeira e nada mais do que isso, fora criada a partir do carvalho, todavia anos tivessem esse móvel, o passado da madeira talvez tenha sido grotesco impondo-se ao motivo de estarmos nesses arredores.
Longe de estarem aquecidas, minhas mãos tragavam a ambiência do local, impulsionadas por minha face que as ordenavam, ao contrario do que se deduz eram apenas o refugio do que ela não queria confrontar, tragando toda a direção de minhas faculdades visuais para sim e não deixando que fosse tragado para ele.
A tênue consciência era o que não me atreveria desafiar todos os mistérios do ar com minhas possíveis lógicas humanas ao interpretar que uma vez que minha mente fora tocada seria afetada ainda que não pudesse correr de todos os devaneios. Justo é a lei da óptica, mostrando-me o que pudera ver, sutilmente que nada fosse tão controverso como meus gestos mas sim frio com meu semblante.
Saboreando de meu cabal estado, qualquer anomalia vinda de minhas vistas poderia integrar meus resquícios de loucura, ainda que pálido e com olheiras, a razão tomava conta de mim como se fosse um gado preso a grilhões pesados, todavia o aspecto da mobília era de horror, sem mesmo que pudesse me proteger, apenas com luzes baixas e quietas, eram tão inferiores ao brilho de meu charuto fumegante que se assemelham com velas inversas e seus rastro leve.
No que mais podia pensar a não ser o fato das portas estarem trancadas, ao invés de que fossem abertas para a ventilação de uma construção tão antiga. O molho de chaves fazia-me cócegas a procurar em todos os cômodos algum corpo ainda que morto para fazer companhia nessa nefasta madrugada. Seria patético de imaginar a quantidade de pessoas que já tentaram o mesmo. Ainda que deixe meus pertences presos aqui, o feitiço medonho das paredes dissimulariam minha vergonha.
Talvez encontrasse fotografias antigas, as quais sentiria-me, extasiado em fitá-las, embora toda a quantidade de artefatos ao arredor, asseguro que se as encontrassem contariam algo que suporia que fosse verdade em questão, mas não tão desastrosa realidade na qual eu imagino e o arrepio que meus membros inferiores sentem. Quiçá tivesse zombado de meus dotes investigativos, não relevei as previsíveis gavetas de onde me assentara. Eram velhas e pesadas, com puxadores prateados, um móvel antigo, pela espessura e tenacidade obviamente fora criado arduamente, e tão pesado e resistente que o tornou feio e inútil. Com mãos curiosas abri a segunda, e de nada vi, a não ser um pequeno dardo, e pó, muito pó, era tão comum nessa ambiência o aspecto imundo que jamais gostaria de sair dali, ainda que eu amasse o conforto, a tristeza e o anos empoeirados me desposaram.
Rapidamente coloquei as duas mãos sobre as extremidades, direita e esquerda com respectivas mãos que dão sentido ao mesmo, empunhei os dedos com força e coloquei um rastro de sutileza, era quase um truque para se abrir a quinta gaveta, já que esta parecia trancada com pregos espessos, como seu puxador de nada adiantava, recorri a essa hipótese, um tanto difícil, creio que por quase uma hora estive com toda esse trabalho e breves cortes no indicador e alguns mais profundos no polegar, de fato necessitaria ainda de uma alavanca de ferro, mas nessas ocasiões ainda que esperasse o sol banhar as gramas do jardim, meu peito teria se diluído em toda minha curiosidade e orgulho, era mais que um simples ato de tragar para meus próprios olhos o que ali encontraria, mas uma sequência de afronta para meu ego, ainda que austero de minhas convicções e orgulhoso acima do que aferiam como garbosa educação. O esforço trouxe o que não esperava, meus lábios se entreabriram e observei minuciosamente o exemplar que me revelara após muito empenho em abri-la.
Com traços avermelhados, estava escrito Arbre, letras finas, uma impressão feita fora dessa região, não apenas bela e colorida, tinha certamente explicação o fato de estar escrito em Francês, mesmo que minhas aulas do idioma estivessem longe de mim, a guarnição de minha mente, jamais deixariam que palavras como essas fugissem.
A atmosfera taciturna na qual me encontrava, fazia o ressoar de meu coração afinar um ritmo sonoro entre as paredes e o espelho oval, o qual eu permitia a mim mesmo esgueirar-me dele. Obviamente a oca tepidez de meu peito não afetara a comodidade dos demais cômodos da casa, mesmo que eu não soubesse o numero deles ou pessoas que estivessem por aqui. Mas lhes asseguro que um sentimento de tranquilidade pairava sobre minhas têmporas, ao ler tal trecho:

“Je laisse la vie comme un congé de l'ennui”.
- Álvares de Azevedo

                A retaguarda de minha insensatez não passava de uma fagulha de um fósforo, sobre a nobreza de um trompetista, mas tão banal como o preço de uma donzela fácil. Olho por dentro de minhas pálpebras e de nada vejo, alem do reflexo coroado, como uma coroa de tecido de um arlequim, sobre os traços feito por Hades no pavoroso inferno.
                A clemência que carrego torna ainda mais arbitrário minha decisão, assegurando o trecho do célebre escritor brasileiro, que ainda que me permita cruzar o sol, de nada poderá impedir meu olhar inquiridor defronte ao rosto que minhas meninas dos olhos retrataram de esguelha.
                Corrompo meus pensamentos acerca de que meus olhos se abram e então prostro-me sobre a figura macabra desse espírito maldito traga para si. De tortos e minguantes traços, o encaro, e o examino, um rosto levemente triangular, negro como o lago na madrugada, mas lustrado  identicamente ao cabo metálico de minha bengala, olhos profundos e sinceros, de brilho sagazmente cruel, sobre a cabeça a coroa tecida pelo deus.
                Ainda que relutasse minha cabeça na direção oposta, de nada seria feito, mesmo que traçasse uma linha imaginaria de possibilidades tacanhas para ludibriar o medonho rosto, mesmo que o pavor de meus sentidos pudessem ser vistos, eu mantinha o ódio aquecido em mim, e girando meus poucos pensamentos em busca de um cabal gesto de liberdade.
                O espírito imóvel de nada servia seus lábios, imóveis e rígidos, apenas seu olhar macabro mantinha a comunicação momentânea sobre mim. Reitero ainda que o sua imobilidade tornava esse breve tempo grotesco uma eternidade sobre meus medos e aflições, mesmo atuando em meu intelecto uma valsa de interesses e raciocínios atrapalhados.
                Honestamente sem que o tempo fosse generoso, o assoalho e as sedas alvas na qual cobria os anjos barrocos, participavam apenas dessa trama mórbida, ocupando-se de assistirem o atrito de meus membros contra o espelho. O dardo fora lançado sobre o semblante fantasmagórico que me encarava sugando dos medos a energia para se estabelecer como um agoureiro companheiro e assim me tragar para seu imundo aspecto e morada.
                Os estilhaços feriram singularmente a veia jugular e dela jorrou tanto sangue que minha camisa encharcada tornou-se escarlata e as preponderantes letras de Álvares de Azevedo começaram a cumprir-se.
                Ao inverso de que vi carnalmente lhes asseguro, sequer um pedaço do espelho caíra por terra, ainda com esbelta torneação emitisse o lúgubre passado e culpa, enganaria qualquer que fosse como um feitiço amaldiçoado na ruas dos Alpejivas, retamente coloco-me pronto a seus ombros, acerca de narrar-lhes o real motivo do olhar irretroativo do espelho oval, e traço os delírios quanto as possíveis e frustradas tentativas de corromper o triste fim.

- Marcos Leite   

terça-feira, 10 de abril de 2012

Alfredo e o Lago

  
Solenemente sozinho, a cavalo, olhando entre os galhos tortos, estava eu passando sobre o caminho do lago, as nuvens dissipadas do vento mais sulfúrico que poderia ter nessa época do ano, a acidez do ar mostrava quão o exonfre poderia consumir qualquer ser que pudesse habitar a terra.
Em meu peito um sentimento gelado como de uma grande dose de nitrogênio, tão frio que arrepiaria até um rinoceronte adulto, em meus delírios lembrava-me de sua ida. Sentia pelo fato de não o visitar com frequência requerida, era um de meus luxos me inebriar com alguns livros sobre minha poltrona a noite e me esgueirar de meu amigo.
Seus traços pecaminosamente belos, pálido e dentes alinhados, meu amigo, conhecedor de grandes estratégias de lutas, um soldado, dos melhores, porém morto de forma silenciosa e misteriosa, ainda assim julgo descobrir o assinassino ou ao menos a forma que o assassinio se propôs.
Um pássaro de mau agouro me seguia, entre os galhos eu jamais poderia o ver, o trote de meu animal ecoavam abafadiços e apenas entenderia o pio da ave que servia de maldição entre aquele desconexo e lúgubre atalho.
Tinha o aspecto mais negro e triste que já havia visto, as águas assemelhavam ao ébano diluído por ácido numa ação conjunta de uma tragédia emblemática de posições e cargos em um labortário, utilizando de mercurio e exonfre, provavelmente a corrosão do lago e os peixes aparentaria a cena que meus olhos retratam nesse momento.
Alfredo sentia sempre que o ar estava fosco um grande desejo de andar entre a relva e algumas vezes caçar animais estranhos ao entardecer, era sagaz e solitário, não se casara e sua vida era escura e baldia. Conhecia sua propriedade muito bem, mas sequer dava luxo de aproveitar de todas as continuas peripécias que o lugar lhe proporcionaria.
Estranhamente seus criados foram morrendo, até que a última, Helena, morrera de uma doença comum, contraída devido a umidade do ar e o excesso de bolor aglomerado nas paredes e móveis. Era uma mulher velha com saúde debilitada, parecia mais uma hóspede, pois sua função, deixou de ser uma ágil criada e tornou-se uma cozinheira desmazelada.
O pássaro que me seguia, creio eu que gostaria de mostrar algo sutil que não percebera, pois o trote do animal em que estava montado não relutou instante qualquer, mas seu breve pio parecia como uma locomotiva de minha mente, com espectros e uma grande quantidade de vozes soando semibreves e breves, semelhantes ao lamento de um clarinete.
Ao que me parecia mãos gélidas tocavam minha cintura, e nesse momento as achei generosas, estavam tocando algo que raramente fora deflorado por alguém, minha sisudez jamais permitira que eu fosse tão dócil ou agradável. Já intitulado como estranho ou mártir, estava eu com esses sentidos agora, comicamente as cabeças inúteis chamariam de um fantasma, mas o que era fantasmagórico não era esse meu sentir e sim o que estava a pensar, como foram encontrados cadáveres ao lago próximo a casa de Alfredo, desfigurados e todos sem o anelar. Supostamente alguma seita, ou quem sabe um simples pacto entre os mortos.
Veemente que eu não sentia nada que fosse ao lado de minha coxa, ao aferir que se a garupa tem algum indivíduo, por consequência tocaria próximo a carne de sua coxa e sentiria ao menos o volume de outro membro inferior tocando o meu. O ritmo do animal estava acelerado, com essa premissa assumo que estou só sobre meu potro e minha sela.
Mãos finas, finas e agouras é o que sinto em minha cintura, como mãos femininas, geladas e firmes, mas meu consciente elucidava outro destino para meus pensamentos, assim como entender os motivos dos crimes e quais foram os primeiros homicídios.
Ao longo eu avistava o lânguido lago, a morbidez atraia os olhos da lua,  qualquer raio de luz irrelevante poderia iluminar uma polegada do corpo sombrio, era absurdamente negro e viscoso.
Auferi as palavras da paisagem que expurgou meu delírio nefasto sobre, o agouro da ave continuamente tocando meus tímpanos, ainda assim não percebera se já teria se tornado um tormento ou realmente ela existira. Grandes e enormes proporções de batalhas era o que eu imaginava, mas de toda minha presunção, meu inconsciente era mais irônico do que poderia imaginar, as respostas trancadas com enigmas lineares de assuntos e chaves lógicas.
 Alfredo! Exclamei, a beira de sua lápide torneada em ouro, “Alfredo Fughir, um dos maiores homens de nosso tempo, tragado pela morte ainda jovem, será nosso tenaz soldado para sempre. RIP.”
Minhas lágrimas estiveram o tempo todo a minha espreita, mas não caíram, ate então o que tínhamos acordado em vida era de que aquele que encontrasse o espírito encapuzado se aquietaria de vez e assim permaneceria ao outro, sem palavras ou lamentações.
Preferi caminhar sobre a terra escura, espiar e afrontar os maus pressentimentos que o lago me traria, mesmo ciente de que toda e qualquer luta que tivesse de nada adiantaria, meu pobre e pequeno corpo carnal contra uma valsa de espectros praguejando e atormentados de seu fim determinado.
Ainda que a atmosfera estivesse pesada como meus pés, eu estava em paz, meu espírito estava acomodado a meu princípio, a visita fora concluída e o que me restava era aproveitar um pouco mais da morbidez da qual meus lábios se estreitavam.
Como não perceber isso, morto há tanto tempo, ainda quando um soldado, suas mãos obviamente seriam gélidas e leves, mas ainda não sei a espessura de uma mão que não vi, certamente eu sabia o porque de estar aqui, mas ainda que não tivesse ganho eu teria ludibriado meu consciente contra o misterioso inconsciente, era claro o motivo de sentir a mão de Alfredo sorrateiramente sobre o ílio, seu assovio personificado em um pássaro ou quem sabe um de seus amigos espirituais. Com toda pompa e gracejo me guiou até o local onde nos dois estaríamos em plena e sã harmonia, meu querido amigo me trouxe ao local combinado de nosso trato e jazeríamos aqui ou penaríamos até o esquecimento.

- M. Leite

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Saxupquy – Judith

Capítulo 5 - Judith

  
O perfume das magnólias era tão prazeiroso que ambos estavam em êxtase diante toda essa maravilha, ao fundo se ouvia uma música, similar a clássica, era a voz das rosas cantando, elas estavam longe mas era possível perceber o som, até mesmo um sussurro emitido por elas. As rosas embelezavam o caminho para o melhor lugar de Saxupquy, o templo de Judith, era próximo ao sino que não dobrava e tinham mais do que apenas flores e um sino.
- Acho que estão perdidos aqui!
Entre olharam e permaneceram calados.
- Não tenham medo, vim para ajudá-los!
Simão meneou a cabeça para a direita e viu ao lado de um arbusto uma menina, melhor dizer menininha, tinha lá seus oito anos, de cabelos castanhos e olhos mel, estava sorridente e tinha a voz fina e alta.
- Conheceram Juniceu e Shito?
- Sim, foram realmente agradáveis conosco. – Canebre disse com olhar bondoso.
- Shito é desconfiado, mas é muito bom, já não posso dizer bom moço, não é mesmo?! – entre gargalhadas continuou – Venham comigo, devo levá-los.
Com uma sútil dúvida e desconfiança Simão questionou o Capitão sobre confiar ou não na pequena jovem que aparecera do sopro das flores e com jeito tão meigo.
- Ouça caro, algumas outras passagens aqui foram piores, uma foi um lemore que me levou, outra um gavião e a última foi o próprio Shito,tive de me explicar mais quatro ou cinco vezes de quem eu era. Acho que a menininha vai ser menos difícil. – A essa altura ela estava há quase trinta metros de distância deles, mesmo que quisesse não ouviria as dúvidas e explicações de Canebre.
- Venham, não quero que se distanciem, passaremos pelo lago da dúvida.
- Simão, antes que me pergunte, é o lago dos questionamentos, aparecerá coisas na água, como um espelho, de coisas que sua mente projeta e você crê que exista. Preste atenção. Não caia nessa cilada, é fantasia, se vacilar a água vai lhe tragar, é gélida e te consumirá.
- Não sou um rapazinho, sei como lidar com tal coisa.
- Peço que não seja presunçoso aqui meu caro, não estamos no Indico.
Certo ar de receio pairou sobre o coração do marinheiro, o qual tinha mais curiosidade em desvendar os mistérios do que o próprio medo, no entanto nunca vira o capitão sendo tão inofensivo como horas atrás, até mesmo uma moçinha de seus oito anos estava obedecendo.
O céu estava pálido com rochas e águas ao redor, não havia vegetação, pessoas e muito menos flores, era o lago das dúvidas. Chegaram os três juntos, até mesmo se encontravam na mesma gôndola, com as duas mãos e braços fortes o Capitão prosseguiu remando.
- Aqui é um lugar escuro quase todo o tempo. Apenas nessa época o céu fica cinza, do mais ele sempre fica negro e tão escuro que não se enxerga nada.
- Qual seu nome moçinha?!
- É Carol!
- Nome bonito. – Disse Simão. Que mais tens a nos contar sobre o lago?!
- Acho que deve se preocupar menos com o lago, ele o instiga pelo mistério, mas o mesmo mistério que vai lhe consumir. Pense nas rosas e no festival assim que o sino que não dobra tocar.
- És muito sabia para uma menina de oito anos. – Afirmou Canebre.
- Não tenho oito anos já faz quase treze décadas.
- Tens a pele e o jeito de uma menininha.
- Não pense que aqui é semelhante a seu mundo, ja vivi mais que o dobro de sua idade, mas isso não quer dizer que quero ser velha, aqui se pode escolher sua forma física.
- É um truque? – Questionou Simão.
- Acredito que sim.
- Só pode ser um truque, as pessoas não sabem confiar em adultos, mas em crianças sim, pois tem a inteção boa com elas.
Após o marujo calar-se um tom de culpa soprou aos ouvidos dos homens, e alguns pensamentos vieram. Como alguém pode confiar numa criançinha que tem mais de cento e trinta anos e ainda cair em uma cilada como essa, pode ser que a nos leve para o fundo do lago, quantos ela já não deve ter tragado com essas artimanhas. Será que posso detê-la, quem sabe a jogando no lago, ou será que ela controla a cor da noite?! Esses pensamentos martelaram por mais de dez minutos a mente de ambos, nessa circunstância, deixaram de ser uma hierarquia e sem a menor dúvida consideravam-se amigos ou até mais próximos.
- O que é aquele belo banquete Simão?!
- Não o consigo ver!
- Próximo a segunda pedra -  apontou o dedo indicando-a.
- Vi, serão alguma oferenda? Seja la como for podemos aproveitar um pouco dela.
- Não estou vendo, Canebre está sendo enfeitiçado pelo lago.
Carol observava tranquilamente os atos dos dois, mas seus olhos não vacilavam em momento algum.
- Não pode ser, creio que seja sim algo feito e preparado para nós, quem sabe Judith não tenha mandado.
- Agora o posso ver, parece que a mesa foi posta há pouco, até duas velas deixaram. E três lugares a nossa espera.
- Reme, ande, estou com fome.
Os braços fortes do Capitão admitiram mais forças ao ver uma recompensa deliciosa a frente, se empenhou a remar mais forte para que chegasse logo e já não importava mais nada ali do que seus olhos conteplavam.
- Parem – ela teve de interromper.
Não adiantou de nada, apenas piscaram e continuaram a falar sobre o deleite que teriam assim que a gôndola chegasse ao lado da rocha plana que avistavam.
- Parem agora – Com tom de autoridade e uma voz mais grave do que um fagote, gritou Carol.
Ficaram olhando impressionados, deixou o remo de lado e se aquietaram, e continuaram fitando-a.
- Ja tinha os avisado, não existe banquete algum, não existe mesa nem cadeiras, não há velas, são mais vulneráveis do que pensava, parem de ser tão inocentes, já havia dito no campo das magnólias que o lago era traiçoeiro, sei que não saiu de minha boca, mas Canebre disse, e você mesmo vacilou e caiu em seu feitiço. Ouçam bem, não posso controlar a mente de vocês, e se continuarem assim vamos afundar em poucos minutos, devem pensar nas rosas é o único antídoto. Pois o lago e as rochas esclarece com o som delas, e caso pense nelas eles se encarregarão para que saiamos o mais depressa de sua derme.
Com tom envergonhado entreolharam-se e começaram a pensar nelas, Canebre tinha o brilho nos olhos, o brilho que todo o que as ouve fica, já Simão sorria ao imaginar como seria, já que o som era como um breve sussuro que vinha de longe mas era possível perceber a beleza do seu canto.
Algumas horas passaram, e tiveram alguns assuntos trocados, mas brevemente interceptados pela perseverança da jovenzinha como a chamariam na praia. Estavam já próximos ao campo das flores misturadas, era um dos mais belos jardins que ali existia, as tulipas, orquídeas, crisantemos e outras embelezam e indicavam o caminho.
- Venham caros, não estamos tão longe, ainda tenho de chegar cedo em minha casa, minha nonna não deve estar nada feliz com minha ausência. – Carol sorria -  Pensei realmente que se deixariam enganar pelo lago e suas miragens, mas vejo que são fortes e astutos.
- Foi de grande importância para nós menina, mesmo eu ja velho e não sendo marinheiro de primeira viagem dessa excursão tive de baixar a cabeça e reconhecer meu erro.
- Não se culpe tanto, até mesmo Shito já foi engado pelo lago uma vez, mas Juniceu jamais permitiu que isso acontecesse, ele é de luz esqueceu?! – Sorriu novamente como uma doce menininha.
O céu estava rosado e tinham nuvens nada comuns, eram arroxeadas e os pássaros eram menores do que conhecemos, mas era muitos, mas tantos que pareciam uma cortina de fumaça no ar. O som que vinha de cima já estava com tom mais elevado, mas não podia ser reproduzido por ninguém, a não ser apenas pelas rosas, ela como uma língua inacessível a outros seres, mas quem sabe a mais belas de todas.
- Conseguem ver?
- Sim, é o sino. – Disse Simão.
- Está brilhante hoje, é um dia bonito quando isso acontece.
- Que tal chegarmos até Judith logo?!
- Vamos sim Canebre, estámos a poucos metros.
O aspecto de todas as coisas que se viam era único, o grande sino, as cavernas, os seres e as rosas, ah! As rosas, eram milhares, de todas as cores separadas e muita harmonia, o cheiro era o mais agradável e a temperatura também.
- As rosas, ouça Canebre, estão falando.
- Fiquei surpreendido assim como você quando as vi pela primeira vez. São maravilhosas e nada em toda minha vida verei de mais belo.
- Estão prontos? – Perguntou Carol. A encontraremos agora.
Caminharam até o pé do grande sino que não dobra e olharam firmemente para ele.
- Suas palmas e assovios valeram muito meu caro amigo, você nos trouxe até aqui. – Disse o Capitão com olhar orgulhoso.
- Não, foi você Canebre, eu apenas fiz o pacto.
- Meu amigo, eu ja fiz isso por anos, mas tinha de passar para um outro em que eu tivesse confiança e então passei meu cargo para você, Judith já está ouvindo. E ela mesma sabia de minha decisão. Pegue a aliança e a entregue, está embaixo de sua sola.
Sem pensar e intrigado Simão levantou o pé direito e viu que tinha algo encravado a borracha, estava esfusiante e sem arranhão.
- Simão!
A voz veio de uma rosa magna, vermelha como o sangue e viva como o sol, era maior do que o costume, desabrochou e então os olhos do jovem marinheiro conheceram a beleza da ninfa.
- Me entregue a aliança vai começar.
- Aqui está Judith, que de começo a nova estação em Saxupquy.
- Foi muito valente de vir até aqui, e com honra o nomeio como guardião das estações.
Judith voôu até o cume do sino e colocou a aliança, e uma, duas, três e quatro badaladas soaram por todas as extremidades e as rosas iniciaram seu canto, com fúria e harmonia.
- Seja bem vinda a nova estação. – Gritou Judith e logo se escondeu de volta em sua rosa magna.
O calor do festival tinha abraçado os dois marinheiros, ou diz-se por ai piratas, mas com todo esse caminho a percorrer eram mais desbravadores do que simples homens que se embebedam e fumam, conheciam o que fazia as estações mudarem e tinham a competência de fazer com que isso tornasse cada vez mais correto. A jovem despediu-se e foi para sua Nonna, o festival continuaria até que a próxima estação viesse, a Primavera era a estção mais calorosa e não parariam de cantar até que o verão chegasse e fizessem menos alvoroço.
- Canebre precisamos voltar.
- Precisa.
- Não! Precisamos!
- Eu já contribui em minha vida com tudo, quero um pouco de descanso, quando voltar me darão como morto e você dirá que não sabe de nada, pois o mar me sugou e me matou.
- Já não sei qual mais é seu intuito. E também não poderia voltar após dias fora, já devem estar proximos ao Atlântico, a América do Sul.
- O tempo não é o mesmo, mas isso vai entender sozinho. Deixe me aqui, estarei bem. Quero um pouco de paz e quando voltar pode ser que seja mais novo que a menininha Carol. – Disse entre risos.
- Caminharei até a saída e então de lá não olharei para trás.
- Pedirei que lhe acompanhe. Mas que não espere minha ajuda com Shito da próxima vez.
Com tons pálidos o horizonte selou o ínicio da primavera, mas somente o importante acaso entre a perseverança dos homens, da menina e da ninfa poderiam fazer a estação mudar e dar ciclo na vida dos dois mundos. Ja que não se sabe se sair de lá seguro ou se entrar lá é perigoso, do que sabemos é que o sino tocará  a cada vez que entregar a aliança, e serão tocado o numero de vezes correspondente a cada uma delas, a próxima será apenas uma badalada, e as rosas saberão o repertório a ser seguido.
Já o perigo entre a vida e a morte e da incerteza e insegurança de não se confiar em qualquer um persistirá, enquanto o houver aqueles olhos fumegantes do guardião, o lago traiçoeiro, a rispidez dos corais no beijo do palhaço, se tais arestas e destinos precisam ser passados, os heróis mesmo que não tendo a melhor conduta  ou quiçá a melhor imagem a ser mostrada perante aos outros viventes da terra, mostra sim que são morais e integros de seu destino. Gostaría de saber por quais ventos se encontram Canebre e Simão, não tenho a plena certeza que o marinheiro tenha convencido o capitão de vir com ele ou vice e versa. Se há mais lugares que possamos os encontrar, que atraquem o Mademoiselle a nossa margem.

- M. Leite


 
 
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