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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Memórias de Nina – Pequena alma

          O descontentamento esta em meu peito, como um vácuo espacial, um fluxo de pensamentos empoeirados e perdidos, presos sem que eu mesma possa exibi-los, como uma sílfide que esta presa a uma fonte e que nunca o querubim poderá voar. O vazio mora em mim neste período como um algoz, aprisiona meus pensamentos e faz de mim apenas mais uma nula entre tantos outros por ai.
           Não me importa mais o que todos pensam de mim, estou aqui nas ruas, entre alguns viadutos e minha morada deixou de ser meu lar, ainda não sei o porque, me vejo imunda, velha e sem sonhos, a mente que tanto brilhava, tornou-se em uma bruma marítima longínqua, até mesmo de mim, não sou mais a Nina que conheci, a desintegrei.
            Uma de minhas lembranças mais doentias foi de um jovem ser, a luz que iluminava meus dias, as proporções de ser uma mulher feliz, certamente deslumbrada pela vida e suas belezas, aos equívocos os arautos erguiam teus clarins, e aos sucessos, comemorações. Estive por nove meses a tua espera, jamais esperei tanto tempo por alguém, uma parcela de minha existência dimensionada em outra vida, um presente.
          No verão, quando ar quentíssimo escaldava intolerantemente, os preparativos da chegada se iniciavam, os móveis tinham um brilho singular, as pessoas aflitas, e quanto a mim a ansiedade havia consumido. Por algumas horas e alguns gritos, concebi minha filha, bela, com olhos negros, poucos fios em sua cabecinha, e um pouco menos ainda de pigmentação, eu a beijei e abracei por alguns segundos.
         Teus olhos me encararam como uma ternura jamais vista anteriormente, a pequena alma que temia o grande mundo, se aproximava de tua progenitora, a fragilidade era tão perceptível que ainda que eu pudesse omitir qualquer sombra de proteção, tua individualidade era tremenda, uma outra pessoa, próxima a mim, mas com um legado a ser construído, alguém que me faria tornar responsável por uma vida toda, mesmo que isso não tenha acontecido.
          A pequenina cumpriu sua missão no mundo em menos de quatro horas, em meus braços se despediu em um pueril sorriso de luz e carinho, apertou meu seio e meus dedos pela última vez, o que esperei por tanto tempo, e que a acompanharia até pelos restos de meus dias. Eu fechei os olhos naquele momento para o mundo, e me distanciei dele.
           O que pode importar a uma mãe quando parte ti se vai? Estou aqui, sozinha neste grande mundo agora, com todos a minha volta se questionando o porque não terem mais dinheiro ou prestígio. Eu não queria nada mais que alguns anos com minha menininha. E aqui estou. Sem nada, nem ninguém, pois, nada me apetece mais.


- Marcos Leite


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Memórias de Nina – Egoísmo

         A trajetória de um humano, seja ele qual for, é feito de vitórias, o êxtase triunfante do êxito e da grandeza entre os demais, as qualidades de se tornar um vencedor e as oportunidades para que seja um, concorrem com nossas derrotas, pois, a vida de qualquer homem é composta também de fracassos e erros. A origem do insucesso parte de nós e acatarmos com naturalidade é sorver um pouco menos de culpa que o meio nos remete.
              Externar as possibilidades de termos a quantidade necessária para uma existência plena difere de ser para ser, os animais necessitam de comida e um ecossistema para viverem, os pensantes necessitam de mais, o dinheiro, a grandeza, e muitos o sadismo.  Se todos estivessem a espera do juízo, descartaria obviamente a generalização da raça, mesmo se não estivéssemos, desprezaria mesmo assim. A grandeza de espírito de alguns não equivale a ganância de milhões, são almas azuladas, de luz e singeleza, a tranquilidade que as estrelas remetem a nós, e que a própria soberba acha pouco demais.
             A excentricidade é o ponto crucial de encontrarmos o asco em alguém, as palavras e interações tornam-se imundas nos obrigando a ignorar tais facetas de outrem, todavia, há particularidades na terra que devemos seguir, os sentidos ébrios festivos, conjeturas familiares, datas. Os grupos involuntariamente se mutilam com verbetes deploráveis de maior sucesso, os participantes publicam no ar suas conquistas e desdenham as demais, os que permanecem calados, são encarados em zombaria, mas poupam-se do ridículo e da consternação invejosa do meio em certas vezes.
              Devemos estar abertos para o que as pessoas têm a nos dizer e as inovações que nos cativam a viver, diferenciar nossas coisas dos demais, poupar a cobiça, a chaga da perdição. Os seres no espaço estão em pleno convívio com suas dimensões, as aguas não invadem as terras, e os animais não consentem da avareza.
        O egoísmo das críticas relata a ti mesmo tua falência intrínseca, censurar vestimentas, gostos, familiares ou formação anatômica, pressupõe uma vida infeliz e amarga, a inocência crepitante em busca da vida condecorada pela TV e as canções. Não existiríamos se comportássemos da maneira que todos gostaríamos que fossemos, a personalidade e a identidade anuladas por bestiais desejos caprichosos, isentando os verdadeiros olhos da realidade cotidiana, e atribuindo a teu ser a frustração.
              Objetamos arbitrariamente devido nossas perspectivas vivenciadas, a sagacidade de aceitar as derrotas e sustentar teu caminho a partir do fracasso permeia as zonas de orgulho, os viventes aboliram de si mesmos a aceitação de sua inferioridade, os pensadores podem explicar tal dificuldade dos povos, e quanto a mim, percebo que estou sozinha, maltrapida e suja, me tornei uma mendiga.

- Marcos Leite



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Memórias de Nina - Hedonismo


Ode ao hedonismo

                As estratagemas diferem-se pelos significados similares aos adversários, as guerras não se comportam desta maneira, a indução do poder ocorre como uma chama ardente aos privilegiados,  as diferentes maneiras de um agregado se esquivar é o desaparecimento, embora, as circunstâncias improváveis para que tal feito tenha êxito, são agravantes, o espaço físico e a pátria. As estratégias são formuladas acerca de enxergar os inimigos sucumbirem, e não poupam méritos aos combates. O que percorre o início dela não é somente as falanges inteligentes para o simples ataque, mas o orgulho, e embora no passado nada estivesse como hoje esta, os interesses são as marcas que determinam tal catástrofe humana.
                O passado remete a algumas de minhas pegadas, se assim for, seria considerada uma herege, hedonista, amar o prazer acima dos outros desejos, o bem estar e a tranquilidade que me remete a pensar no quanto tal palavra é divida em interesses, se em uma batalha as forças lutam entre si, o pensamento compartilha opiniões realmente inaceitáveis e apropriadas.
                O tema de todos os capítulos a seguir não passam apenas de intenções, pudor ou afetação. Discutiram sobre a perfeição do prazer, a felicidade e o convívio pleno, ainda que difuso, o egoísmo vil, a soberba e a excentricidade caracterizam a mesma vertente. O hedonismo em cruas partes, de pessoas opostas, pensantes, eruditos e imbecis. A inutilidade do pensar talvez enruga as ideias, vertem os desejos e escurecem os sonhos. O questionamento de interesses ao prazer permanece vil se tornarmos o sexo e a luxúria como um ponto maior a ser enxergado. Se as improbidades especuladas pelos hereges em terra são determinantes a tua afeição ao mundo, estariam de um lado da batalha, inclusive entre o clima austero e desprezível de teu próprio grupo de pessoas.
            A beleza da felicidade costuma inibir os prazeres carnais, orgulhosos e pestilentos, assegurando outra parte de um batalhão, a genialidade de frisar a beleza e o conforto para o corpo e a mente, exatamente ser egoísta de fato, ao preocupar-se consigo ao invés dos arredores, desprezando os demais e as interpelações, reconhecendo que quase toda a terra contribui para teu próprio egoísmo, todavia, o consentimento seja como um blefe.
                Um sentimento misto de ira e probidade, os relatos religiosos, a bondade e o azedume. A luz acorda algumas de nossas vontades, e a escuridão as esfriam, e o mesmo ocorre no inverso, a sinceridade de teu eu está mais aflorada quando és honesto.  Conjeturar e atuar em ocasiões, não lhe faz nada além de mostrar ao espelho um fraco. A tranquilidade de dentro nos injetam a lógica e a comunhão da existência conveniente, isso é o que em nosso interior é deduzido, mas não há tema ou discussão que a resposta seja única, até para você mesmo.
                Como na guerra, as mentes que usufruem de teu próprio bem são lançadas contra as opostas, os insultos, escárnios e elogios irônicos, há a sonoridade inconsistente as outras, e do outro lado dos sacos de areia nos enxergam como errados e anômalos. A humanidade teria paz e ternura se fossemos como formigas, a aceitação de uma organização de pessoas similares a ti, com deveres e prazeres, uma sociedade hedonista, amar a si mesmo, procurar teu prazer e busca-lo. E o poder? Talvez o inspirado se desse conta que sua atividade na mais alta cadeira é de fazer o bem a si próprio, assemelhando aos demais, o dinheiro e a autoridade torna os seres menos favoráveis a busca de sua tranquilidade. Assunto que são respondidos pela ganância e o tormento, dissertados por sua própria junção morfológica, as palavras os respondem.

- Marcos Leite



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de Nina - Terrestre


Parte ínfima
             Se os raios foscos que emanam de um abajur de lâmpada vermelha desse tamanha dimensão ao dia em possibilidades de nos tornarmos cegos e promíscuos ultrapassariam as barreiras da arte, porque a luz vermelha nos indicam coisas pecaminosas e com trevas entre os traços avermelhados da mobília? O verde propõe outra situação, e o azul a palidez belíssima dos céus. Asseguraria a mim mesma uma noite com todas as luzes, uma caixa estilizada pela técnica decoupage, com pequenas dobradiças em prata, um puxador vítreo rosado.
                Embora os números de nossas pegadas na terra não tenham sido contabilizados por nós mesmos, o solo adquire tal obrigação, se eu tivesse ainda meus pensamentos quando pequenina, concordaria com esse que escapou do fundo de minhas lembranças, sou uma contadora de memórias, mas a menina que há em mim sim, não eu mesma.
                Uma certa vez tive um sonho, e neste era um homem, talvez uma vida há alguns bons anos atrás, se realmente isso existir, eu adoraria ter sido aquele homem do plano onírico. Era rude e deflorado dos teus anos áureos da juventude, com seu caminhão e um companheiro. Viajava sentindo o norte do país, o caminho era feito de terra batida, assim como vamos para a zona rural de algum município, o calor escaldante e a pouca quantidade de água em seu galão. Se estivesse em outro lugar do planeta, talvez adquirisse outras descrições, eu o via em meu sono como um homem tenaz.
                No caminho o peso da carga e a precariedade do veículo colidiram junto ao tempo e o marasmo, estava numa via nua, sem pessoas, asfalto ou placas, eu, meu companheiro e o caminhão. O sol lançava rajadas de calor tão altas que a impressão de que estávamos sendo crestados a luz do dia.
               - Poderia pedir ajuda a alguém na última cidade?
               - Assim que o primeiro veículo apontar, acenarei em ajuda.
            - Traga: Parafusos dianteiros para rodas, cordas, e chaves, se possível graxa - com o sol e toda esta areia as peças foram empanadas – e não te esqueças, mais água.
                Ao trajeto de ida e volta de meu companheiro, enrubesci de cansaço e sede, as condições de entretenimento de um homem maduro eram as mínimas, o rádio deveria ser poupado devido as circunstâncias óbvias de uma bateria limitada. Cartas? Não havia parceiro. Um livro? Não vi em qualquer parte deste, talvez eu não fosse instruída nesta ocasião e vida.
                Com a volta do outro, percebi que os parafusos estavam errados, eram um pouco menores, as consequências de tal descuido ou ignorância de minha companhia, nos atingiu com o tempo, a cada dez  a quinze quilômetros a roda entortava, pois, os parafusos saltavam das rodas, e sabe la quantas vezes desci do caminhão, todavia em meu peito tive a anunciação de coragem e força. Um desafio que nenhum outro lugar poderia me propor, a vida em versos crus.
Percebo então que neste momento efêmero a misericórdia rogada. Enquanto o charco de oposições humanas ludibriavam o consciente de minha existência. A presença cândida de minhas preces procediam com ímpeto a sisudez de minhas vasta as transgressões.
Se houvesse qualquer hipótese de ser uma seguidora de outros princípios cumprindo o papel de uma imperatriz, bruxa ou sereia que habitasse qualquer parte do universo, de que importaria? Seria ainda assim a mesma, entre os olhos que cercam meus horizontes, e asseguram meus sonhos mais estranhos. Serei sempre um único exemplar em toda a existência de vida na terra.
Se os cadáveres tomassem conta de espaço que vivem, a terra seria ainda mais que uma simples composição de gases, o solo, traria uma civilização transitória para todo o sempre, se a matéria termina em pó, assim como os fragmentos rochosos que duram milhões de anos, se transformam em um solo quase próprio para o plantio, mas ainda com pequenas rochas e deste com o passar de eras se transforma cultivável. Mas os fósseis e cadáveres não tem tal poder não é Miss Nina? Se tivessem, a dimensão do globo teria triplicado, e teríamos uma camada de pessoas e animais, crosta, manto e núcleo.
Mas não esqueci dos mares, e ainda reitero que meu devaneio é em vão. Se não houvesse decomposição facilitada de corpos, teríamos um grande oceano deles, os camponeses e imperadores não aceitariam que em suas terras tivessem tal lixo orgânico nada fácil de ser decomposto ou reciclado.

              - Marcos Leite


sábado, 4 de janeiro de 2014

Memórias de Nina - Controvérsias


Parte 2.75

As pessoas são covardes, o mundo e as consequências talvez as fizeram assim, ou eu mesma posso ser uma mera covarde com os indicadores e a língua a espera de fazer uma crítica. É que nem sempre os vencedores são os que se dão melhor, as vezes você estar entre os melhores, não significa que você não seja o melhor em algo. As competições em alguns casos são irrelevantes, se os juízes são pessoas como eu, como podem escolher algo que não esteja em teu escopo de afinidades?
Você e eu nunca chegaremos a excelência e a perfeição, ninguém conseguirá, pois, ela não existe. A existência da perfeição só pode estar nos céus. A busca interminável pela perfeição, pela escrita difícil, pela pintura magistral e o perfeito acordo mundial que remete a ti inúmeros elogios, são empolgantes, mas isso não significa que é o melhor de todos.
A covardia dos homens não está apenas em competições, talvez o chamemos de imparcialidade, já a covardia é descoberta dentro de você mesmo, quando prejudica alguém com alguma mentira, o sadismo que instaura nos pulmões das pessoas, pode fazer bem ao ego, mas danifica o peito e em alguns caso nos presenteia com o remorso. Há inúmeros casos de covardia no planeta, com animais, pessoas, crianças, velhos e obras. Não sou uma doutora para me expressar de forma tão assertiva, mas a diferença dos tratamentos de crianças, pessoas e velhos são segregados.
Os velhos e as crianças estão próximos, pois a mentira e a enganação é muito comum, as pessoas, que assim podem ser considerados as adultas, gostam de trata-los assim, o tempo é também guardião dessa tal covardia, ele diminui o raciocínio dos mais velhos, e as crianças os presenteiam com a inocência. Quanto aos adultos, eles comprometem teu próprio tratamento, além de mentiras e enganações, adicionam a deslealdade e um pouco de inveja. Acho que estou nessa transação de criança/jovem para adulta e isso é um pouco deprimente.
Posso perceber que as ofensas são comum na vida adulta, e todo o plano de ser bonzinho quando pequeno é a esperança remanescente dos que já se tornaram adultos, acerca de tu não tornares como eles. E isso embora todos anseiam o resultado é o mesmo. Se tornarão uma faixa etária, independente de ter uma mente brilhante ou infantil. Será julgado e tratado  da mesma maneira do que os da sua idade. E a cobrança da vida adulta é etérea e cinzenta.
Estou com um pouco de inveja deles que estão nas árvores, não tenho tanta disposição quanto antes, se me arriscar a apanhar algumas jabuticabas, pode ser que escorregue e caia, estou com saudade de quando era menina, e as coisas pareciam um arrebol degradê, bonito, cândido e iluminado. Hoje parece que meus dias são todos iguais, são as mesmas atividades rotineiras, a malícia e as contas para pagar.
Um raio de luz é como uma flerte de esperança que vem das nuvens, sou uma adulta, mas me orgulho também, plena e convicta de quem sou, não totalmente como gostaria, mas sagaz o bastante para interpretar minha vida de diversas maneiras, e conseguir observar as outras. E apesar de eu participar de uma faixa etária, tenho a certeza que estou aqui, tenho minhas intenções e devaneios, não estou nesse mundo apenas para olhar ao redor e viver como um animal preso, mas compartilhar minha existência com os demais, já pensou que daqui duzentos anos pode ser que pesquisem sua vida como integrante importante da sociedade no tempo em que viveu?

- Marcos Leite


sábado, 21 de dezembro de 2013

Memórias de Nina - Existência


Parte 2

Me aventurei em minhas possibilidades cruas, pálidas e insossas, o que eu poderia ser além de mim mesma? Penso as vezes que as qualidades dos demais sempre vão superar meu entendimento, de uma jovem em constante mudança, e a velhice se aproxima como uma grande carruagem espartana. Acho mesmo que estou sozinha aqui. O mundo é recheado de pessoas e animais, casas, dinheiro e árvores. Em apenas um segundo o planeta inteiro sofre mudanças enormes, e eu mesma posso sentir apenas o leve toque de uma calmaria.
       Se há milhares de moças como eu, porque ainda não encontrei alguma que fosse, poderíamos fazer uma tatuagem parecida, criar um selo de irmandade, e em um dia quem sabe ao longe quando os rapazes nos avistassem, poderiam pensar que somos irmãs.
         Há tanto o que pensar sobre as ofensas cotidianas, embora os dias sejam lentos e os anos absurdamente apressados, me sinto como se estivesse liquidando todos os pensamentos vis, o perdão e o desapego fazem parte da vida adulta e estou saboreando de forma tao saudável que ainda posso crer que talvez eu não seja tão exclusiva assim. Mas parece que as vezes estamos entre uma bifurcação entre o bem e o mal, pensamos em grande parte das vezes que se todos estivessem bem o planeta seria alvo e sorridente, e o que deixamos de alcançar o torna sujo, a frustração. Gostaria que não me cobrassem tanto sobre as escolhas. Mas eu Nina, porque ainda tenho de me apropriar de tais respostas se sou a proprietária de minha existência?
          Em um passo apenas consigo corrigir o desvio e um pedaço de papel que se dobrou, os meninos em cima da arvore não param de gritar, acho que estão eufóricos com a presença de um tucano na arvore vizinha. Caso eu tenha me permitido a olhar para eles, estou um pouco feliz pelos meus lábios também se contorcerem de forma sutil e alegre. O que se leva de todas as incongruências encontradas ate agora? Um pouco mais aqui me dedicando a meus botões e a salada de cenoura será abortada para um omelete engordurado e calórico. Mas se não há problemas qual a graça de se viver? Ainda não estou no céu.
          A morte é o frenesi evitado por todos. Onde as células deixam de reproduzir, e as estrelas anseiam por seu brilho, tornar-me-ei uma. Enquanto isso, penso que isso é triste, alguns se vão e os caminhos entortam, a saudade talvez perpetue até mesmo sobre as estrelas brilhantes, sendo assim o pó do passado me fisga de imediato ou recorrerei ao juiz do tempo?

- Marcos Leite


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Memórias de Nina


Parte 1

Quando olhei para o vento, vi que as jabuticabas estavam amontadas sobre os galhos e muitas crianças ao redor e a colher, percebi a distância, em que meus pensamentos flutuaram entre o passado e o presente, e aqui estou, mais velha e adulta. Oh! É como se uma tarde de verão acometesse aos meus dias áureos, e assim perpetuasse aquele momento. Embora, eu esteja prestes a comprar um pouco de cenouras e tomates, há ainda a salada para fazer. Mas ainda percebo que isso tudo não se esgueirou de mim, estou aqui, e a luz que transpassa as folhas me fornece a gentil companhia, e essas crianças sujas e sorridentes fazem perscrutar meu interior.
         As cartas empoeiradas... De repente lembrei-me delas, ri e chorei, estou solta nesse mundo sem aspas ou pontas a aparar, o mundo se esquivou e eu me perdi. Se importassem todos os méritos que adquiri até hoje, eu estaria sorrindo ao invés de largar meus pés e sentar, questionando o porque do destino e as interferências ocorrerem de modo a atrapalhar os sonhos de uma pessoa, assegurando somente o amargo sentimento de frustração. Muitos insinuaram que tive oportunidades, e a melhor forma de tudo se solucionar é acreditar e correr, mesmo que seja pelos quarteirões.
      Um doce de nozes, tortas e cremes, são tao fáceis de serem feitos, se pudessem provar um pouco de alguns, uma contribuição generosa, exerceria um favor as tuas memórias, as vejo assim, participei de coisas, e cá estou a pensar, que as nozes me lembram do sabor adulto, o que jamais abracei quando menor, o morango sim era meu predileto quando jovenzinha, e como o tempo e as condições climáticas não só mudam a vida vegetal, mas a mim também mudou. O frio faz parte de mim em muitos casos, e o gosto adocicado da fruta vermelha mais famosa, se foi.
       Assim que as aves voarem para o sul, sondarei mais casacos, e o de sempre, gengibre, me faz bem. Acontece as vezes que pensar em todas essas mínimas coisas são tão inúteis e requerem meu tempo e a ocupação da minha mente, acima de tudo, acho ao menos que estou pensando, alguns sequer fazem isso. Há muito do que desvencilhar de meus dias mais escuros e brancos, não como um tabuleiro de xadrez, mas a caminhada  de qualquer homem, ou mulher no meu caso, é mais incerto do que posso deduzir. Hoje tenho sapatos com plataforma, há alguns anos, entendia realmente do tato, sabia quando pisava na areia, grama, terra ou nos paralelepípedos, não havia meias ou sapatos, andar descalça é o que me lembro agora.
      O som do fagote é extremamente irritante quando teu vizinho é um principiante qualquer, o estorvo é tao constante que até a massa de meu pão ficou engordurada, e já nem entendo mais o dialogo da novela vespertina, torço para que se acomode e sua disciplina se esvaia entre os soar do instrumento, assim como vão para as nuvens e os querubins devem estar esgotados de paciência.
        A tendência feminina de me tornar uma senhora mal humorada é calculável, todas as coisas no mundo são medidas e anotadas, um núcleo de pessoas e a matemática unem-se e criam a estatística, a qual é seria, caso prefiras fazer parte dela, os números estão espalhados por todos os cantos, dizem por ai que os homens estão vivendo mais, as pesquisas sobre curas, há inclusive números que mostram pessoas que quebram tabus e outras que os fortalecem, calcula-se mais do que pensas, até o numero de pensadores pode ser mensurado, mas de que adianta? Se o que tens eu teu interior não ultrapassa nada além de teu próprio viver, és totalmente responsável por eles, e ainda talvez se enquadre em alguma esfera estatística, pois bem, não disse anteriormente que tudo pode ser medido? Talvez, se perturbarem meus dilemas com transgressões ou confusões, então não poderão me medir, serei única, o que neste momento vejo que sou.
       Quando a primavera vir, posso ter um pouco menos de angústia ou felicidade, os sentimentos parecem estrelas cadentes, nunca se sabe o momento certo, contudo, a plena certeza que elas estão ali. E pode ser que as veja, ou que vire o pescoço no exato momento, quando chegar a primavera não quero estar com a cabeça inclinada para o lado. Uma folha macetei entre o polegar e o indicador, elas lembram a vida, mas são fedidas como a vegetação sem cuidados, selvagens e verdes, gosto de sentir o cheiro de folhas espremidas pelos dedos, habituei meus sentidos a se comportarem sincronizadamente, há memórias abertas.

- Marcos Leite


 
 
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