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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Kingur - Gallard


Parte 3 - Gallard

Os dois seguiram juntos como duas criancinhas brincando em uma floresta encantada. Andaram tanto que os pezinhos de Sophie começavam a doer, transformou-se em um sabiá do peito amarelo e voou a frente de Karnel, que vendo a iniciativa de Sophie,  transformou-se também  e ambos voaram juntos até uma árvore enorme que parecia separar e guardar Kingur de algum mal.
- Onde estamos?
-  Estamos  na divisa de Kingur, do outro lado da Grande árvore está o  reino de Gallard, lá tudo é sombrio, sem cor, sem imaginação e sem amor. Olhe, vês  a escuridão e os tons de cinza?
- Vejo sim, é muito feio e triste. O que fazemos aqui?
- Temos que salvar Kingur de se tornar como Gallard.
- Mas como? Kingur parece bem, nunca será como Gallard.
- Kingur  era toda a dimensão beta, quando Gallard se instalou e foi tomando pouco a pouco o território. Hoje ele já tomou mais da metade da nossa dimensão.
- Que horror, mas como podemos detê-los?
- Foi por isso que te raptei da dimensão alfa, preciso de você, só você pode nos ajudar a salvar Kingur.
- Mas como? Aqui sou tão pequena e indefesa.
- És pequena porque queres. Mas isso não importa. Só preciso de uma lágrima sua.
- Deixe disso, não quero me meter nisso, estou farta de tantas coisas, de cisnes que falam, de um tiziu que se torna em menino, veja meu cabelo?! Sai glitter dele? Veja! Estou farta, quero voltar pra casa, e fazer as coisas como a menina que era. Já pensou quanto tempo estou aqui? Nessa pintura? Nesse quadro? Sei lá o que quer dizer isso tudo.
As nuvens negras como o ébano, tão densas que parecia a escuridão da noite, se precipitaram ao olhar de Sophie e o menino, estavam inertes sobre uma nevoa, ambos sentados, e os olhos deles brilhavam como safiras, ela fechou os olhos, cruzou os bracinhos e franziu os lábios, a tristeza e a trevas se aproximavam e o frio os beijou com intensidade.
Algumas gralhas negras voaram sobre os dois, um circulo macabro delas, grasnavam no ar, e riam-se, não tinha claridade, e a rara luz que vinha da lua os deixava prateados com o brilho mórbido do ser de luz.
- Sophie! Não faca isso, por favor!
- Que estou a fazer? Karnel deixe me em paz.
- Sophie, lhe peço, lhe peço, sua mente esta criando a atmosfera medonha e noturna, pense nos lírios.
- Não sou eu, estou enfurecida, não têm o direito de colocarem-me aqui, como uma mera criança, pequeninha, veja eu não aguento sequer comer um grão inteiro de arroz.
            - Sophie, você esta escurecendo Kingur.
            - Não! Não sou eu, o clima aqui mudou, não tenho culpa de nada.
            - Se não pensares nas flores, em Rafael, na beleza das tintas, ou nas frutas, Kingur será negro como o reino de Gallard, parece que não vês? Estou aqui o tempo todo te mostrando.
            - Não seja petulante Karnel, não estou fazendo nada, meus pensamentos estão apenas tristes. Deixe-me em paz.
            - Pode ser que  nada mais brilhe aqui.
            Levantaram, o menino colocou a pequena Sophie nos ombros e ela sentiu que estava nos ombros de um gigante, o chão estava longe e o frio estava intenso.  Pensou consigo mesma sem que falasse com Karnel enquanto ele andava rumo ao encontro de Rafael – Não vejo mais lírios, os animais sumiram, essa nevoa e a escuridão estão crescendo cada vez mais, estou no ombro de um gigante, que mais se parece um robô, ele não tem traços normais, nem sequer pisca os olhos, e para onde estamos indo? Oh! Onde estou? Quero sair imediatamente daqui.
            - Chegamos, aqui esta o lago.
            - Estas maluco, o lago não é negro, era anil, onde esta Rafael?
            - Estás ali.
            - Não, ele é um cisne branco e de luz, não um negro maltrapido, com olhos cansados e o pescoço baixo devido sua idade. Vou até lá questionar aquele velho cisne negro.
            - Não menina, o lago pode ter animais agora, e ele esta triste, não poderá conversar contigo. Não vês?
            - Que tipo de animais. – Perguntou com medo.
            - Serpentes, peixes carnívoros, vermes. Não sei ao certo.
            - Por que ele não é atingido pelo mal em baixo das águas?
            - Ele é um cisne, e é respeitado entre os demais, mesmo nessas condições.
            Colocou suas mãozinhas sobre os cabelos e viu que estavam secos, não saia nada mais deles, não tinha sequer uma partícula cintilante, Sophie tinha agora os cabelos negros, toda a vida e a beleza ruiva deles, fora tonalizada pela atmosfera lúgubre. As flores do lago estavam murchas, e o menino transformara em tiziu novamente, sua real forma, as frutas não existiam mais e a solidão se instaurou no bosque de Kingur, o reino que cintilava luz e tintas, estava seco e melancólico.
              Sophie não acreditava que Kingur estava sem cor e sem vida, fora em apenas alguns instantes, tudo se transformara em lúgubre falta de cor, falta de leveza, de beleza, de alegria. O tiziu  olhava para ela implorando por uma mudança, mas Sophie desconhecia o real motivo da transformação horrenda que se operava a sua volta. Sentou na beira do lago outrora límpido e cristalino e agora, imundo e fétido, cruzou suas perninhas e com a mão sobre o rosto chorou.
              Suas lágrimas escorriam como uma cascata e isso piorava ainda mais o ambiente, nuvens rubras se avolumavam sobre suas cabeças, relâmpagos e trovões estouravam no ar, o cheiro químico dos relâmpagos impregnava Sophie de mais tristeza e melancolia. Queria estar em casa.
             Karnel, o tiziu, implorava para Sophie se controlar senão destruiria toda a dimensão beta. Começou a chover, inundando os dois e congelando-os, Sophie chorava ainda mais, por ver como tudo estava piorando.  Karnel disse:
            - Sophie, olhe para mim.
             Ela levantou sua cabeça o olhou em seus olhos.
             - O que mais gostavas em Kingur?
             -  Não sei, gostava quando não estava chovendo.
            - Então confies em mim e pare de chorar.
            A menina parou de chorar lentamente, aos poucos se acalmando, notou que a chuva ia cessando a medida que suas lágrimas secavam.
            -  A chuva está parando por que parei de chorar?
            - Eu tinha te avisado que podias fazer qualquer coisa em Kingur, lembras?
            - Sim, mas não achei que era tão sério.
            - Pois é sério sim. Queres salvar Kingur agora ou ainda estás zangada comigo?
            - Ainda posso salva-lo?
            - Podes  se realmente quiseres.
           -  Quero.
           -  Então vamos, teremos que volta até Gallard.
           - Não quero voltar lá, olha o que aconteceu na ultima vez que estivemos lá.

           - Não temos outra escolha. Se você controlar suas emoções estaremos bem.
     
            Continua...


- Marcos Leite e Priscila Pereira


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Kingur - O rapto


Parte 1 – O Rapto

Andava apressada e com medo aquela hora da noite, as ruas estavam vazias, o ar era gélido, uma densa neblina cobria todo o horizonte. Preocupava-se em andar sozinha, mas nada podia fazer, tinha ouvido uma voz clara a lhe chamar continuamente, como se fossem ecos de seus pensamentos, até agora não sabia exatamente se era real, mas precisava averiguar.
Saiu da rua e entrou em um caminho que cortava uma linha férrea, era um campo bem extenso, coberto por grama baixa, no meio passava a ferrovia meio abandonada. O frio subia do solo como uma fina fumaça alva, tudo estava no mais profundo silêncio e Sophie olhava ambos os lados, apreensiva.
Um clarão cortou a escuridão da noite, Sophie olhou assustada e viu um portão dimensional se abrir a alguns metros a sua direita, um cavalo branco, um cavaleiro com uma espada em punho saiam do portão que se fechou. O cavalo vinha em sua direção; ficou paralisada de horror. O cavaleiro a segurou pela cintura e colocou-a sobre o cavalo na sua frente, presa entre seus braços. O portão dimensional se abriu mais a frente e os três passaram.
Ninguém viu o acontecimento, o campo da linha férrea continuava em silêncio e agora vazio. Sophie não podia acreditar que tinha sido raptada para outra dimensão, diziam que os raptos haviam cessado há muito tempo, como não imaginara isso quando ouviu vozes a chamar incessantemente o seu nome? Porque tivera que sair de casa? Fora uma presa fácil.
Karnel segurava Sophie bem forte contra o peito musculoso e ágil de guerreiro que era; não poderia deixá-la fugir, precisava dela.
Aparecera em uma flor, uma flor de lótus, rosa, bela, emanava beleza, o que pensaste? Viu seus dedos brilharem como pequenas lanternas de luzes azuis, e estava sozinha, a luz por trás das pétalas refletiam os reflexos rosados por sua pele e entre um vão de uma pétala, percebera que estava num lugar bonito, como um jardim, e se deu conta que era menor do que pensava, até mesmo um pote de novelos era maior que seu corpo.
Quedou-se entre as sedosas e rosadas pétalas, e admirou um belo cisne que nadava lentamente sobre um lago anil, e viu que ele era branco como a luz, e belo como uma aurora boreal. Ele se aproximara e ela temeu, ao ver que se aproximara da flor, ela flanou como uma pena nas costas da bela ave, e nadou com ele ate a extremidade do lago. O cisne tinha olhos azuis, e seu tom amigável, fê-la sentir confiança, acariciou levemente uma parte de tuas asas, com mãos pequeninas e pulou para a terra.
Sophie olhou para um espelho, adornado com sementes de girassóis, cascas de ovos trituradas, e um singelo lírio na parte superior, achou um tanto exótico, sorriu e percebeu que tinha cabelos fulvos ali, um vestido azul e uma fita verde que servia de cinto, estava bela, como uma pin-up, mas comportada como uma jovem na noite de seu debute.  Chacoalhou a cabeça e de seus cabelos ruivos pularam um pouco de glitter, mas algo amedrontou, ela não tinha sombra, parecia um fantasma.
Ao aferir teu reflexo, olhou de soslaio e viu um tiziu, negro, o pássaro, e ele posou sobre teu ombro, e disse baixinho:
- Conheces a ti mesma?
 Oh! Um pássaro que fala! – pensou alto, mas não se voltou para o tiziu.
- Sophie, não seja tão antiquada, estás em Kingur.
- Como fui parar aqui?
- Busquei-te!
- Estava no Brasil, como pegou-me e trouxe pra cá?
- Em meu cavalo, transmutei, somos transmutáveis aqui!
- Eu poderia ser uma borboleta?
- Se quiseres...
- Como faço? Gostaria de voar, depois me tornar uma leoa, e quem sabe um peixe.
- Estas admirada, mas não posso ainda, com o tempo vais entender.
- Porque pisamos nesse chão pastoso? Estou um pouco desconfortável aqui.
- Não estou pisando em lugar algum. Apenas no teu ombro.
- Pare de rir de mim – Sorriu bondosamente, e continuou – parece que vou ser sugada pelo chão.
- Não apetece para ele, estas pisando em tintas, a terra como dizem no Brasil, aqui estamos em pisando em tintas. Não vês que teus sapatos estão coloridos agora?
Em teus olhos brilhou uma chama de beleza, pensou e percebeu que estava num lugar bonito, pegou uma pequena flor, tão pequenina que conseguiu colocar em tuas mãozinhas, e a premiu levemente e ela se tornou um borrão de tinta amarela.
- Ei, porque somos tão pequenos aqui? Tive medo de um cisne tão grande.
- Somos como queremos ser Sophie, não quer ser como uma borboleta?
Sophie caminhou com admiração sobre os caminhos de uma trilha, o tiziu a seguiu, parando, comendo algumas sementes e muitas vezes desaparecendo. Ela pôs-se a cantar, e embelezou com trejeitos e a voz suave as grandiosas arvores, e bateu palmas quando viu de perto os olhos de um rã que estava ao pé de um tronco. Sorriu e saiu levemente.
Deu-se conta que estava longe de sua família, mas um panapaná de borboletas a enfeitiçou de beleza e maestria e ela admirou como uma criança, esqueceu seus familiares e o mundo por um longo tempo e não voltou a pensar nisso, as borboletas coloridas voavam  e dançavam entre si, ela disse alto para que elas a esperassem, pois ela também era uma delas, e queria fazer parte do grupo.
- Tens um apreço por borboletas!
- Não faça isso Karnel, não chegue de supetão, estou ainda um tanto admirada e assustada.
- Como sabes meu nome?
- Eu não sei!
- Sophie, estas começando a pertencer a Kingur.
- O que é Kingur? E como estou pertencendo a isso? Sou uma fada?
- Esqueceste o que eu te disse? És aqui quem quer ser. – De assalto ele voou para uma arvore bem alta e a jovem o perdeu de vista.

Temeu, o sol estava avermelhado, sabia que a noite se prenunciava, uma sinfonia começou, e ela olhou para os lados e nada viu, parecia uma musica erudita, mas como se fossem pingos de chuva ao invés de um robusto piano. Andou apressadamente e cruzou uma dezena de flamingos. E não percebera, mas teu rastro fora marcado com glitter, que saia de teus cabelos.
Continua...

- Marcos Leite e Priscila Pereira

 
 
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