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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quarto Fúnebre

O bolor aglomerado das paredes estampadas emanavam um hálito fétido de anos empoeirados e silenciosos, o fúnebre quarto parecia uma prisão, com janelas imensas, vidros escuros e cortinas grossas, elas por fim escondiam toda e qualquer luz no ambiente. As lamparinas estavam sujas, teias de aranha e mofo para todo lado. Os móveis em verniz não brilhavam nem mesmo com o reflexo do abajur, a escuridão e a umidade já tinham os consumido.
A maçaneta era pesada e cravejada com pedras, a chave tinha traços específicos de alguma seita. A porta estava um pouco escoriada, algumas delas, julgamos que sejam de unhas ferozes e aflitas.
O piano tocava e gritava aos quatros cantos da sala, dilacerava sua voz estridente e grave contra a mobília e a aquele grande e fino corpo feminino que o tocava, com as vestes em seda branca e cabelo mais brancos do que a neve. Os sons ecoavam sobre a casa, parecia uma festa de espectros e gárgulas numa dança macabra. A quietude dos cômodos e o brado do piano tornavam o aspecto da casa grotesco e fantasmagórico.
O quarto que onde encontrava-se a morta estava deixado de lado, estava ela, as paredes emboloradas e o som do piano, constante e plangente.
O horror não era nada inusitado e novo naquela ocasião, uma morte lenta e dolorida, o homicídio ocorrera de manhã até ao atrelar da noite.
Com nós firmes de couro, amarrados as extremidades da cama, vestido carmim e cabelos soltos, a interpretavam como uma estranha, aquela rejeitada pela sociedade. O lustre e suas centenas de velas fora envergado, de modo que ficasse rosto a rosto com a finada. Pingando uma a uma, suas gotas quentes pareciam navalhas singelas, uma a uma, iam cortando e grudando em sua derme, cada vez mais rápido de acordo com a rapidez da chama que ardia em cada vela. Elas caíam feito uma metralhadora sobre um alvo, sem piedade e abruptas. Em sua boca havia um lenço prata, bordado na China, e com o bordão da família, estava tão fortemente amarrado que todo e qualquer esforço para gritar eram inválidos. A cabeça fora tracionada por duas talas de aço como um fórceps fixo. Era horripilante o estado de seu corpo após perder o sentido, havia sangue e cera e um pouco de chamas espalhadas esporadicamente desde o abdômen até a cabeça, a cera a medida que  o fogo a consumia ela formava uma montanha sobre o corpo estagnado, algumas eram tão quentes que criavam chamas que apagavam brevemente, o estopim de algumas velas caiam sobre o corpo também, um ou outro deles continuavam com chamas, a pele cedera e o rosto e os seios foram deformados pelo calor e a ação da cera quente. A cada gota que caia, notas eram soadas pelo robusto e maldito piano, aquelas mazurkas e nocturnes de Chopin não foram as melhores lembranças dela, a morte veio com essas canções, que a apavoraram e atormentaram sua mente minuto a minuto.
Já a noite o piano cessou, a convidada fora embora e os motivos pelos quais seu padrasto teria executado sua morte lenta, talvez fosse o beijo e o carinho negado pela estranha jovem que gostava de tocar piano.

- M. Leite

Um comentário:

  1. Aiii que lindo esse meu amor *-----*
    Ameeeei :)

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