Social Icons

.

domingo, 18 de maio de 2014

Os espíritos acodem

            A neblina fosca e fresca aprumava entre os rochedos, as casas, e as árvores velhas, duras, negras, a luz não tocava o solo, os galhos tortos e as folhagens enegrecidas flutuavam ao vento sorrateiro. O hálito do caminho seguido de plantas escuras  intensificava a atmosfera bucólica, apresentava a palidez vital, os pássaros sobrevoavam em alaridos tristes, insetos adquiriam modesta presença e a escuridão trazia as sombras antes do entardecer.


            A mobilidade em tal propriedade mantinha os aspectos de outrora, os cavalos, e charretes perambulavam, um vilarejo enternecido no esquecimento, as vias de terra, a luz fraca dos postes, iluminavam com menor precisão, os troncos e mourões assemelhavam a fantasmas ao entardecer, mas nada tão obtuso comparar tais matérias naturais a meticulosos seres espirituais improváveis.
            Os celeiros estavam vazios, a quietude imperava como o sol nos dias mais belos na costa, os raios ofuscados pela floresta negra, deturpava a vida vegetal, a saúde dos campos e lagos eram debilitadas, o surgimento de novas espécimes era certamente negligenciado pelos aspectos climáticos e topográficos da região. Embora, a juventude mantivesse entre os animais, muitos deles permitiam adoentar-se brevemente após o nascimento, o que difundiam nas vizinhanças era que tal vilarejo, mantinha um segredo ou mistério, segundo os dizeres populares que asseguram ao ouvinte parte da história e parte da alegoria inventiva de velhos moradores.
            - Estaremos em alguns minutos em nossa nova casa!
            - Espero que breve, o andar desta carruagem me dá náuseas, e quanto as crianças, não as vê?
            - Uma aventura! Quando compraríamos uma bela casa, que dirá uma mansão por tal preço?!  Teremos de transitar em temporadas que preferirmos um pouco de paz e quietude.
            - Estou contigo querido. Quem sabe consigamos com o tempo calçar ao menos o caminho da estrada até a nova casa?!
            O aspecto jovial de Elisa e Demétrio mantinha a beleza de recém-casados, seus filhos Alfredo e Olivia, não tão belos, com sardas e cabelos castanhos, viviam em uma cidade maior, os pais eram donos de uma media companhia de calçados, a jovem Olivia além das aulas se dedicava a pintar, quanto a Alfredo, preferia jogos eletrônicos online. Em uma região inóspita de tecnologia, a utilização de brincadeiras e jogos antigos era o que proporcionava aos dois, qualquer diversão.
            Ao adentrarem os portões, se depararam com uma enorme casa, de peitoril em mogno, escadas largas, uma porta alta e espaça, ao primeiro contato, o charme da mansão os encantou. O dimensionamento da casa fora arquitetado, tinha a sua direita uma área de lazer com cadeiras, mesas e redes, e a sua esquerda uma fonte.
            - Queridos, podem escolher os quartos de vocês!
            - E quanto ao nosso?
            - Teremos uma vista bonita, e estaremos entre os quartos dos dois. – Disse Elisa.
            - Que achou da propriedade?
            - A casa é realmente fabulosa, há espaço e estou interessada em passar dias como nossos ancestrais passaram, ao esmo e longe da tecnologia. Mas e quanto a assuntos importantes da companhia? Já pensou querido?
            - Temos ótimos diretores. E de que adianta termos uma bela companhia se formos escravos dela? – Sorriu e a beijou.
            Os dias trôpegos se estenderam por horas em comemorações, conversas, jogos e especulação da propriedade. A sonoridade quase nula demostrava arbitrária a vida de ambos, impelindo de que permanecessem quietos por muito tempo.
            O luar já belo e estrelado os fizera admirar das redes a imensidão dos céus sem que houvesse interferência de arranha-céus e outdoors. À noite serviram chá e biscoitos, e manteve-se tranquila. Antes que pudesse pegar no sono Olívia, a mocinha, abriu parte da cortina de sua janela, espiou por um certo momento o gramado, e percebeu que havia um grande Ídolo no meio da fonte, o admirou por alguns segundos e deitou-se.
            Após o amanhecer, assim que o fiacre chegou, voltaram para a cidade, o final de semana fora belo, excluíram a exasperação da cidade grande, e aproveitaram a tranquilidade juntos por algumas longas horas.
            - Que gostaram mais na casa crianças? – Perguntou o pai.
            - Gostei do porão, posso fazer uma oficina de carros lá papai?
            - Sim, sim Alfredo, mas vejamos, aos poucos, não será tão fácil trazer todos os seus souvenires, temos de alugar essa carruagem, o carro não chega até a mansão querido. E quanto a você Olívia?
            - Gostei da estátua.
            - Estatua? – Questionou Elisa. Filha onde vira um ídolo na propriedade?
            - No meio da fonte, ele tinha uma expressão seria, mas bonita.
            - Não percebi, talvez estivesse maravilhada com a casa. Viu o tal ídolo que a nossa pequena disse ter visto?
            - Vi que havia algo na fonte, mas não reparei. No próximo descanso, assim que voltarmos veremos de perto a tal estátua, certo Olívia?
            O fiacre percorreu o caminho estreito até a rodovia, no vilarejo, havia um galpão que servia de estacionamento, pagou ao homem e combinou sempre que possível de leva-los até a mansão.
            - Posso contar sempre com você para nos levar até lá?
            - Sim senhor, mas desde que seja a luz do dia.
            - Acreditas mesmo nos dizeres que há uma assombração ou algo do tipo nos arredores dali?
            - Coisas estranhas acontecem naquela casa.
Demétrio deu de ombros, pagou e desejou uma boa semana. O homem olhou com certa preocupação e temor e acenou com seu chapéu. Enfiou o dinheiro em seu paletó olhou para o caminho onde ficava a mansão e por um breve momento aquietou-se.
O tempo na região era envolto de névoas frescas e incrivelmente as noites eram estreladas e de formidável luar, talvez, os mitos que ali percorriam, contribuíam ao menos para uma parcela de beleza, a noite. Se passaram cerca de cinco semanas, até que resolveram voltar para mansão. Quando chegaram na rodovia, o homem já estava a espera, eram nove da manhã, e com apreensão os cumprimentou e disse:
- Subam, temos um caminho sinuoso a percorrer, adiantemos.
- Grato por sua disponibilidade em levar-nos.
O percurso durou cerca de quarenta minutos, a terra estava úmida e alguns trechos parecia que as rodas atolariam, uma onda de ansiedade e desconfiança pairava sobre os adultos, as crianças implicavam entre si. Por um instante reconheceram que estavam felizes por estarem juntos e desprezaram qualquer boato sobre qualquer suposta anomalia.
Desceram. Os filhos logo correram para o jardim, e o homem persuadiu uma última vez a Demétrio:
- Caro, tens uma família bela, saia desta casa.
- Não posso compactuar com sua crença meu amigo.
- Acontecem coisas estranhas nesta casa.
O pai deixou-o falando sozinho e deu as costas, entrou no jardim e fechou os portões. Lembrou-se do que Olívia havia dito na primeira vez, chamou sua esposa e foram próximo a fonte. O ídolo era feito de pedra, com guarnições brilhantes, a matéria com que fora feito talvez tenha adquirido tal beleza com o passar dos anos, não era belo, nem feio, a expressão era intensa e rustica, o que assemelhava a um corpo caído em um barril de cera quente e lapidado sem severa precisão. A face era misteriosa e cínica. Em seu seio havia três pequenas flores em alto relevo, um de seus membros tinham a expressão de um jogador, erguido, com dedos abertos, o outro pendia levemente no ar, referindo-se a delicadeza feminina.
O que instigava em tal estátua eram as propriedades incertas de conhecimento quanto a se referir a um homem ou a uma mulher, não havia traços que remetiam a cabelos, mas uma espécie de véu com um nó utilizado no oriente, por marinheiros e lavadeiras. Os olhos do ídolo acrescentavam um olhar profundo, as narinas delgadas, e os lábios exibiam uma fenda, uma espécie de abertura macabra, a expressão era belíssima, embora as impressões de nossos olhos remetessem a um exemplar medonho. A expressão de sua boca elucidava o fato de ter sido esculpida quando ainda estava viva, os traços de pavor eram perceptíveis.
- Que exemplar estranho! – Exclamou Elisa.
- És bela e pavorosa, não é uma vênus, nem mesmo uma camponesa. Lembra-me mais uma bruxa bela.
- Não é hora para brincadeiras querido. Acho que devemos tirá-la daqui. A presença deste ídolo me incomoda.
- Podemos fazer o que preferir minha querida, mas e quando a Olivia?
- Ela se acostumará sem esta estátua estranha. Confesso que me deu arrepios.
Algumas horas passaram, e a noite adentrava a propriedade, o vento mais gélido e enfurecido que já conheceram chegara, as janelas bateram e as velas bruxulearam, mantiveram-se normalmente em seus leitos. Após as rajadas intermitentes, Olivia olhou novamente da janela e viu que estatua tinha um brilho envolvente, a cor era bela e a lua refletia com maestria.
Desceu as escadas e passou pelo jardim, a bruma lúgubre e densa a acompanhava, ela se aproximou da exuberante figura em pedra e fitou os olhos, eram profundos, Olivia por alguns minutos ficou admirando a beleza e horror misto de seu semblante. E em segundos voltou as pressas para a casa, olhou duvidosamente da janela e deitou-se.
Seu irmão, que havia ouvido seus passos, correu ate seu quarto e a indagou:
- Que fizera lá fora nesta noite tão escura?
- Fui buscar uma de minhas bonecas esquecidas no jardim.
- Não minta para mim, eu a sondei pela janela do meu quarto. Vi que estava perto da estatua. Que foi fazer lá?
Com temor a menina completou – Fui admira-la, mas...
- Mas o que?
- Ela sussurrou a palavra morte.
- Não acredito em você, assim como todas as meninas idiotas como você. – Bateu a porta e foi para seu quarto.
Mais alguns minutos passaram até que Alfredo fosse então ter-se com a imagem, ele a olhou com desprezo, pegou uma esfera de bronze, uma de suas que havia trazido, e arremessou no rosto do homem ou mulher de pedra, a esfera tiniu e voltou para o chão, próximo ao seu pé, arremessou novamente sobre o abdômen e voltou com força e passou de raspão no seu dedo mindinho, que lhe provocou um pouco de raiva. Assim que deu as costas para pegar novamente a esfera, ouviu a palavra morte sussurrada. Soergueu-se rapidamente e deixou-a na grama, subiu para o quarto de Olivia e bateu a porta.
- Olivia! – Disse aos sussurros.
A menina abriu a porta e com expressão de medo disse:
- Eu vi as esferas voltarem duas vezes, o que ela disse na terceira vez?
- Morte! – O menino disse com um brilho antes não visto em seus olhos.
Ficaram próximos e olharam do peitoril da janela e viram que o Ídolo não estava mais lá, atemorizaram. E correram para a porta, parceria estar trancada. Bateram por duas vezes ate que na terceira abriu. Assim que abriram a porta no meio do linóleo em frente o portal do cômodo, tinha delicadamente uma flor no chão. A flor era feita de pedra e não tinha nenhuma poeira do lado, como se fosse colocada suavemente ali. A menina pegou e segurou a flor. Entusiasmada pelo mistério, correram para a janela e se acalmaram quando viram que a estatua estava lá novamente, ou que por pura impressão, imaginaram por algum momento que tivesse saído dali.
O dia raiou, e o tempo encoberto pela nevoa e nuvens opressoras permaneceram o dia todo. Os dois evitaram se aproximar da fonte, no bolso de seu vestido, a menina carregava a flor de pedra.
- Crianças, que acham de fazermos um luau esta noite?
- Não acho legal. Temos tantas coisas pra fazer em casa. – Disse Alfredo.
- Realmente, podemos fazer uma peça teatral para você e papai. – Interpelou Olivia.
- Que houve, gostaram tanto do jardim, luar e a estatua.
Se entreolharam e disseram juntamente:
- Ela sussurrou uma coisa terrível.
Os olhou com desconfiança e premiu os lábios, pegou ambos pelas mãos e foram próximo a imagem. Ao se aproximarem, viram que no peitoral faltava uma flor, a mãe, olhou diretamente para a ondulação que faltava. Pensou por alguns segundos e decidiu colocar uma coerência ao caso.
- Crianças talvez tenha caído com a intempérie.
- Mas estava em frente a porta do meu quarto. – Disse a menina com apreensão.
- Não minta para mim Olívia. Diga realmente como encontrou esta pequena flor e de que maneira?
- Ontem quando todos estavam deitados, olhei pelo vitral e admirei a estátua, e algo fez com que eu ficasse próxima a ela, e então ela sussurrou.
- Quem dera a permissão para sair a noite? És uma criança!
- Apenas para você e o papai, já temos treze anos, somos gêmeos, e nos tratam como se tivéssemos no primário.
Elisa a repreendeu com um grito, a menina desdenhou, virou-se  e foi para a casa, seu irmão a acompanhou não olhou para a figura da mãe nem para o Ídolo. O sol estava fraco, as nuvens espessas, os sinais da chuva começaram a aparecer na copa das arvores, na fonte e na grama, recolheram e rapidamente a torrente de agua caiu, uma chuva interminável os abraçou.
Com o passar dos minutos, a mãe se aproximou do pai, e permitiu contar a historia da menina, ele levantou as sobrancelhas e acendeu um cigarro. A chuva trouxe a mansão uma presença mórbida, o farfalhar da agua fora pressionava o telhado e as paredes intensificando a possibilidade de eclodirem, as cortinas negras bailavam levemente, o vento vinha das soleiras das portas, e pequenas frestas das janelas, a lareira estava acesa, os quatro estavam na sala, os adultos liam, Olívia e Alfredo tinham um jogo de estratégia como diversão.
Um baque soou próximo a janela, estremeceram, e permaneceram quietos, novamente outro barulho com maior reverberação ecoou, a janela, cujo, o som provinha estava em linha reta com a figura da Imagem. Os raios que brilhavam na escuridão, davam segundos de vislumbre da situação fora da casa, e na segunda vez que clareou perceberam que o ídolo tinha desaparecido.
Solenemente o silencio reinou próximo a lareira, o que podia ser ouvido eram apenas o crestar da madeira ao fogo e a torrente de chuva. Após dez minutos de glacial quietude, o temor já tinha influenciado a família, até que um grande baque na porta os estarreceram. As batidas estavam enfurecidas, uma forte torrente de chuva, e a madeira queimava num arrastão.
- Abram! Sou eu, Tomas, o dono do fiacre, abram, por favor, abram!
O pai pegou uma bengala que estava próxima a lareira e a empunhou na defensiva, olhou de soslaio entre o vitral da porta principal, e viu que tinha um senhor de baixa estatura, com seu chapéu usual e mais outra pessoa do lado. Baixou a guarda, abriu a porta, os olhou e os convidou para entrar, antes que fechasse a porta, espiou a fonte, o ídolo estava intacto.
- Desculpem-nos a nossa abrupta chegada, estávamos preocupados com vocês aqui nesta casa. – Adiantou Tomas. – Olha quanta falta de decoro de minha parte, esta é minha mulher Ângela.
- Prazer! – Elisa sorriu com simpatia, porém, desconfiadamente.
- Que diabos os fez vir aqui tal hora e numa tempestade como esta? – Interrogou Demétrio.
- Ângela trabalhou nesta casa em outras ocasiões, e achamos que devíamos estar dispostos a ajuda-los, a casa é enorme.
- Poucas horas atrás disse que deixássemos a mansão, por acontecerem coisas estranhas. Agora querem nos ajudar?
- Caro, nesta casa acontecem coisas esquisitas. – Disse Ângela com olhos arregalados.
Entre o diálogo inquiridor do proprietário e dos estranhos, caiu misteriosamente dos degraus da escada que dava acesso aos quartos no andar superior, um objeto que tintilava com maior altura de acordo com que se aproximava do piso onde estavam, a ação da matéria do pequeno objeto fez que corresse um metro de distancia do primeiro degrau. De assalto o pai, foi e o pegou, era outra flor de pedra.
Os filhos se aproximaram da mãe e entregaram-na a flor que foi deixada em frente a sua porta, agora, os hóspedes olhavam para ambos com insegurança, o pai voltou com fúria e gritou – Alguém está com péssimo humor esses dois dias! – A voz de Tomas apaziguou sua ira e deu um pouco de lógica aos fatos.
- Vejam bem, temos muito a contar para vocês. Vivemos aqui a vida toda, e como sabem, no Brasil, alguns gostam de cuidar da vida dos outros, ouvi e asseguro que Ângela também, desde jovens como seus filhos, que a propriedade era amaldiçoada por algum espirito ou mal inexplicável, as tratativas para que tal enigma fosse desvendado foram deliberadas por quase todos os moradores, alguns morreram, outros enlouqueceram e muitos fugiram. De quem compraram a propriedade não sei, mas que há uma chaga vil aqui há! Diziam meus avos que toda essa maldição provinha de Amélia.
- Quem é Amélia? – Questionou Elisa impressionada.
- O ídolo minha senhora! Amélia foi uma menina feia, tinha uma doença irreparável na pele, as protuberâncias e deformações a fizeram uma jovem horrível, com olhar profundo, seu desejo dourado era o matrimonio, como não obteve êxito, afogou-se na fonte, a família manteve o rosto disforme da moça na estatua, mas assegurando beleza. Não perceberam que próximo a fonte os pássaros morrem?
- Sim, eu percebi – Indagou Alfredo curiosamente. E são muitos deles, mas com o anoitecer ás vezes desaparecem.
- Eu os avisei, esta mansão tem acontecem coisas medonhas, e se já tens duas flores, faltam a terceira.
- Que terceira? – Questionou Tomas
- No seio da estátua havia três flores, não te lembras? Hoje pela tarde havia apenas duas. Eu mesma vi com meus próprios olhos. – Disse Elisa – Devemos ir para cidade, partir, agora!
Um baque estalou mais uma vez, como um golpe na vidraça, voou a terceira flor ensanguentada, caiu no linóleo, e olharam com pavor. Ouviram passos rápidos do lado de fora, a chuva havia cessado e qualquer mínimo ruído podia ser ouvido, todos estavam calados e próximos. A sombra do nó na cabeça do ídolo era visível contra a uma vidraça, ela se mexia, e se aproximava das janelas, uma a uma, e eles estavam empertigados próximos a lareira.
Um grande golpe foi dado na porta, e alguns vidros despedaçaram, os trovões e raios permitiram iluminar a presença medonha do ídolo a porta, a face tenaz e o corpo ereto, os pés adquiriram forma, a majestosa e macabra presença de Amélia os fez ficarem impressionados e apavorados, correram para o andar superior, acompanhavam do peitoril da escada, qualquer movimentação no térreo, e ouviram o sussurro – Morte! – permaneceram quietos, a agonia interminável desembocou o horror extremo a ambos.
Uma sombra maior se aproximou, mas não era possível ver o rosto ou o corpo, o fogo refletia sem precisão, e como se andasse a passos miseráveis, a apreensão tornou maior a cada instante, sem destreza de resolução o espectro que era iluminado, mantinha o nó da cabeça na figura negra que o fogo refletia. Exasperaram até que a sombra aquietou-se, e de repente correu e pulou sobre as escadas, a maldita presença pétrea de um ídolo infernal os encarava sem indulgência, subiu cada degrau os fitando fielmente, com os braços em posição semiereta, aproximava-se lentamente com sadismo, a boca em seu aspecto perverso simulava um sorriso maléfico, as cortinas bailaram e as três pequenas peças de pedras em forma de flor despencaram até o chão.
O hipnotismo do olhar irretroativo de Amélia os mantiveram estáticos. Os trovões e a baixa luz emanada da lareira demonstrava em relances o semblante macabro do corpo pétreo se aproximando, desta vez, vagarosamente, atribuindo o entendimento de ruina aos expectadores que aguardavam seu golpe final, desprezando a misericórdia.
Abruptamente Tomas puxou duas das cortinas que bailavam atrás de si, e jogou uma no rosto de pedra, o confundindo e privando a visão por instantes, cambaleou e caiu, os membros rígidos se contorciam, e por alguns momentos ela se livraria do tecido que a encobria.
- Corram para fora! Depressa! – Gritou Tomas – Instantaneamente jogou nas mãos do pai a outra cortina – Ateie ao fogo, não vacile!
Passaram em um arrastão a escada, a família, os quatro, desceram correndo as escadas, e o pai atirou a cortina a lareira, seguiram para fora. Olivia olhou para trás.
O jardim estava baldio e o silencio reinava nas dependências, deliberadamente viram um facho de luz aumentar na sala, perceberam que o tecido da cortina ardeu ao fogo, que por sua vez, seguiu pelo tapete e mobília, a casa em poucos momentos queimava intermitentemente. A neblina pairava aos arredores e a fumaça inundou a região, até que por horas ao relento e avistando do portão, concluíram que as chamas tinham consumido a mansão.
Nos primeiros raios do sol, de longe, avistaram a presença sem vida do ídolo, em sua pose usual, com um de seus braços em ascensão e outro decaído com delicadeza, o rosto com expressão sinistra. Aproximaram-se e viram que estava intacta, a mansão arruinada e os pássaros mortos ao redor da fonte.
Deram costas para a Imagem esperaram que alguém os pudesse buscar, os pensamentos eram controversos se houve realmente ou não tal cena trágica na noite anterior.
- Como Tomas e Ângela se sacrificaram por nós?! –Elisa exclamou em voz compassiva e em tom ameno.
- Eles flutuavam mamãe, eles flutuavam, seguravam a cortina no rosto de Amélia. – Ontem quando saímos da mansão, olhei para trás e vi que Ângela e Tomas flutuavam na escada, e seguravam o tecido.
As palavras da menina deu coerência ao fato, o temor e alivio os abraçou. Com alguns minutos silenciados pela revelação de Olivia, avistaram uma velha carroça se aproximar, um senhor velho com camisa aberta sem botões, cumprimentou e parou.
- Que houve aqui? Esta casa já devia estar a cinzas a muito tempo, não gosto deste local. Devo me apresentar, meu nome é Romão, tenho uma pequena casa próximo daqui, e vocês quem são?
- Somos da cidade! – Disse o pai.
- Que fazem próximo a esta propriedade sinistra?
- Viemos passear e conhecer a região, estava a venda, mas pelo visto não tem mais mansão qualquer para se ver. – Blefou Demétrio.
- Sorte de vocês, acontecem coisas estranhas neste local.
- Pode nos dar uma carona até a rodovia? Estamos aqui ilhados.
- Claro, espero que não se importem de irem em minha singela carroça, as meninas vão na frente, e você e seu garoto atrás próximos as latas de leite. Não esperava receber ninguém nesta viagenzinha. – Disse com carinho.
A volta foi interminável, o peso da carroça obrigou o animal ir vagarosamente, os pensamentos e os consumiam, e o velho assoviava uma canção popular. Mantiveram-se calados, e o assovio encarregava-se de dar um pouco de alivio a eles.
Semanas depois, um caminhão com tração nas rodas, e alguns homens foram na propriedade, tiveram inexorável dificuldade até chegarem no local, as cinzas da mansão permaneciam intactas, o ídolo e a solenidade da quietude que imperava ali. Na carroceria uma grande peça de bronze maciço, com diâmetro e espessura suficiente para aprisionar o mais feroz dos animais.
Disforme e com uma espécie de abóboda, era uma jaula guarnecida a mando do dono, Demétrio, que os acompanhou e observou colocarem a grande peça em bronze, com ajuda de maquinários, no corpo do ídolo, o aprisionando, e chumbando em uma base também de metal para que ali fosse preso pela eternidade. O serviço fora concluído após horas a fio. Trancafiaram os portões com enormes cadeados, um olhar de adeus foi dado por Demétrio, subiram no caminhão e voltaram para a cidade.
            A quietude extrema da região foi atormentada por gritos abafadiços e estalidos metálicos por inúmeras vezes, o que diziam na região era ouvirem próximo a antiga dependência, os gritos e arranhões que ralhavam como se a pedra riscasse o bronze, e por anos o número de pássaros dos arredores haviam diminuído, e com péssima visão os que viviam nas proximidades, diziam que em torno ao ídolo aprisionado permanecia uma volume enorme de pássaros mortos e putrefatos.

- Marcos Leite



sábado, 17 de maio de 2014

O futuro nos abraça

A vida corre como um rio abundante, as possibilidades nos parecem através de pequenos momentos, entre o comum do cotidiano onde não existem expectativas de darmos um passo maior, a proeminente caminhada dos anos remetem as diversidades anônimas, as possibilidades negras como o manto espesso da noite, buscamos a pequena chama dos atos, superando as ênfases prováveis das distinções sociais e humanas.
Entramos na vida de olhos abertos, e na morte com a alma que flutua entre todas as mediocridades viventes, correm a nós escolhas acerca que tornemos respeitosos, dos ângulos óticos e conjecturas sociais, desembocamos dentro do fundo do interior da alma, a perpetuação do êxito.
Atribuir coragem aos membros e a mente, o ato honorário as vidas sem qualquer expectativa, aprumam no ar o escárnio aos pretensiosos e desacreditados os servindo do brilho e sucesso alheio. Porém, as barreiras perscrutam os lados, e meneamos as nossas cabeças e continuamos a andar, o percurso definido dentro de nossas vontades, o desprezo aos que maldizem, inundemos de positividade as arestas irregulares da existência.
Golpeamos nossa participação na terra em um mérito a intrínseca liberdade, obstinar o cenário em perspectiva de nossas opiniões, não nos torna hedonistas, mas, leais em tamanha honestidade de desejos.
                Exasperar entre o comum sentido de recusa às familiaridades é nutrir a força de teu peito a prosperar em virtude, dizendo aos outros em exclusiva soberba benigna o quanto és útil. Nossas propensas carências advertem ao passado uma chaga de vergonha, os sopros de loucura, o destino.
                Nos cabem atribuir pontos a serem esmiuçados, ou, deixar que a intempérie zombe de nossas procrastinações vitais, emergindo a culpa e dúvida, sabes ainda de teu passado amigo, não tenhas ira do que não fez, perdeste o tempo entre os vãos de teus dedos e fluíram como uma bela chama que se apaga em segundos.
                Adquirirmos justiça entre a vida e a morte entrando em liberdade ao esquecimento, segundo a vida, o passado pequeno permanece entre os desavisados e a glória aos que propuseram determinar dentre todas as incongruências do mundo, a vitória como um golpe de felicidade.
- Marcos Leite




sábado, 26 de abril de 2014

O menino prodígio

        Quando tinha doze anos, Abelardo Bauer (ou simplesmente Abel, como seus colegas da oitava série do "Centro Educacional Pereira Cardoso" costumavam o chamar) escreveu um pequeno conto de ficção científica e o entregou nas mãos de sua professora de literatura, chamada Lídia Rockembach. Foi um gesto simples e rápido. Quando ela viu, já estava recebendo o manuscrito das mãos do menino. Ao recebê-lo, Lídia, com três décadas de experiência pedagógica, o enfiara dentro de sua pasta Satchel esperando que fosse mais um amontoado de palavras sem sentido que a maioria de seus alunos a entregavam. A verdade era que ela já estava em pó de rabiola por causa disso.
            Lídia era uma gorda pançuda de cinquenta e dois anos que levava a escrita muito a sério. A mulher era uma ratazana de biblioteca! Ela odiava as obras tramadas em poucos minutos em mãos inábeis, não perdoando nem mesmo os guris. Tudo que é bom, pensava ela, só era bom porque fora feito com muita calma, prazer e esforço. Não existia talento sem empenho. Também não existiam contos escritos desleixadamente que fossem relativamente bons... O tempo o transformava, o tempo o florescia, e produzir de qualquer jeito, com o ingênuo objetivo de querer saber a opinião alheia acerca daquilo que escrevera, era uma forma errônea de ganhar popularidade. Os leitores bem que mereciam um respeito maior neste quesito.
            Para ela, o bom escritor é aquele que escreve para agradar a si mesmo.
       - Está certo - Lídia disse. Ela permanecia sentada atrás de sua grande mesa de fórmica, em frente ao quadro negro, mesmo depois de todos os alunos já terem se retirado da sala, exceto Abel. - Prometo dar uma olhada quando chegar em casa. O que não prometo é que eu vou gostar.
            - Obrigado professora.
          - Tudo bem - Lídia levantou-se finalmente. - Agora realmente precisamos ir embora Abel, senão é bem capaz do zelador nos prender aqui por engano. O homem quanto mais velho fica, mais lesado se torna. Você concorda comigo?    
            - Concordo sim, pode crer!
            Então Lídia abriu um largo sorriso e espalhou o vasto cabelo cor de palha do moleque para o lado, que, embaraçado, sorriu também. Desligaram-se as luzes, deixando as paredes azuis turquesa sombrias. Ambos saíram da classe, depois da escola, tomando caminhos opostos naquele fim de tarde que prometia uma sonora tempestade.
            Só que Lídia não sabia da missa nem a metade: aquele menino que estava ao lado dela, que dificilmente andava ao lado de um amigo ou de mãos dadas com uma namorada, que falava muito pouco e não saía tanto de casa, era quase um gênio...
     
          
           ***

           Ela não descobriu isso de um dia para o outro. Demorou mais de duas semanas para que Lídia se lembrasse do amontoado de papéis (todos quase amarfanhados feito uma bola de tênis) jogados no interior de sua pasta de Satchel. Mesmo assim, Abel nunca chegara perto dela para lembrá-la da promessa que ela fizera para ele "O nosso maior crítico é a nossa mente", a sua mãe, vencedora de vários prêmios literários como cronista, sempre lhe dizia isso, "Então meu filho, confie em seu próprio ego e bola pra frente".
         No entanto, não foi por falta de vontade que Lídia deixou a estória de Abel de lado. Dar aulas, corrigir provas e jogar boliche ou bingo clandestino nos finais de semana com os amigos eram as suas principais prioridades. Poder-se-ia dizer que eram as suas ÚNICAS prioridades, de modo que sua filha, já crescida, sempre viajava para fora do país como comissária da Tam; e o marido, Gustavo Farias de Rockembach, que morrera em um acidente de carro na Avenida Brasil, já descansava há mais de dois anos debaixo da terra no Cemitério Municipal da cidade.
      - Isso daqui é uma joia rara! - foi o que Lídia disse ao ler o manuscrito de onze páginas.
        Ela lera em casa na companhia de um copo de sidra laranja. O último conto que lhe havia deixado tão deslumbrada daquele jeito, fora um escrito por H.P. Lovecraft chamado "Entre as Paredes de Eryx". Apesar de antigo, o conto de Lovecraft era moderníssimo para a época, cuja trama se passava no planeta Vênus onde o personagem central viajava até lá a procura de cristais de energia, mas acabava sendo preso em uma espécie de labirinto invisível no meio de um pântano desértico, porém, cheio de homens-lagartos do lado de fora querendo pegá-lo, mas sem sucesso, pois havia a impercebível parede entre eles. É lógico que Eryx era superior a de Abel... mas, um garoto de 12 anos escrever algo como ela acabara de ler, era realmente de se espantar... Ele não enchia linguiça desnecessariamente. Ele ia direto ao ponto. Até então, muitos trabalhos literários passavam pela retina de Lídia Rockembach, cuja maioria deles eram bem ruins. Aquele ali em suas mãos era divino.
        O conto de Abelardo se chamava O Homem-Lagarto.
        Era uma espécie de registro feito sobre um dos seres mutantes extraído da estória de Lovecraft (como a vida de um Hobbit extraído da saga do Senhor dos Anéis, por exemplo). Obviamente, o conto continha alguns erros ortográficos e falhas de concordância – normal e justificante aceitável para uma criança daquela idade. Além disso, a caligrafia dele era terrível. Contudo, o enredo e a trama, assim como a vasta imaginação que fluía na mente de Abel, era algo surreal.
             Lídia estava ansiosa para conversar a sós com ele.
             Logo teve essa oportunidade.
           Aconteceu na hora da saída, quando todos os alunos se dispersavam pelo extrínseco portão do colégio. Lídia, que não tinha ido trabalhar naquela sexta-feira, parou o seu Ford Windstar azul na porta de entrada, esperando-o, secando-o.
           - Olá Abel - ela o viu passar com a correia da mochila trançada no ombro direito. - Quer uma carona? Entra aqui, vamos.
         Abel ajeitou seus óculos de grau quadrado no rosto, remendado com grossas fitas adesivas.
             - Professora Rochembach?
           - Não, o meu nome é Cleópatra e estou pronta para me suicidar. Venha até aqui Sr. Love brasileiro! O que eu tenho para te contar é algo importante, acho que você vai gostar.
             Abel entrou no carro mesmo achando que a sua professora estivesse mais louca do que uma enfermeira de asilo.
             - Pensei que a senhora não...
           - Eu realmente não vim trabalhar hoje, se é o que você pensou. Só não me contive em esperar até segunda para te ver. Quer biscoito? Tem uma embalagem de Oreo e uma garrafa de Gatorade no porta-luvas. Ainda está gelada. Pode pegar.
             - Acabei de lanchar, mas aceito o Gatorade.           
           - Não seja tímido - Lídia disse, fechando as janelas do carro para que pudesse ligar o ar condicionado, acionando a trava elétrica. O clima lá fora era de mais de 35° graus com tendências de estender-se nos próximos dias.
             Antes de deixá-lo em casa (ela ainda não sabia onde ele morava, pois começava a se interessar pela vida dele justamente agora) Lídia o levara até a perimetral que dava vista para a Praia do Forno, em Arraial do Cabo, parando seu Ford em uma das vagas de concreto que custava R$20 a hora. Um disparate!
             Mesmo assim, ela pagaria ao homem sem muito pleitear.
           Mais além, através de uma cerca de madeira com o desenho de um enorme Tucano de bico amarelado separando o calçadão da areia da praia, um ou outro surfista tentava pegar onda no mar lá ao longe.
             - O que a senhora tem para me contar? - Abel estava louco para ir embora, abrir o Word e escrever novas estórias. A maioria dos garotos de sua idade ficavam mais preocupados em chegar em casa e assistir a MTV ou a MULTISHOW.
             - Eu li o que você escreveu - Lídia revelou, fleumática.
             - A senhora gostou?
             - Não - foi uma resposta tão rápida que acabara saindo antes mesmo do final da pergunta.
             - Se não gostou então devo pedir desculpas por fazê-la perder todo o seu tempo! Eu nem mesmo sei por que a senhora me trouxe até esse lugar, já que não...
           - Meu filho, gostar não é a palavra ideal para descrever o que senti ao ler o seu conto. Acho... acho que fiquei deslumbrada.
             - Tá falando sério?
          - Não é Tá. É Está. E sim, estou falando muiiiito sério. Tem a minha palavra de honra!
            - Embora eu tenha me superestimado. Conclui assim mesmo, e lhe entreguei, este é o manuscrito. Pode me devolver?
             - Sim! É o inicio de uma obra, pode ser que com a maturidade você o desenvolva mais. Por que nunca disseste antes que escrevia?
             - Ás vezes ficamos quietos com medo de falar bobagem.
             - O que disse agora é uma grande bobagem, o medo inibe as pessoas pelo mundo todo Abel. O que pretende ser após o colégio?
             - Não serei um escritor. – Disse categoricamente.
          Com expressão de raiva e deliberadamente inconformada Lídia subiu as sobrancelhas e disse:
             - Quando eu tinha sua idade, eu disse o mesmo para meu professor, mas não era um professor normal, era meu pai, ele sonhava que eu pudesse compartilhar com o resto do mundo meus pensamentos e meus contos. Um dia no sul de Minas Gerais, fui até a biblioteca pública, e adentrei com meu pai por severa curiosidade, lá tinha um grande piano, prateleiras com milhares de livros, algumas esculturas em madeira de artistas da cidade de Passa Quatro, e quando olhei nas paredes, tinha fotos de pessoas e coisas.
             - Mas onde quer chegar - Interpelou Abel ansioso.
      - Estive neste lugar, foi quando meu professor, meu pai, fez o mesmo questionamento. Eu frequentei a escola normalmente, mas meu pai era meu professor de vida querido, me mostrou que nem sempre estar no pódio faz de você o melhor. Ele coexistiu em minha vida de forma tão arbitrária que pude ter um certo êxtase de remorso quando ele se foi.
             - Por que não escreveu um livro?
             - Escrevi, escrevi muitos, mas os queimei depois que ele se foi.
             - E qual a relação da biblioteca, livros e seu pai?
             - A relação é simples. Você percebe a cada momento que passa que sua parcela de existência aqui é mínima, e eu deixei de aproveitar o prazer de participar quem sabe um dia das paredes daquele belo lugar com meu rosto, com minhas obras no salão e com a estupenda memória de meu pai. Eu seria uma grande escritora na minha cidade, mesmo que somente para ele.
             - Embora, eu a respeite e a memória de teu pai, não posso fazê-lo somente por uma frustração da senhora. Espero que não entenda mal, não estou sendo grosseiro.
             - Não, não está. – Disse olhando para o horizonte, seus olhos tinham um brilho vago e pensou novamente no conto de Abel.
             - E o que quer ser? – Questionou Lídia.
             - Um entusiasta.
             - Mas disse que não seria escritor.
             - E não serei, serei um entusiasta. Quero observar as coisas, pessoas e condutas que o mundo segue, ou quem sabe caminhos, seja lá como for que é o certo dizer.
             - Caminhos. – Disse Lídia rapidamente.
             - Não é? O mundo de escritores e as pessoas adultas sempre estão aptas para corrigir a todos.
             - Não foi uma repreensão.
             - Não, não foi. Mas é por esse tipo de pensamento que não quero ser um escritor, não quero ser perfeito, ser um cara grandalhão que fala e não aceita que os demais discordem, ou mesmo que tem a obrigação de ser perfeito consigo mesmo para que não se julgue quando receber alguma critica de seu próprio trabalho.
             Por um certo momento um silêncio glacial pairou entre eles, e como um golpe vieram verdades aos dois. E se questionaram fitando o horizonte por cerca de dez minutos, calados, e admirando a cor azul belíssima do céu carioca.
             - Lídia! Não temos um prazo para fazer qualquer coisa que seja em nossas vidas. A velhice não é desculpa. Se quiser ainda reatar parte de seu fabuloso passado, deveria publicar seus livros.
             - Eu os queimei. – A professora disse com indiferença.
             - Não, não os queimou, deve ter alguma copia.
             - Como pode duvidar de mim? Sou uma professora velha e verdadeira.
          - Eu digo sempre para os outros que queimo minhas obras também, por ter vergonha delas, e quanto a isso acredito que sejamos comparsas.
             - Como sabes?
             - Apesar de eu ser um menino, um jovem entusiasta tende a ser abençoado com o dom da adivinhação. – Sorriu gentilmente para a professora.
             - Não serei uma escritora, e quem sabe uma entusiasta também?!
             - Não você não pode mais ser uma entusiasta.
             - E tem idade?
         - Não, não tem, mas é uma escritora, nesses dias após lhe entregar o Homem lagarto, eu pesquisei seu nome na internet, e na página 10 ou 13, não me vem agora, tinha um pseudônimo e que era similar ao seu nome, um anagrama de letras, e li no site, que era de escritores alguns de seus contos. É tão famosa e lida. Que jamais seria uma mera entusiasta, é uma escritora.
             Por certo momento Lídia, olhou para sua esquerda desprezando a presença do rapaz e seus olhos em lágrimas disse serenamente:
             - Até hoje ninguém da escola havia buscado referências minhas, quiçá descobrir que sou uma escritora por trás de um pseudônimo. Minha presença austera inibe as pessoas, e sempre fui taxada como a professora chata.
             - Estou feliz que tenha se aberto.
             - Obrigado! – Agradeceu Lídia.
             - Pelo que? – Abel disse curioso.
            - Por mostrar que a vida não é apenas as linhas que o mundo ou as pessoas traçam, estamos além disto. Eu tenho a agradecer a você por me relembrar disso.
             Abel assentiu com a cabeça. E o carro tomou rumo pela via, após deixar o rapaz próximo de sua casa, ela foi para sua descansar.
            Cerca de dez anos se passaram depois daquele encontro, o sol estava escaldante e o céu era azul como o do encontro, mas infelizmente era uma data não muito feliz. Lídia falecera pela manhã. Abel já mais velho resolveu deixar uma singeleza homenagem na sepultura da ex-professora dias depois.
             Ajoelhou próximo a lápide, cujo estava a bela foto de Lídia quando jovem, e acho que o homem que estava cortado, era seu pai. Ele levou flores, mas não flores comuns, eram poemas e contos de Lídia dobrados em um ramalhete bege belíssimo. Ele os colocou desnudos, com uma frase. “Foi professora, escritora, amiga e rara entusiasta entre os homens”.
             A professora sem saber, após aquela tarde com o garoto, ela acendeu a chama dos sonhos, um pavio que estava molhado a um certo tempo por repreensões ou dilemas que eles mesmos criaram, anos após, tornou-se um escritor, do qual jamais disse que seria. E entendeu que os entusiastas fazem algo por nós sem que lhe paguem ou de algo em troca, e em seu peito entendeu o porque de Lídia ser uma fabulosa entusiasta.
             No ano atual, ele viajou por cerca de quinze estados para divulgação do seu romance Homem lagarto, e na penúltima parada foi a cidade de Passa Quatro, a qual Lídia viveu e morou. Seu livro seria apresentado na Biblioteca Municipal, e ao chegar notou que o rosto da professora não estava entre os demais, gesticulou com certo pesar e continuou a sorrir.
             O frio era intermitente no sul de Minas, chegou em julho e aproveitou para passear entre as singelas lojas e belos parques de fontes naturais da cidadezinha. Entendeu o porque ali fazia tão bem para sua amiga. Aproveitou também da culinária e passeou na Maria fumaça. Esteve por alguns dias em paz. E de certa forma decepcionado pela indiferença das pessoas e da prefeitura com sua escritora favorita.
             Horas antes de partir, resolveu por uma última vez, descansar e ouvir os pássaros cantar em uma praça belíssima próxima a rádio da cidade, e sentou-se, com um livro e um copo de suco passou por alguns momentos, sem esperar, olhou ao longe e viu que no fim da praça tinha um rosto deveras familiar. Aproximou-se e era de Lídia, um belo busto em bronze, jazia naquela praça. Ficou atônito e releu varias vezes a inscrição embaixo do busto. “Sou uma entusiasta, os escritores são apenas pessoas que entregam palavras, eu vivi e aprendi, que até os mais jovens nos ensinam a distribuir sonhos”.
             O momento passou como um sopro de paz e gratidão para Abel, ele acariciou o rosto de bronze e ajeitou uma pequena rosa amarela sobre o ombro de bronze. Partiu e colocou na correspondência uma foto, endereçada para antiga escola, com a simples frase. “A grande alma flutuante, pairou por anos aqui e deixou que as luzes ficassem foscas”. Sorriu e caminhou sem rumo naquela tarde.

 - Mauro Alves e participação de Marcos Leite



sábado, 22 de março de 2014

Ethel & Anne































                 Entre as ruínas holísticas do império, dado a Adriano uma mancha de ira e iniquidades em tuas decisões, influenciando os trajetos obscuros da humanidade. Na região que milhares de anos depois governara, a raiz dos fenícios, e seus estupendos ídolos de cobre e prata. Sucederam os ídolos em mármore dos gregos objetando outra luz nas esculturas, a delicadeza e precisão. 
         O cenário na Ásia menor perpetua do punir natural, rochas e árvores distantes, os povos partilham desde Roma, regiões, vilarejos e cidades enormes. Em Constança, entre as distância e séculos da região de tal civilização, o Senado determina que a feitiçaria anula a alma do homem para Deus, expondo o corpo licitamente as chamas.
         A educação e o cenário politico municipal difundiam a materialização de uma crença e conduta a ser seguida, onerado pela Igreja dentre as concupiscências vista a bordo de seus fieis, organizando uma cúpula religiosa aliado a sociedade e o Estado.
         Entre as portas escuras e pestilentas, aninhavam duas crianças sujas, próximos ao lixo e peixes apodrecidos, mulheres e homens pobres, a imundice desta região remetia aos portos onde os navios que rumavam da Índia aportavam com novas espécies, feitiços, receitas e humanos diversos.
         Havia duas belas moças, olhos azuis brilhantes, assemelhavam as safiras lapidadas, de seu mais intenso cardo até a esfuziante presença azulada. Lábios rubros ditavam sussurros minuciosos entre elas em uma carruagem com rendas e telas, rumavam para o Sul da cidade, onde as vinhas robustas embelezavam o caminho e permitia que um tom modesto de segurança reinasse nas dependências.
         As casas emolduradas em modéstia ao plano de desenvolvimento entre as ruínas de milhares de anos, compunham a atmosfera hedonista e soberba dos povos antigos, embocavam ainda um desejo voluptuoso entre as vias escuras e os chalés mal iluminados. E em um tugúrio adentraram entre seus véus e sapatos brilhantes, das mais estanhas e repugnantes coisas que arrastavam suas vestes sujas e fedidas a damas de olhares maléficos.
         A queda da economia desencadeara um numero majoritário de assassínios nada peculiares. Perante a fome de seus nativos, ora, por atitude vil de autoridades em busca de apaziguar a condição atual da cidade, vieram do oriente asiático homens e mulheres de condutas distintas, magníficos sábios e adivinhos, o comercio assim como no passado, reinava sobre as coalizões contemporâneas e atraia o crescimento de um novo império, se igualado ao pó após décadas para a futura república.
         Entre os papéis e os registros, difundiram a história de camponeses que colhiam frutas e criavam animais como moeda para câmbio ou negócio, acerca de permanecerem gordos e fartos. Ao longe, onde um vale compunha uma população de agricultores e vendedores, próximos a Constança, estavam três crianças ruivas, brincavam pelo lago e ao entardecer recolhiam para as modestas acomodações, durante sete dias pela noite, enquanto a água fervia em um caldeirão, tocou duas vezes uma espécie de sino, com o decorrer destes acontecimentos, uma delas espiaram no vão da janela e surpreendeu com luzes brilhantes cerca de quinze metros. 
         Após se fartarem de sopa e restos de pão as crianças dormiam, em sonhos pueris somavam fantasias as luzes relatadas pela mais jovem. Como eram os mais pobres dos vilarejo, e ruivos como o fogo, o desprezo era similar a vegetais, sequer eram vistos entre os demais. Com vantagem saíram no oitavo dia após o apagar das velas, sem ruídos mantiveram firmes até encontrarem a grosso modo a terra, aguardaram as luzes descritas pela caçula, mas de nada apareceram, ao caminhar encontraram uma caixa de três compartimentos dobrados, e em cada um deles havia um doce, mostravam entre as mãos de cada um semelhantes a uma bala com um viscoso caldo.
         Mais distante do vilarejo, próximo ao sul da cidade, entre as vinhas encontraram três crianças ruivas degoladas e sem qualquer gota de sangue, diante de farsas populares acreditavam que seres ocultos as tivessem sugado todo o sangue, o temor por vampiros eram irremediavelmente real, por cerca de algumas semanas a dificuldade para encontrar instrumentos prateados tornou-se motivo de irritação entre os cidadãos. 
         Já no outono, onde as temperaturas traziam outra falência social para pessoas que viviam por ali, entre os peixes pútridos, também encontraram duas crianças maltrapidas e degoladas, o mesmo motivo das ruivas, porém em teus anelares, pendiam um anel com safiras, parte brutas, parte brilhantes. O Senado decretou alerta a seres estranhos, e o entusiasmo da população desmembrou um caos.
         Segundo um velho pescador que permitia que vez ou outra uma dessas crianças sujas, pegassem um peixe médio para vender acerca de ter uma refeição ou duas garantidas, relatou que passava entre na ruela quando viu dois cajados que brilhavam no inicio da via, e distantemente conseguiu enxergar que algo valioso pendia próximo ao fogo, e as crianças pulavam cada uma a um cajado para arrancar-lhes a recompensa, deu de ombros e seguiu entre os muros e as guarnições velhas, não vira ninguém, além destes dois jovens mendigos pularem em busca de seu presente.
         O cenário embevecido do horror por vampiros acentuou a busca por feiticeiros e bruxas, justificando a seus aliados que um feitiço poderia protege-los de qualquer ser fantasmagórico ou vil que habitasse na região. Entre os rumores e inúmeros casos de sortilégios feitos, foi determinado em carta pública que aquele que se aventurasse com magia ou qualquer um dos participantes teria o fim mais sensato entre os homens.

         “Quaisquer atos ou revelações quanto a feitiçaria corrompendo assim as normas de Deus terão como castigo a fogueira ou o enforcamento. As denúncias devem ser identificadas e a polarização do assunto torna-se conveniente ao clero e o Estado. 
      Feitiçaria, magias e bruxarias das mais diversas, entre a adivinhação e a promulgação de resultados serão tratados como crimes a Deus e com anulação das almas, não cabe menos que tornar as regras divinas reais, distanciando esses corpos enfeitiçados perante os demais”.

         Entre o outono e o inverno cerca de mil pessoas foram enforcadas e queimadas, e embora a assiduidade merecesse méritos a tal crueldade dos governantes e da igreja, o número de crianças mortas diminuíram para exatamente zero.
         Uma carruagem apontou pela ladeira e desceram duas jovens e belíssimas moças na praça, assentaram em um dos bancos e olhavam diante de seus chapéus bordados, os homens e mulheres que passavam e trabalhavam. Tinham dinheiro e espalharam certa quantia entre os mendigos e crianças sujas.
         A excentricidade do olhar e a maneira como Ethel e Anne caminhavam trazia aos arredores certa cobiça e intenções masculinas, elas os desprezavam e entre algumas semanas coincidentemente nos mesmos horários as jovens passeavam pela praça e entregavam a algumas crianças balas.
         Entre a quantidade de especulações sobre as possíveis mortes, fios avermelhados estavam no corte no pescoço de cada uma das cinco crianças, as mulheres ruivas de cabelos compridos tinham sido quase todas queimadas por desconfiança, o que era difundido pelo clero, as ruivas e ruivos mantinham pacto com o demônio e sua vida era uma forma de atrair pessoas para o inferno.
         De forma peculiar os ruivos começaram a tingir o cabelo com especiarias trazidas da Índia, e por um certo momento o número de mortes diminuiu, em um cadastro feito por civis, a exterminação de tal raça pestilenta havia sido concluída. 
         Entre as manhãs gélidas do inverno, montes e o relevos permaneciam alvos com a neve e o comercio mantinha sua atuação com inferioridade quanto o verão e a primavera. O pavor já havia sido expurgado pela população e por alguns dias a paz reinou na cidade e nos vilarejos. A intenção do governo perante a santidade da doutrina espiritual unidas, estavam em concordância, as celebrações nas catedrais nunca estiveram tão cheias e o número de pessoas obrigadas a irem por bons costumes e medo de repreensões tornou tão grande que outras igrejas estavam sendo construídas.

                                                               ~¢~

         As investigações quanto o ato de feitiçaria e comunhão com a magia negra das jovens, Ethel e Anne, estavam em processos finais a provarem que as duas eram bruxas ruivas disfarçadas em trajes e trejeitos de damas. Ao cair da noite de assalto civis e integrantes da igreja entraram no tugúrio imundo onde as duas viviam.
         As suspeitas iniciaram no momento parte dos moradores notaram que as jovens e ricas damas viviam estranhamente como mendigas que encontraram um chalé abandonado e havia comida e velas. A dúvida partiu quando um desses as viram na praça doando parte de seu dinheiro para as crianças.
         As autoridades de nada encontraram além uma mobília medíocre e dois cajados, entre os depoimentos recebidos no vilarejo e do velho pescador deliberavam a culpa das bruxas. Porém, as belíssimas jovens não estavam a vista de qualquer que seja. 
         Na noite seguinte mais duas crianças de cabelos avermelhados estavam afogadas no em um lago, tão pálidas e rígidas que eram visíveis que cada gota de sangue tinham sido extraídas. E em suas mãos sujas de açúcar e cacau creditaram mais dois crimes a Ethel e Anne. Segundo uma adivinha presa nas dependências da maior catedral de Constança, usada para perguntas e breves anunciações em curiosidade dos predominantes dali. Dissera que as jovens bruxas ruivas matam crianças e colhem todo o sangue para banhos intermináveis, assegurando a beleza daquela alma somada a sua, mesmo que tivessem noventa anos, a imagem e a saúde permaneceria dos anos áureos da vida e havia um certo número de rituais a serem seguidos.
         Sete banhos e setes crianças eram necessários para que a vida se estendesse por cerca de trezentos a quatrocentos anos, porém, a alma das crianças em números somadas as das feiticeiras era incerto, se viveriam mais ou menos que este número de anos, então, era fato de que as bruxas repetiriam tais atos no período de cem em cem anos. 
          A adivinha foi esbofeteada pelo sacerdote e cuspiram-lhe nas faces, após decretarem uma caçada as duas, obtiveram êxito. Numa choupana longe, cerca de vinte léguas de Constança, Ethel e Anne foram encontradas e trazidas para serem enforcadas em praça pública, e a cerimônia agruparia quase toda a população.
         Em mais uma consulta a adivinha, o sacerdote soube que o enforcamento de bruxas fenícias poderia trazer danos ao algoz, como sua alma ser perseguida assegurando que a mesma não encontre a luz. Então ela aconselhou para que as morte das duas fossem com um capuz negro e túnicas, assim garantindo que qualquer gota de sangue, fio de cabelo ou grito pudesse fugir do seu fim. Sorriu macabramente e encarou o sacerdote de postura austera e maligna, se podia ver o medo brilhando em suas íris. Com risos maléficos a adivinha teve um momento de euforia quando a deixaram sozinha.
         A anunciação em decreto já havia sido feita e enviada para as ruas, que na data de hoje ao anoitecer, antes do arrebol se esvaecer, Ethel e Anne seriam enforcadas em a vista de todos. A notícia dissimulou e trouxe para a praça central quase todos que viviam nas redondezas.
         O ar imundo e as zombarias iniciaram, e a crueldade das pessoas eram perceptíveis devido a grande movimentação e ira. No momento que foram estranguladas pelas cordas, os ulos e berros permaneceram por minutos. E na podridão da prisão a adivinha escarnecia com grande altivez. 
         Vira em uma poça d’água a carruagem que cruzava o norte da região e duas jovens em com rendas e bordados aprumava no estofado, sorriam e seus olhares perversos triunfavam pelos arredores, vira ainda que os corpos que pendiam eram de duas jovens de rostos macilentos e alvos, e em seus cabelos a proporção de tinta vinda da Índia era ridiculamente denunciada.
         No fim das cerimônias populares, foram enterradas os corpos brancos e de cabelos sujos de tinta num grande e fundo poço. Com grande alvenaria para cobrir qualquer possibilidade, de que as até então dadas como bruxas fenícias, fugissem ou assumissem vida novamente.
         A aparência de horror dos rostos de ambas e a quantidade da viscosidade avermelhada foram tratados como a essência do sangue das jovens crianças assassinadas, uma vez limpos os cabelos tornaram castanhos novamente, foram ministradas missas por cerca de quinze anos em regozijo, de que as almas das crianças foram salvas, convencidos de que a textura do sangue partiram do corpo e cabelos das bruxas para sempre, assegurando assim a paz e a misericórdia divina as jovens almas.

                                                      - Marcos Leite


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Memórias de Nina – Pequena alma

          O descontentamento esta em meu peito, como um vácuo espacial, um fluxo de pensamentos empoeirados e perdidos, presos sem que eu mesma possa exibi-los, como uma sílfide que esta presa a uma fonte e que nunca o querubim poderá voar. O vazio mora em mim neste período como um algoz, aprisiona meus pensamentos e faz de mim apenas mais uma nula entre tantos outros por ai.
           Não me importa mais o que todos pensam de mim, estou aqui nas ruas, entre alguns viadutos e minha morada deixou de ser meu lar, ainda não sei o porque, me vejo imunda, velha e sem sonhos, a mente que tanto brilhava, tornou-se em uma bruma marítima longínqua, até mesmo de mim, não sou mais a Nina que conheci, a desintegrei.
            Uma de minhas lembranças mais doentias foi de um jovem ser, a luz que iluminava meus dias, as proporções de ser uma mulher feliz, certamente deslumbrada pela vida e suas belezas, aos equívocos os arautos erguiam teus clarins, e aos sucessos, comemorações. Estive por nove meses a tua espera, jamais esperei tanto tempo por alguém, uma parcela de minha existência dimensionada em outra vida, um presente.
          No verão, quando ar quentíssimo escaldava intolerantemente, os preparativos da chegada se iniciavam, os móveis tinham um brilho singular, as pessoas aflitas, e quanto a mim a ansiedade havia consumido. Por algumas horas e alguns gritos, concebi minha filha, bela, com olhos negros, poucos fios em sua cabecinha, e um pouco menos ainda de pigmentação, eu a beijei e abracei por alguns segundos.
         Teus olhos me encararam como uma ternura jamais vista anteriormente, a pequena alma que temia o grande mundo, se aproximava de tua progenitora, a fragilidade era tão perceptível que ainda que eu pudesse omitir qualquer sombra de proteção, tua individualidade era tremenda, uma outra pessoa, próxima a mim, mas com um legado a ser construído, alguém que me faria tornar responsável por uma vida toda, mesmo que isso não tenha acontecido.
          A pequenina cumpriu sua missão no mundo em menos de quatro horas, em meus braços se despediu em um pueril sorriso de luz e carinho, apertou meu seio e meus dedos pela última vez, o que esperei por tanto tempo, e que a acompanharia até pelos restos de meus dias. Eu fechei os olhos naquele momento para o mundo, e me distanciei dele.
           O que pode importar a uma mãe quando parte ti se vai? Estou aqui, sozinha neste grande mundo agora, com todos a minha volta se questionando o porque não terem mais dinheiro ou prestígio. Eu não queria nada mais que alguns anos com minha menininha. E aqui estou. Sem nada, nem ninguém, pois, nada me apetece mais.


- Marcos Leite


 
 
Blogger Templates