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terça-feira, 11 de setembro de 2012

O homem soberbo e o humilde

            Ainda que o odor do tempo me encontrara nesta sala vazia, é prazeroso sentir o abafadiço sabor dos anos que se passaram, percorreram por estas cortinas, os assentos e a este velho espelho. Uma vitrola entornada de prata com grande imponência, velha e brilhante. Uma família de bens, raramente teriam tais artefatos se não o fossem. Gasto meus olhos em pensar o quanto de luxo obtiveram, mas ainda sei que a maneira como traçou-se os caminhos, de nada lhes foram abençoados.
            Homens austeros e mulheres formosas, atenuavam qualquer chance de serem criticados, uma beleza ímpar, traços frágeis e delicados, consumiram de belas peles, carros e vinhos. Um grande gesto de integridade a sociedade, seus bailes, todos categoricamente escolhidos e decorados, teço ainda uma tela, e que seja pintada por minha memória as lembranças de dois amigos, que aqui também rondaram.
            Frederico Ornelas, O grande, impetuoso e nobre homem da sociedade e militância, seu legado invejável, rotulado como um major, ainda que seus fios estivessem brancos, o olhar severo e nu exibia a tenacidade de um cavalheiro algoz, saberias tratá-lo com devida educação, acerca que não bastasse um brado para me ver entre os policiais e a pocilga dos soldados, vindo da mesma linha de ratos traiçoeiros, que mata uns aos outros para sobrar-lhes mais comida e mordomia.
            Caminhou sua vida com grande requinte, entre o poder e as iniquidades, posso lhes afirmar, todavia, tinha afeto por alguém assim, sentindo me as vezes colérico ao imaginar as trapaças e a imoralidade dele pudesse alcançar os céus, reitero de minhas perspectivas que quem sabe as nuvens tem sido brandas com sua chegada, mas de nada me liberta a condenação da maledicência em vida e dos atos nefastos e vis com famílias e a inocência das moças de sua época.
            Permito a mim mesmo tocar nesta caneta, uma das douradas, era cintilante durante o dia ao vê-la encaixada em seu bolso do paletó. Uma assinatura movia montes, mas de nada mais que isso, um larápio imundo, a labuta nunca lhe foi próxima, mas sim o orgulho e a fortuna familiar, e toda a tirania com os seus e levemente amigável com os demais. Percebo o quanto essa caneta pesa, mas, ainda mais, o tormento que nela personificou.

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Nada valerá o dinheiro,
Nada valerá o luxo,
Quando o tempo
For lhe tomado

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            Permaneço com esse discurso monótono, mas acerca de fatos importantes, rapidamente perceberão a diferença proposta, há ainda tempo para traçar caminhos opostos, mesmo que de nada adiante, receberia ao menos uma menor pena, a culpa de transgressões liberta pela serenidade, e a bondade de coração, nada mais do que traças e pó poderá presentear, assim como a ampulheta irretroativa.
            Ângelo Prado, mero comerciante, benevolente de toda sua singeleza, dono de poucos dotes, nada mais do que uma velha loja de linhas e um ou outro tostão no banco, uma família bonita, edificou seu patrimônio com o suor de seus poros e a honestidade de seu ser, nunca foi um homem de cobiça, algo apenas que o deleitava, uma mesa farta e a imensidão da noite para sua mente. Criara filhos e seus netos, intencionado sempre na retidão, ainda que muitos homens de má fé o ludibriasse nos negócios ou na concorrência.
            Famoso entre as vozes da vizinhança, de todo seu lustrado passado, comportou-se de maneira que um homem deveria se comportar, tranquilizou sua alma com a devoção divina, caminhou pela pobreza, mas acerca que jamais lhe deixasse praguejar, correu por dias em busca de sapatos novos para seus meninos e grande força para se estabelecer após a ida de sua esposa, acredito que tenha sido devastado pela notícia, no entanto, auferiu seus frutos de acordo a sua inteligência e maestria.      
            Um bom amigo, sou grato por ter mostrado tão íntegro e sensato de todas nossas conversas e encontros, sinto falta do fato de tomarmos café sobre o balcão de madeira, algumas vezes soltávamos risadas altas ao sabermos que nossa amizade não mudara com o decorrer dos anos e pensavamos o quanto de tempo teríamos ainda para viver e continuarmos nossa comunhão.

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“Os moinhos de Deus moem lentamente, mas bem pequenininho”.

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            Debruçado em minhas memórias e sobre este pedaço de papel me recordo alguns outros fatos que fazem parte dessa trama anêmica. Estive ainda pensando em coisas diferentes, a procura de alguma explicação, seja da verdade ou mentira que estou pronto a dizer.
            Não me refiro a assassinatos ou crimes, apenas a mortes naturais, de em datas opostas e sem qualquer pretensão de uni-las para algum enlace absurdo. Não havia cumplicidade entre ambos, jamais se conheceram e me recordo das lembranças pelo motivo em que a vida se encarregou de por-lhes um fim.
            A soberba e a excentricidade de Frederico o corrompeu. Um velho caduco, não restava mais nada que dinheiro, uma fortuna inestimável, uma casa gigante e bela, invejavel até entre os de sua igualdade, lhe veio a demência após não ter sido o escolhido entre os demais majores numa honorária cerimônia quanto a glória de seu trabalho e competência.  Como um cavalo velho, que cavalga vagarosamente para que seus ossos frágeis não se partam, estava, aos cuidados dos criados, e longe de seus familiares, asseguro para minha própria certeza, de que jamais gostariam de ter um velho pernicioso em volta deles. Até que uma hora o tempo o presenteou com sua morte, e os bens e o orgulho se dissiparam entre os encargos administrativos e a ferrenha luta dos parentes.
            O amigável velhinho que vendia linhas, também teve seu fim, dos seus bigodes castanhos e a constante pigmentação de fios brancos, também atravessou o sol. De coração grande, teve muitos problemas em vida, nada que se comparasse a morte prematura de sua esposa, deixou-o com três filhos e a dor da perda, continuou seus dias com a gentileza e tranquilidade com que a vida lhe propôs, um homem trabalhador, inteligente e bondoso, permaneceu rígido de sua posição de pai, e nunca deixou-lhes faltar nada, passou a loja para seu primogênito e trabalhou até quando pode, vivendo de sua condição modesta, rindo-se nos almoços e jantares, entre seus cunhados, netos, filhos e amigos. Um dia a luz do dia resplandeceu e nunca mais ele a viu.
            Proponho um chá, quero sentir o gosto do hortelã assim terei mais com que me importar, ao que me recordar de histórias que participei, entre meus olhos algumas lágrimas involuntariamente correm, e sei que tenho a saudade de ambos, mas em meu ser aceito a condição de terem traçado os próprios fins. Saiba ainda que de nada poderia fazer a não ser compartilhar minha amizade com eles. E sei que tal carinho jamais pudesse ser selado caso não os amasse tanto.

             - Marcos Leite

domingo, 9 de setembro de 2012

#2 Frase


Uma vida sem sonhos, é o mesmo que o mar sem peixes.
- Marcos Leite


sábado, 8 de setembro de 2012

Espetáculo circense

                Um álibi, um a prova cabal, um laço de fita. Um dia doce e nublado, aqueles que busca aconchegar no estofado com seu caso ou cônjuge, compraria toda? A parcela disso talvez, um raro e largo sentimento. “Acho ainda que está confuso em seus pensamentos”. Já foi, esta feito.
                Quando o palco estiver montado, terá ainda tempo para esconder, não se importe com o seu medo, esta fácil, cortar, “sim”, bem pequenininho, assim como os moinhos que moem bem de mansinho e miúdo. Tocar aquela canção? Uma insinuação deselegante esta. A hora é inoportuna, aflija seus dentes quando for pego, do mais, trate de se portar como sempre se portou. Sim, como sempre se portou.
                “Não gosta de sopros”, não mencione mais uma vez, estou farto de saber disso, como se sua opinião fosse relevante, esperas que mude minha forma? Seja indulgente, tenho cartas. “Não faria”. Se puder alocar meus dois dedos sobre a mesa, faria.
                Percebe? Uma pocilga, imunda, assim, a hora não importará. “O espetáculo em breve iniciará”. Corrompa-o. “improvável” permita a mim então?
                Faça jus, mas arranque mais gargalhadas do que consegue ser asqueroso, sei que não conseguirás. “Um assassínio, não te é indiferente, meça as palavras”. Uma âncora, levaria um rinoceronte até a lua nos ombros. “Ótimas metáforas e péssima atuação melodramática”.
                Feriu em cheio, amanhã o corpo já estará inerte. “porque não hoje?”As abelhas buscam o mel de pouco em pouco. “Um blefe premeditado”. Talvez não seja tão insolente, o dia amanhecerá e a alvorada trará novas oportunidades. Erga os olhos, coloque os sapatos grandes, e ajustes as calças largas, temos ainda que burlar essas pessoas.

             - Marcos Leite

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Cavaleiros do zodíaco


Encontrar alguém!
A gratidão e o entusiasmo são estonteantes.
Alguém que deixou de ser um estranho,
se tornou alguém que você ama!

Saber que o tempo não importa,
a amizade continua sempre,
mesmo que algumas milhares de léguas os separem,
o sentimento prevalece.

Nada do que dizem ou que falem mudará isso,
saber que pessoas não são como as nuvens,
que passam daqui para acolá num piscar de olhos.
São verdadeiras. Bonita presença, doce feição.

Saudades é o que resta quando se está longe,
mas as coisas não são do jeito que deveriam ser sempre.

Aceitar que pessoas sempre estarão juntas mesmo que longe,
é acreditar que a vida pode ser mais bonita que já é!

- M. Leite (09.06.2010)



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Textos ruins, e os títulos crus

            Certamente já esteve minguado de inspiração e vontade, incomodado pelo número de pessoas lhe incomodando e interrompendo seu breve grito de paz. Há alguns dias assim, em que não se sabe quais são os perigos e o lado correto da calçada, entende que andar por impulso como a inspiração é mais arriscado do que uma dose de morfina.           
            Quem ainda não sentiu nos pulmões o fisgar de agulhas com o susto, jamais entenderá para o que a vida existe, uma vida cheia de cuidados, ascos e rejeições, conheci pessoas que tem o prazer em criticar a conduta dos outros apenas por serem humildes, que farão quando a velhice chegar e a ajuda ser necessária?
            Momentos assim, onde a frequência de uma voz lhe atrapalha e ira, não percebem o que estamos fazendo? Inúteis, há muitos inúteis por ai, o tempo todo posso enxergar, não se importam com suas próprias inconveniências e insinuações impróprias, já se não bastasse a conduta banal e idêntica, são muitos, muitos comuns que viverão uma vida pequena por terem uma alma pequena, cheia de cobiça e orgulho.
            A arte lhe foge, é como uma gota de mercúrio na palma de uma de suas mãos, alí, pequena e traiçoeira, lisa e ágil, a qualquer vacilo escorre e se perde no chão, assim as vezes sinto, como um desesperado para manter a gota de mercúrio nas mãos, que de mim a arte nao fuja e que nos dias em que pouco manisfesta eu não relute de escrever rapidamente acerca que não torne mais um dia oco e comum como os demais.
            Um presente, dos deuses como os outros acreditam, digamos assim, que nada poderia ser mais impulsionado pela catástrofe mental, a arte em si é uma loucura culta que brota entre os olhos, pouco acima do nariz, um local onde o ar refrigerado torna-se saboroso, gélido e brando, talvez seja a fonte da criação. Uma mina, expurgando meus males e bens, em uma fumaça de esplendor que corre meu rosto e flui como um manacial de meus lábios e dedos.
            Todavia um texto ruim, assim como este, com palavras e palavras sem conexão ou beleza, uma arte contemporânea, que talvez entendida seja, com os anos futuros, quando a arte inundar a maior parte dos juízes da terra e então quem sabe torne-se magistral, mesmo que assegure de meu próprio sentir a desaprovação na base e estruturas, mas que seja finalizada, assim como no mundo, produza uma casa feia, um elefante branco ou talvez um estádio de futebol.
           
            - Marcos Leite

 
 
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