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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de Nina - Terrestre


Parte ínfima
             Se os raios foscos que emanam de um abajur de lâmpada vermelha desse tamanha dimensão ao dia em possibilidades de nos tornarmos cegos e promíscuos ultrapassariam as barreiras da arte, porque a luz vermelha nos indicam coisas pecaminosas e com trevas entre os traços avermelhados da mobília? O verde propõe outra situação, e o azul a palidez belíssima dos céus. Asseguraria a mim mesma uma noite com todas as luzes, uma caixa estilizada pela técnica decoupage, com pequenas dobradiças em prata, um puxador vítreo rosado.
                Embora os números de nossas pegadas na terra não tenham sido contabilizados por nós mesmos, o solo adquire tal obrigação, se eu tivesse ainda meus pensamentos quando pequenina, concordaria com esse que escapou do fundo de minhas lembranças, sou uma contadora de memórias, mas a menina que há em mim sim, não eu mesma.
                Uma certa vez tive um sonho, e neste era um homem, talvez uma vida há alguns bons anos atrás, se realmente isso existir, eu adoraria ter sido aquele homem do plano onírico. Era rude e deflorado dos teus anos áureos da juventude, com seu caminhão e um companheiro. Viajava sentindo o norte do país, o caminho era feito de terra batida, assim como vamos para a zona rural de algum município, o calor escaldante e a pouca quantidade de água em seu galão. Se estivesse em outro lugar do planeta, talvez adquirisse outras descrições, eu o via em meu sono como um homem tenaz.
                No caminho o peso da carga e a precariedade do veículo colidiram junto ao tempo e o marasmo, estava numa via nua, sem pessoas, asfalto ou placas, eu, meu companheiro e o caminhão. O sol lançava rajadas de calor tão altas que a impressão de que estávamos sendo crestados a luz do dia.
               - Poderia pedir ajuda a alguém na última cidade?
               - Assim que o primeiro veículo apontar, acenarei em ajuda.
            - Traga: Parafusos dianteiros para rodas, cordas, e chaves, se possível graxa - com o sol e toda esta areia as peças foram empanadas – e não te esqueças, mais água.
                Ao trajeto de ida e volta de meu companheiro, enrubesci de cansaço e sede, as condições de entretenimento de um homem maduro eram as mínimas, o rádio deveria ser poupado devido as circunstâncias óbvias de uma bateria limitada. Cartas? Não havia parceiro. Um livro? Não vi em qualquer parte deste, talvez eu não fosse instruída nesta ocasião e vida.
                Com a volta do outro, percebi que os parafusos estavam errados, eram um pouco menores, as consequências de tal descuido ou ignorância de minha companhia, nos atingiu com o tempo, a cada dez  a quinze quilômetros a roda entortava, pois, os parafusos saltavam das rodas, e sabe la quantas vezes desci do caminhão, todavia em meu peito tive a anunciação de coragem e força. Um desafio que nenhum outro lugar poderia me propor, a vida em versos crus.
Percebo então que neste momento efêmero a misericórdia rogada. Enquanto o charco de oposições humanas ludibriavam o consciente de minha existência. A presença cândida de minhas preces procediam com ímpeto a sisudez de minhas vasta as transgressões.
Se houvesse qualquer hipótese de ser uma seguidora de outros princípios cumprindo o papel de uma imperatriz, bruxa ou sereia que habitasse qualquer parte do universo, de que importaria? Seria ainda assim a mesma, entre os olhos que cercam meus horizontes, e asseguram meus sonhos mais estranhos. Serei sempre um único exemplar em toda a existência de vida na terra.
Se os cadáveres tomassem conta de espaço que vivem, a terra seria ainda mais que uma simples composição de gases, o solo, traria uma civilização transitória para todo o sempre, se a matéria termina em pó, assim como os fragmentos rochosos que duram milhões de anos, se transformam em um solo quase próprio para o plantio, mas ainda com pequenas rochas e deste com o passar de eras se transforma cultivável. Mas os fósseis e cadáveres não tem tal poder não é Miss Nina? Se tivessem, a dimensão do globo teria triplicado, e teríamos uma camada de pessoas e animais, crosta, manto e núcleo.
Mas não esqueci dos mares, e ainda reitero que meu devaneio é em vão. Se não houvesse decomposição facilitada de corpos, teríamos um grande oceano deles, os camponeses e imperadores não aceitariam que em suas terras tivessem tal lixo orgânico nada fácil de ser decomposto ou reciclado.

              - Marcos Leite


domingo, 18 de março de 2012

Os elefantes não esquecem


Ainda que tarde já deva ter se pego sozinho olhando algumas letras de sua mente e assim ter respirado com menor impulso, recordando de coisas boas e algumas desagradáveis mas que independente de ruins em alguns aspectos é tão doce de se lembrar.
Pessoas que passaram por nossas vidas, gestos e sorrisos que já  não estão mais a nosso alcance, visual, tátil e telefônico. Algumas delas ou uma, gostaríamos realmente que voltassem para nós, com os mesmos erros e defeitos, não importaria, desde que fosse verdadeiro.
O passado tem uma vantagem, caso seja um grande sorteado de trazer alguém de lá, pois já se conhecem e compartilham de carinho e experiências, não vai mais mensurar o quanto deve falar para não se tornar chato, ou o quanto se deve parar de comer para não ser visto como um guloso, a intimidade jamais é esquecida.
Um sorteio, o que já foi dificilmente volta, por suas consequências e diferentes caminhos que as coisas tomaram para ambos, mas em muitos casos ficam assuntos e arestas inacabadas, palavras que não foram ditas, lugares contrapostos por imediatismos e também a falta de confiança. Julgamos muitas vezes o erro sempre a outrem, de forma que nunca sejamos culpados por algo que não tenha dado certo ou caminho tortuoso que se fez, pecamos em apontar falhas e deslizes, quando poderíamos acenar com a mão em sinal de solidariedade.
Talvez nunca errar ou sempre deixar como está seja o caminho para o fim, alguns erros e desavenças são importantes entre os enamorados, amigos, pais, filhos e parentes, de certa forma todos que erram tem uma qualidade, pois muitos errantes fazem de tudo para reparar da forma mais justa e honesta possível, em contrapartida perfeitos nem sempre fazem por sentimento e sim pela simetria de costume.
A memória não pode ser moldada como os nossos sonhos, não temos essa faceta próximo a nós, infelizmente, ás vezes é dura demais e lembrar de episódios pode ser um tanto dolorido. Mas um tanto generosa, por recordar principalmente do que foi bom e de todos os sentimentos, cheiros e sabores que tenha vivido e provado.
Repensar é dar chances para o amor, muitas vezes deixamos de fazer escolhas certas pela pressa ou beleza exterior. Corpos belos deixam de ser perfeitos com o tempo, o intelecto e personalidade deveriam ser colocados como primeira cláusula ao se relacionar com alguém, pois o que mais vai fazer em sua vida, será conversar e trocar experiências, já o toque é sazonal, e cada vez mais vai tomar conta de que a capacidade de conviver em harmonia com os defeitos e jeitos é a melhor maneira de se viver.
Saudades, restam apenas saudades, de todas essas possíveis voltas, o que mais restam são saudades, a memória é alguém que nos conhece mas salva coisas que temos que procurar, todavia quando achadas o céu pode deixar de ser azul.
Talvez ainda não tenha se decidido, mas poderia lhe fazer a pessoa mais feliz do mundo, assim como as estrelas que sorriem para todos, a lembrança que perpetua sobre os acordes de nossos passos podem ser tão ávida como uma valsa.
Conhecer pessoas novas jamais irá apagar a porção de carinho ou amor que guardou para alguém em seu peito, conhecer alguém novo é dar uma chance para você deixar de se entristecer com quem se foi.
O que é de mais belo e integro é o sentimento exposto, pois é totalmente honesto e fiel aquilo que proferes, caso seja interpretado com escárnio pode-se concluir que o merecedor nunca foi dono de todo esse baú de sonhos e que se o passado quis assim é melhor seguir seu caminho e não se arrepender de nada, pois as paginas viradas varrerão todo o rastro de não reciprocidade.
Voltar atrás não é vergonhoso para ninguém, vergonhoso é manter algo que sente entre seus próprios medos e deixar com que o tempo se encarregue disso, algumas vezes somos parecidos como os elefantes, nunca esquecemos, deixe o orgulho e as vozes alheias de lado e olhe para seu horizonte e projete um futuro novo, a vida e o amor podem sim andarem juntas.

- M. Leite
 
 
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