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quinta-feira, 17 de julho de 2014

O homem lobo

    A intempérie esculpe os meandros deixados pelo tempo, inunda nossa existência de ruínas, em anúncio a debilidades naturais da vida. A força com que entramos na morte é conjecturada em somas medíocres de assassínios, rejeitamos a vida de forma crua, sem que intentemos a medida cabal da natureza.
       Segundo a lei dos homens, nada é inacreditável acerca de que os rumores perpetuem em tão longa escala de décadas, as sereias, os seres medonhos dos mares e rios, atraem homens e curiosos em seu canto envolvente. Embora tenham aspecto macabro, a suntuosidade de tua voz, explana aos ares o gracejo angelical sonoro. Sobre o aspecto circunspecto das tradições e lendas, encontramos as bifurcações das crenças.
       Ao longo esboço em que a vida percorre a perturbação de seu gênio tornando sua alma em um amálgama de loucura e ferocidade, as ações deliberam o cardo mais espesso de sua existência, tragando seu eu para o lado selvagem, o sinistro e a insanidade.
       Adentrando em um tugúrio imundo, por de trás de um manto finíssimo e surrado, os cabelos desgrenhados circuncidavam uma cabeça estranha, aos passos simples dentro do combinado, assentaram, olhando de frente a uma feiticeira. Os olhos brilhantes, de semblante hostil, os encaravam sem excitação, diante a tal faceta de uma visita que nada mais importaria, apenas receber algumas moedas de ouro.
       Como se estivessem deixando o óbolo no alforje negro de Caronte, anteciparam o pagamento, fora contado sem descrição pela bruxa, um a um, e em um sorriso desprezível os guardou. Antes mesmo que lhe pudessem contar o motivo de sua estadia efêmera os homens intimidaram-se pela perspicácia daquela que os interrogava.
       Dissera a um que a lua cheia se aproximava, e em algumas horas, poderia ver em seu caldeirão, onde a água fervia, as labaredas ardiam e o odor fétido já haviam se acostumado em tal circunstância, de que os dentes aumentariam, a pele enegreceria com pelos grossos, e a insanidade tomaria conta. Este, ficara gélido e estagnado em sua postura. 
       O companheiro não demorou a pergunta-la as medidas proeminentes, ela riu, em um grunhido vil, atirou a água ervas e condimentos, a lua se esgueirava em seu brilho primordial, dando assim o seu protagonismo noturno. O fervilhar do caldeirão manteve por algumas horas, a quietude imperava e o crestar da madeira servia de tortura fulminante ao peito deles.
       Ao cair da madrugada, pediu que um deles buscasse um animal peludo e de intrínseca ferocidade em seu instinto, acerca de que até mesmo o mais medíocre cachorro da rua lhe serviria, exigindo que o homem com o espírito mau permanecesse no local. 
       O frio e as protuberantes nuvens inundavam a região, dificultando a visibilidade da lua, em sua maioridade alertando que o tempo corria em passos largos, de longe o que se podia ver é um feixe de luz e fumaça que provinha de onde o homem lobo e a feiticeira se encontravam, as diligências em encontrar um animal não demoraram até que conseguira um gato grande e negro como o vestido que compunha o aspecto medonho da que lhe propusera o sortilégio.
       Diante dos dois, entregou o animal arisco e feroz as mãos sujas e feias, em resposta ouviu que somente se o homem lobo fosse morto por ela sua alma lhe diria o segredo dos lobisomens, os olhos da feiticeira foram fieis aos expectadores, arrancou do outro fios de seus cabelos, e em um aperto firme de uma agulha colheu um frasco pequeno com seu sangue. Quanto ao animal negro, amarrou-lhe os membros e em sua boca despejou a viscosidade escarlata, dando assim um aspecto mareado em seus olhos misteriosos, o afogou em seu caldeirão, e jogou os fios de cabelo ao fogo.
       Questionada por tal feitiço, ela os revelou que os anos de vida do gato seriam somados a do gênio bom do homem lobo, sendo assim a incerteza de manter sua vida comum por muito tempo, e que o feitiço traria por causa a colisão do mau gênio com o bom, e assim que o mau vencesse os anos protegidos pelo sortilégio, jamais conseguiria novamente fazê-lo.
                                                    - Marcos Leite



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de Nina - Terrestre


Parte ínfima
             Se os raios foscos que emanam de um abajur de lâmpada vermelha desse tamanha dimensão ao dia em possibilidades de nos tornarmos cegos e promíscuos ultrapassariam as barreiras da arte, porque a luz vermelha nos indicam coisas pecaminosas e com trevas entre os traços avermelhados da mobília? O verde propõe outra situação, e o azul a palidez belíssima dos céus. Asseguraria a mim mesma uma noite com todas as luzes, uma caixa estilizada pela técnica decoupage, com pequenas dobradiças em prata, um puxador vítreo rosado.
                Embora os números de nossas pegadas na terra não tenham sido contabilizados por nós mesmos, o solo adquire tal obrigação, se eu tivesse ainda meus pensamentos quando pequenina, concordaria com esse que escapou do fundo de minhas lembranças, sou uma contadora de memórias, mas a menina que há em mim sim, não eu mesma.
                Uma certa vez tive um sonho, e neste era um homem, talvez uma vida há alguns bons anos atrás, se realmente isso existir, eu adoraria ter sido aquele homem do plano onírico. Era rude e deflorado dos teus anos áureos da juventude, com seu caminhão e um companheiro. Viajava sentindo o norte do país, o caminho era feito de terra batida, assim como vamos para a zona rural de algum município, o calor escaldante e a pouca quantidade de água em seu galão. Se estivesse em outro lugar do planeta, talvez adquirisse outras descrições, eu o via em meu sono como um homem tenaz.
                No caminho o peso da carga e a precariedade do veículo colidiram junto ao tempo e o marasmo, estava numa via nua, sem pessoas, asfalto ou placas, eu, meu companheiro e o caminhão. O sol lançava rajadas de calor tão altas que a impressão de que estávamos sendo crestados a luz do dia.
               - Poderia pedir ajuda a alguém na última cidade?
               - Assim que o primeiro veículo apontar, acenarei em ajuda.
            - Traga: Parafusos dianteiros para rodas, cordas, e chaves, se possível graxa - com o sol e toda esta areia as peças foram empanadas – e não te esqueças, mais água.
                Ao trajeto de ida e volta de meu companheiro, enrubesci de cansaço e sede, as condições de entretenimento de um homem maduro eram as mínimas, o rádio deveria ser poupado devido as circunstâncias óbvias de uma bateria limitada. Cartas? Não havia parceiro. Um livro? Não vi em qualquer parte deste, talvez eu não fosse instruída nesta ocasião e vida.
                Com a volta do outro, percebi que os parafusos estavam errados, eram um pouco menores, as consequências de tal descuido ou ignorância de minha companhia, nos atingiu com o tempo, a cada dez  a quinze quilômetros a roda entortava, pois, os parafusos saltavam das rodas, e sabe la quantas vezes desci do caminhão, todavia em meu peito tive a anunciação de coragem e força. Um desafio que nenhum outro lugar poderia me propor, a vida em versos crus.
Percebo então que neste momento efêmero a misericórdia rogada. Enquanto o charco de oposições humanas ludibriavam o consciente de minha existência. A presença cândida de minhas preces procediam com ímpeto a sisudez de minhas vasta as transgressões.
Se houvesse qualquer hipótese de ser uma seguidora de outros princípios cumprindo o papel de uma imperatriz, bruxa ou sereia que habitasse qualquer parte do universo, de que importaria? Seria ainda assim a mesma, entre os olhos que cercam meus horizontes, e asseguram meus sonhos mais estranhos. Serei sempre um único exemplar em toda a existência de vida na terra.
Se os cadáveres tomassem conta de espaço que vivem, a terra seria ainda mais que uma simples composição de gases, o solo, traria uma civilização transitória para todo o sempre, se a matéria termina em pó, assim como os fragmentos rochosos que duram milhões de anos, se transformam em um solo quase próprio para o plantio, mas ainda com pequenas rochas e deste com o passar de eras se transforma cultivável. Mas os fósseis e cadáveres não tem tal poder não é Miss Nina? Se tivessem, a dimensão do globo teria triplicado, e teríamos uma camada de pessoas e animais, crosta, manto e núcleo.
Mas não esqueci dos mares, e ainda reitero que meu devaneio é em vão. Se não houvesse decomposição facilitada de corpos, teríamos um grande oceano deles, os camponeses e imperadores não aceitariam que em suas terras tivessem tal lixo orgânico nada fácil de ser decomposto ou reciclado.

              - Marcos Leite


domingo, 21 de abril de 2013

Homem de Lata


Sentimentos vãos, possibilidades perdidas
Em teu peito não palpitam semibreves 
Distancia-se das nuvens 
Habitando os dias de solidão 

A ti um coração de papel 
Que tenhas cores diferentes do brilho cromado 
Esqueças de engraxar tuas falanges hoje ao menos 
Dance comigo esta canção. 

Teus olhos são luzes, 
Nariz aquilino, boca sem traços 
És tu, Oh! Meu escolhido 

Se todos soubessem o quanto gostaria de amar 
Não teriam procrastinado tanto o amor 
És de lata, gélida e maciça 
É assim, só porque não tens amor. 


- Marcos Leite


terça-feira, 11 de setembro de 2012

O homem soberbo e o humilde

            Ainda que o odor do tempo me encontrara nesta sala vazia, é prazeroso sentir o abafadiço sabor dos anos que se passaram, percorreram por estas cortinas, os assentos e a este velho espelho. Uma vitrola entornada de prata com grande imponência, velha e brilhante. Uma família de bens, raramente teriam tais artefatos se não o fossem. Gasto meus olhos em pensar o quanto de luxo obtiveram, mas ainda sei que a maneira como traçou-se os caminhos, de nada lhes foram abençoados.
            Homens austeros e mulheres formosas, atenuavam qualquer chance de serem criticados, uma beleza ímpar, traços frágeis e delicados, consumiram de belas peles, carros e vinhos. Um grande gesto de integridade a sociedade, seus bailes, todos categoricamente escolhidos e decorados, teço ainda uma tela, e que seja pintada por minha memória as lembranças de dois amigos, que aqui também rondaram.
            Frederico Ornelas, O grande, impetuoso e nobre homem da sociedade e militância, seu legado invejável, rotulado como um major, ainda que seus fios estivessem brancos, o olhar severo e nu exibia a tenacidade de um cavalheiro algoz, saberias tratá-lo com devida educação, acerca que não bastasse um brado para me ver entre os policiais e a pocilga dos soldados, vindo da mesma linha de ratos traiçoeiros, que mata uns aos outros para sobrar-lhes mais comida e mordomia.
            Caminhou sua vida com grande requinte, entre o poder e as iniquidades, posso lhes afirmar, todavia, tinha afeto por alguém assim, sentindo me as vezes colérico ao imaginar as trapaças e a imoralidade dele pudesse alcançar os céus, reitero de minhas perspectivas que quem sabe as nuvens tem sido brandas com sua chegada, mas de nada me liberta a condenação da maledicência em vida e dos atos nefastos e vis com famílias e a inocência das moças de sua época.
            Permito a mim mesmo tocar nesta caneta, uma das douradas, era cintilante durante o dia ao vê-la encaixada em seu bolso do paletó. Uma assinatura movia montes, mas de nada mais que isso, um larápio imundo, a labuta nunca lhe foi próxima, mas sim o orgulho e a fortuna familiar, e toda a tirania com os seus e levemente amigável com os demais. Percebo o quanto essa caneta pesa, mas, ainda mais, o tormento que nela personificou.

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Nada valerá o dinheiro,
Nada valerá o luxo,
Quando o tempo
For lhe tomado

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            Permaneço com esse discurso monótono, mas acerca de fatos importantes, rapidamente perceberão a diferença proposta, há ainda tempo para traçar caminhos opostos, mesmo que de nada adiante, receberia ao menos uma menor pena, a culpa de transgressões liberta pela serenidade, e a bondade de coração, nada mais do que traças e pó poderá presentear, assim como a ampulheta irretroativa.
            Ângelo Prado, mero comerciante, benevolente de toda sua singeleza, dono de poucos dotes, nada mais do que uma velha loja de linhas e um ou outro tostão no banco, uma família bonita, edificou seu patrimônio com o suor de seus poros e a honestidade de seu ser, nunca foi um homem de cobiça, algo apenas que o deleitava, uma mesa farta e a imensidão da noite para sua mente. Criara filhos e seus netos, intencionado sempre na retidão, ainda que muitos homens de má fé o ludibriasse nos negócios ou na concorrência.
            Famoso entre as vozes da vizinhança, de todo seu lustrado passado, comportou-se de maneira que um homem deveria se comportar, tranquilizou sua alma com a devoção divina, caminhou pela pobreza, mas acerca que jamais lhe deixasse praguejar, correu por dias em busca de sapatos novos para seus meninos e grande força para se estabelecer após a ida de sua esposa, acredito que tenha sido devastado pela notícia, no entanto, auferiu seus frutos de acordo a sua inteligência e maestria.      
            Um bom amigo, sou grato por ter mostrado tão íntegro e sensato de todas nossas conversas e encontros, sinto falta do fato de tomarmos café sobre o balcão de madeira, algumas vezes soltávamos risadas altas ao sabermos que nossa amizade não mudara com o decorrer dos anos e pensavamos o quanto de tempo teríamos ainda para viver e continuarmos nossa comunhão.

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“Os moinhos de Deus moem lentamente, mas bem pequenininho”.

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            Debruçado em minhas memórias e sobre este pedaço de papel me recordo alguns outros fatos que fazem parte dessa trama anêmica. Estive ainda pensando em coisas diferentes, a procura de alguma explicação, seja da verdade ou mentira que estou pronto a dizer.
            Não me refiro a assassinatos ou crimes, apenas a mortes naturais, de em datas opostas e sem qualquer pretensão de uni-las para algum enlace absurdo. Não havia cumplicidade entre ambos, jamais se conheceram e me recordo das lembranças pelo motivo em que a vida se encarregou de por-lhes um fim.
            A soberba e a excentricidade de Frederico o corrompeu. Um velho caduco, não restava mais nada que dinheiro, uma fortuna inestimável, uma casa gigante e bela, invejavel até entre os de sua igualdade, lhe veio a demência após não ter sido o escolhido entre os demais majores numa honorária cerimônia quanto a glória de seu trabalho e competência.  Como um cavalo velho, que cavalga vagarosamente para que seus ossos frágeis não se partam, estava, aos cuidados dos criados, e longe de seus familiares, asseguro para minha própria certeza, de que jamais gostariam de ter um velho pernicioso em volta deles. Até que uma hora o tempo o presenteou com sua morte, e os bens e o orgulho se dissiparam entre os encargos administrativos e a ferrenha luta dos parentes.
            O amigável velhinho que vendia linhas, também teve seu fim, dos seus bigodes castanhos e a constante pigmentação de fios brancos, também atravessou o sol. De coração grande, teve muitos problemas em vida, nada que se comparasse a morte prematura de sua esposa, deixou-o com três filhos e a dor da perda, continuou seus dias com a gentileza e tranquilidade com que a vida lhe propôs, um homem trabalhador, inteligente e bondoso, permaneceu rígido de sua posição de pai, e nunca deixou-lhes faltar nada, passou a loja para seu primogênito e trabalhou até quando pode, vivendo de sua condição modesta, rindo-se nos almoços e jantares, entre seus cunhados, netos, filhos e amigos. Um dia a luz do dia resplandeceu e nunca mais ele a viu.
            Proponho um chá, quero sentir o gosto do hortelã assim terei mais com que me importar, ao que me recordar de histórias que participei, entre meus olhos algumas lágrimas involuntariamente correm, e sei que tenho a saudade de ambos, mas em meu ser aceito a condição de terem traçado os próprios fins. Saiba ainda que de nada poderia fazer a não ser compartilhar minha amizade com eles. E sei que tal carinho jamais pudesse ser selado caso não os amasse tanto.

             - Marcos Leite

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O odor da esperteza

As hipóteses de se tornar um grande homem são simples como o alvorecer, ao encontrar sua sisudez com o sopro fresco da manhã contorcerá os nervos e pensará em quais são as chances, inúmeras e virtuosas idéias, calmamente trocaria sua angústia por um dia feliz, a não ser que os olhos daqueles que te sondam estivessem cerrados, tratariam ao menos de sonhar com você.
          O que todos esperam de sua carreira não passa apenas de dinheiro, cargos elevados e respeito, seja sua soberba sendo acariciada ou o rubro vapor da excentricidade na qual é exalada de suas ventas e seu olhar. Se algum dia tocares a água, tornará o lago pútrido. Serias mais um em cada rua?  Uniria ao tempo e o histórico de atos, iludindo a si proprio de glória e felicidade por todas as trapaças escondidas em anos de maquiáveis tentativas sem êxito. Quando se burla algo, as pistas são o reflexo de sua mácula.
          Jamais fora acordado na terra alguma premissa infurnando todas as assinaturas precisas no fundo do oceano, um trato para que no globo obtivéssemos a honestidade e a retidão garantida para as liminares e os crepitantes acordos entre homens de boa fé. Um acordo dourado, talhado e enfeitado com com diamantes, pesado como uma baleia e belo como um colibri, mas nas profundezas do oceano, para que qualquer criatura cabalmente não obtivesse tal tesouro.
          Raramente poderiamos tratar isso como algo real, com tantas folhas perdidas nas gavetas dos maiores lugares que podemos ver, assim como as Organizações, União e repúblicas. Assim como o olhar próximo das câmeras e o grande investimento não bastam, oporia minha condição inútil de me acomodar ao que tenho que ver. Embora de minha têmpora expulse pensamentos arbitrários de como as coisas vão.
          Ligue os pontos diagonais e firmemente segure o arame, mas não o puxe, considere que está sobre os pinos das granadas, e com o menor puxão, fará saltar a ponte, raramente vai compreender o fato de que suas faculdades mentais são friamente comuns, ao revés, pensará que os estilhaços podem trazer o óbito rapidamente, então, olhará para o grande astro e a luz dele te questionará. E sabiamente pensarás em ti primeiramente ao invés de ajudar seus parceiros.
          Busca a jangada para que ao polido leme, empunhe, e cruze a linha do Equador em busca de suas memórias, julgando seus antepassados e praguejando a condição do clima, trate suas respostas com a quantidade de tranquilidade que ainda lhe resta, mas harmonize a exatidão dos fatos, ritualizando um dossiê de páginas foscas de sua conduta, abstendo as opiniões e buscando o caráter e a mansidão de seu peito.
          Se ao cruzar a sua vida, deixarás pra trás todos aqueles findos e prostrados, diante de seu próprio orgulho, com requerido dinheiro, mas com pensamentos vis e mesquinhos, olhares despreziveis e zombaria borbulhando de suas narinas, mas então, quando o sol aquecer a terra ostensivamente, mostrará o quanto foi perdido o tempo, as chagas da vida se contorceram nos orgãos e a vida murchará. O intelecto, cujo, o frêmito da velhice aconchegou aos olhos, tratará de se arrepender, e integrará o tango dos tragados pela perversidade. Trajados de linho, cartolas e vestidos de brilhantes, dançarão até que a loucura maldita da demência encarreguem-se deles. Mas tu não serás corrompido, pois a bondade em seu coração foi o ônus para o adeus confortável.
          Gritaria ao pé de um vulcao para as notas da sinfonia não o façam agitar-se, ao contrário traria o frio e a leveza de meus pés para acomodar um pouco de pólvora, insunuando um horror premeditado, mas evitaria a hecatombe surreal que jamais alguém ser tem a culpa de participar, embora o coração seja sujo, a ira que de mim não pertece, nunca me faria rasgar a terra e lançar nas entranhas as notas mais agudas. Se o perdão fosse cotidiano, galgaria o monte e jorraria meu poderoso brado a cidade, mas aqui, cabo e sem lábaro, limitaria a minha própria mente a esquecer  e garantir minha paridade de paz com os resquícios de iniquidades.
          Vista-se com honestidade para o jogo da vida. As arestas falhas serão tragadas por seu peso e restarão o combate com a imensidão de mentes traiçoeiras, atiçe o lastro com seu sarcasmo e derrube a torre com a lógica de sua mente, mas trate de amordaçar as bocas para que delas não saiam sua sentença, assim tratará de vencer sobre o larápio e o ensinará a boa fé, mas que não trate apenas de uma bela atitude, seja frio quando for atirar-lhe e saiba que a vida é um lampejo na terra.

- Marcos Leite


quinta-feira, 8 de março de 2012

Judie Houmulch


Sou Judie Houmulch, judia e sete anos de idade, vivo num lugar maluco onde as pessoas maltratam as outras e não há paz, mamãe disse que alguns deles vão colher cereais e frutas do outro lado da montanha, e esses nunca mais os vi por aqui, talvez quem sabe consigam uma condição de vida melhor.
Há dois anos atrás minha vida não era assim, com essa mesma roupa sempre, sem meu quarto rosa e minhas bonecas, aqui é feio, tem paredes manchadas e entra pessoas toda hora que nem mesmo sei quem são ou de onde vieram, a noite também, mamãe chora toda noite mas eu não sei o real motivo, ela disse que papai e Jacob meu irmão de vinte dois foram também para o campo colher, e um dia desses perguntei a ela o porque não voltam logo, a resposta foi que tem muito serviço por lá e em breve estarão de volta para casa.
As pessoas dormem em bandos aqui, em alas como se fossem legumes, mas ninguém reage aos homens de farda, também me disse que eles estão encarregados de nos proteger, mas gostaria realmente que a proteção deles não existissem, ontem vi um homem ser morto por não saber engraxar os sapatos de um desses homens fardados com semblante sisudo, ele sabia pobrezinho mas não tinha forças mais, já estávamos sem comida fazia quatro dias e a única coisa que recebemos foi um pouco de água escura que tinha um cheiro esquisito.
Hoje não estou mais como todas as outras meninas de minha idade, tenho uma aparência levemente masculina, meus cabelos estão curtos com os deles e minhas unhas estão negras, olhos profundos e uma roupa maltrapida igual a que todos usam aqui, com isso ninguém pode reparar no meu vestuário.
Existem homens fortes e grandes aqui, são muito malvados, não deixam sequer conversarmos quando estão aqui, ficam com suas armas e toda sua fúria, parecem raposas, raposas vestidas de verde a espreita de sua presa, pertencem a outro país, são loiros e também usam um bordão incomum em suas vestes, alguns no canto superior próximo ao ombro e outros próximo ao coração, uma cruz estranha com extremidades dobradas e se assemelham com um cata-vento, mas os canta-ventos são lindos.
De assalto todos foram puxados para fora do barracão, não esperaram as velhinhas levantarem direito e foram batendo, algumas delas se machucaram de verdade e mamãe estava o tempo todo com as mãos sobre meus olhos e ouvidos, mas claro que tinham frestas e eu conseguia ver e ouvir, o choro era infindo, não entendia o porque as pessoas gritavam tanto e quanta correria e  a agressão das raposas.
Até o ponto que consegui ver, todos que estavam lá dentro, enfileirados, um do lado do outro, as crianças assim como eu estavam a frente de suas mães ou avós e um grande número de vozes falando, orando e chorando o tempo todo.
Foi quando vi uma cortina de poeira levantando voo sobre meus olhos, com um grande número de raposas à sua frente, barulhos incessantes e cada vez mais intensos foram nos atingindo e o céu escureceu e quantas de nós foram caindo singularmente uma a uma sobre o chão que era imundo assim como o coração e índole das raposas.
Fui assassinada aos sete anos de idade em um campo de concentração, tive esse fim apenas por ser Judia, amar a Deus e não ter olhos claros e cabelos loiros, tive de deixar toda minha vida para trás por cobiça e orgulho de um homem só que corrompera a mente banal de muitos outros, alguns poderosos e outros interessados.

- M. Leite


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Edvaldo Lamarca

     

      Um homem com seus anos de meninice já deflorados, vivia em uma cidade pequena de seus poucos e comuns habitantes, com suas festas, missas, cultos e histórias. A cidade por ser pequena tinham lá os conhecidos da cidade, os famosos por nome e Edvaldo era um deles.
                Estatura média, nariz arredondado, sobrancelhas altas, olhos curvelíneos e boca fina, era um homem feio, uma pessoa com grandes posses e de certa forma influente na cidade, quando se tratava de negócios, pois a imagem era um pouco contestável.
                Tinha uma bela casa e trazia todos através de chás beneficentes, negócios entre homens e também para gracejos, onde seu corpo sentia uma certa necessidade por ventura, devido ser viúvo quando moço, não quis mais se envolver, deixara sua castidade no cemitério.
                Olhos cínicos e boca balbuciante, imagem prostada e maculada, assim os viam, claro, os mais humildes, pois sabiam que o mesmo não era tão inspirador como o jornalzinho da cidade e a burguesia diziam. Porém havia outro pensamento que vinha dos grã-finos. Ah! Um homem bom, cheio de boas intenções, com méritos perante a sociedade e a Igreja, alguém que todos queriam como parente ou genro.
                Apesar dos pesares, Edvaldo Lamarca era um mero cidadão com seus 36 anos de idade, vindo de uma família rica e influente da cidade, que aos poucos deixaria toda a glória e trajetória de sua família devido seus delitos impensados com jogos e mulheres, um embusteiro de mão cheia, que na visão da grandiosa e sabida linha azul, todos enganavam.

- M. Leite

*Não retratei nem descrevi alguma pessoa, cabalmente afirmo que foi um ser criado, ressalvo toda e qualquer calúnia a outrem
 
 
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