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sábado, 26 de março de 2016

O segredo das mulheres

Recitavam os sábios alfarrábios empoeirados
Com suas vozes roucas e graves, uma lista floreada
De Marguerites, Coras, Cecílias, Lygias, Virgínias e Charlottes,
Espumas flutuantes da esplêndida valsa das letras.

Foram preditos pelas cartomantes, destinos suspeitos
Adocicados pelos versos melodiosos das poetisas
Arrebatados pela beleza incontrolável das nereidas e sereias
Cuidados pelas mãos sinceras e corajosas das mães.

Diziam ainda que a vida brota em seu cândido ventre
Onde o amor reconhece a vida
Sonha em pedaços, sem ainda conhecer, nem tocar
Mas já ama intensamente

Andam por nossas vielas,
Borrifam seu perfume nas malocas
Cantam com voz suave,
nos presenteando dias, com menores fardos.

Flertavam para os rapazes enamorados
Em noite de estrelas cadentes
Com olhares enigmáticos os afrontaram,
Devorados foram, amantes centenários,
Pelo segredo indecifrável das mulheres.
  
- Marcos Leite



quinta-feira, 25 de abril de 2013

O cadáver alvo


       Os dias sombrios sustentam a imparcialidade do tempo, perscrutando o ritmo das estações, simbolizando os pecados e distantes invocações de ira e desespero dos seres, almas medrosas, corpos nus, pedras, velas, um ritual, haveria ainda assim um acordo macabro imposto a ser retamente desenhado por nossos olhos ou acabaria usufruindo do gosto pavoroso da morte.
                Joviais, corpos, ah! Corpos fartos, brancos, alvos como as nuvens, olhos clementes, bocas vermelhas, o retrato na parede, assemelham a Condessas em teu chá vespertino, echarpes de seda, anéis, e sutis olhares desprezíveis. Pendem ainda ânforas decoradas, uma gaiola gótica sem morador, peças talhadas, papéis de parede, um hall.
                Germinas um pouco do ar efêmero de ódio, as paredes ouvem, sentado, cujo, os pés se olham, e os olhos desvairam para os cantos em busca de um sentido. Leda moras aqui? Mergulho os pensamentos em casos arbitrários do passado, um buquê de rosas, triste e caído, estivera só naquela ocasião, nada que lágrimas e o tempo lhe curassem, praguejastes as divindades, aos homens e a tua alma. Um blefe sagaz, o noivo não a amava.
                Alta, enobrecida, maças das faces rosadas como uma carpa bonita num lago transparente, a mais leve coloração dentre elas, teus seios arfavam com gracejo em teus modelos festivos, cabelos negros e brilhantes, refletiam tal jovialidade, as graças de uma bela moça prestes a desposar com um varão tenaz. Pecaminosamente bela, estivera a felicidade entre os dedos, e a peste em teus sonhos, dizimados por horas de lamentações e palavras doridas.
                Vivestes bem sobre os eventos da nobre sociedade, a alta, entre os bailes, jogos, encontro de damas, e alguns eventos da aristocracia. A estirpe a favorecera, insinuo que jogastes às estrelas um pouco de teus gracejos, em troca fora banhada pelo doce mel dos corpos de luz.
                Colhem as rosas amarelas, formam ramalhetes dourados, um enfeite. Estive ainda com meus pés cansados, olhando a triste serenata das abelhas que flanam sobre as flores. Ainda mais tarde murcharão e servirão de fertilizantes.
                Ao esquivar de meus acomodados assentos de algodão, cambaleio sobre um balaústre, apropriado, as escadas seguem o desenho dos cômodos, não existem pios ou ruídos, apenas meus passos, a atmosfera funesta e os reflexos de minhas transgressões me acometem a refletir os maus caminhos e as pegajosas companhias que tive, pessoas comuns, pensamentos fúteis, com grandes bocas a expulsarem anedotas sobre os demais, os quais sequer tinham presença confirmada para sua respostas em defesa. Grandes goles, e canções lastimáveis de um peito em sofreguidão.
                Ao ultrapassar os arcos, alguns cristais soaram a soleira de uma porta, alguns cintilavam a cor do dia, outros balançam com beleza, estive encantado por tal esmero a meus olhos, cedi um pouco de tempo para tal admiração e congratulei a mim mesmo por ter chego a hora correta em que os raios do sol refletiam em tal enfeite.
                Adentrei a suíte, tirei meus sapatos, olhei a cama e deite-me, ao olhar para os o teto tive a lembrança de quando era um mancebo virtuoso, com um feixe de ignorância suficiente para apaziguar qualquer bela, castiguei-me em meus próprios pensamentos, e soergui-me, em direção a extremidade da cama. Entrei ao toalete e tive meus olhos cerrados repentinamente, o sentimento de tristeza e horror estiveram comigo e se estabeleceram para meu martírio.
                Nua, com pálidos véus de seda sobre os ombros, pele branca, tão bela e alva que me faziam reflexo por de trás de minhas pálpebras, ao primeiro flash que meus olhos viram, um momento de angustia, abri novamente os olhos, Leda, pendia sobre uma corda em teu pescoço, com a boca que outrora era vermelha, se comparava a uma embebecida de vinho por três noites seguidas, roxa e sem vida, o rosto macilento e sem gestos traçavam os pavores a uma beleza distinta de outrora, a imobilidade do cadáver contracenavam o aspecto macabro das dependências.
                Estive intacto, sem que movesse um centímetro para esquerda ou direita, a admirei, de teus belos cabelos negros, e teu corpo espetacularmente desenhado, relutei dois passos e olhei sobre a cama, deitei e meus olhos brotaram lagrimas, a dor estivera se aproximando de mim.
                Ao que notara em alguns momentos procedentes, teu corpo se igualava ao meu, a toquei, gélida e ereta, premi teus braços contra os meus e bailamos nus, perambulando meu desejo sobre aquele corpo com carnes frias e agouradas, bailei até que a noite adentrasse ao dia. A beijei e com cuidado a deitei novamente.
                Se não tivesse corroborado meu coração de orgulho, não teria cortado as cordas e a tomado em meus braços, fiz com que os vestígios de corda fossem atirados pela janela, enfurnei-me nas águas mornas de uma banheira, e fumei um cigarro. Cravando minha felicidade aos sopros de fumaça. Não trataria de demorar, minha noiva está a espera.
                Em seu sono de morte, parecia tão linda, que meu amor jorrava por todos os outros sentimentos, levantei os lençóis e encostei aos teus membros gelados, em um afago carinhoso, a abracei, fitei teu rosto pavoroso e adormeci após um dócil beijo.
             
               - Marcos Leite



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O voto


               Opor-se-ia às leis do Estado relembrando mais uma vez a eles a imposição errônea a todos nós? Garantindo um desfalque a sua índole e imagem perante ao grande núcleo sistêmico, persuadindo contra o ar e os duros golpes sobre sua glote. Aposto minhas fichas que não o farias.
                A imensidão dos recursos provenientes a uma campanha política, não fogem de ti, acerca de que todas resmas de papel e os frequentes jingles espalhados pela sisudez das ruas. Claramente, és um contribuinte, de algo, que não lhe apetece deduzo, raramente investiria em rostos impressos, se vós mesmos encarregam-se de os colocarem na lixeira.
                Reitero que destes, já estamos habituados, como ressaltam os anúncios, é tudo do povo. Uma dócil ironia talvez. Embora não seja facilitado para aqueles que de nada sabem, o jogo mestre sendo articulado da melhor maneira, ou ainda surge questionamento da manipulação verbal conduzindo os delitos cometidos a favor da população?!
                A chave mestra, as bolsas, não importa o caractere sobre o púlpito, Y, W ou K, asseguro ainda que X, terá as mesmas propostas, com slogans diametrais, mesmo que reme a favor da mesma correnteza. Um blefe reconhecido, mas aceito, ínfimo por sua intenção, e glorioso por tal feitio.
                Aos homens e mulheres de boa fé, o trabalho não mudará, os anos se passarão e benefícios serão atrelados a ti, e não te estribes desse pensamento, a grande flor enviará verbas para as escolas e hospitais, não deixem-se corromper pelos revoltados, eles dizem asneiras, e mantenham-se na confiança, obviamente seus pedidos serão concedidos pelo candidato escolhido.
                As aspas controladas pelos sentinelas, trocariam de lugares se estivessem soltas como os pássaros, aguardemos a malícia da população, em controvérsia com a ironia política, neste campo de questionamento, o tema se implode, havendo ou não integridade dos homens do poder, o povo trataria de mudar os parênteses arbitrários do desenvolvimento?!
                A guarnição bela e tenaz da política arrebatada pelos questionamentos, uma hecatombe brasileira ocorreria, dos meus lábios mais desprezíveis, contrair-se-iam com menor frequência, mas para tal júbilo prevejo o fracasso.
                Não te esqueças, cumprireis o ato eleitoral com bravura, desviando seu intelecto, obedeças o mandatório, selecione o que lhe apetece, pois, não o questionaras depois, mesmo que queiras. Caminhe, o arauto soará o clarim a sua entrada, e após assinado, o sorvo iniciará, e findará com o cuspe para sua inútil condição de mero cidadão novamente.
              
             - Marcos Leite 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Somália


Uma tarde quente, tão quente como uma parcela do sol sendo desbravada, os olhos e as costas doem com a pressão da terra e a atmosfera extremamente perturbadora. Ao redor apenas pó e pessoas, sujas e doentes.
          Somália, 14h:15min, um dia feroz como muitos outros, dobram nossas cabeças, a sede é intrinseca nesse local, assim como as chuvas tropicais no Brasil, ainda que pudesse clamar por um pouco menos de luz, a força do atrito entre o sol e a terra, frusta todas as expectativas de termos um dia ameno e um pouco mais favorável.
          É improvavel que as contribuições calem os nativos de seu sofrimento, não vejo mais nada do que pessoas quietas, tristes, e magras, extremamente magras, rostos cadavéricos e cada vez mais crianças desnutridas, já repudiei alguns trabalhos em minha vida, mas nunca poderei esquecer que se pudessem ao menos ter um, ajoelhariam-se e beijariam seus pés em agradecimento.
          Mulheres prostradas, em seus lenços desfiados e esburacados pelo tempo e pelo sofrimento, olham para o horizonte sem rumo, com a tristeza em seu peito, as lágrimas não saem mais, secaram, a quantidade de água é pouquissima para cada um, crianças pequeninas e recém-nascidas também nascem com o desafio de viver com menos de um copo d´agua por dia, enlodada ou turva pelo barro.
          È lastimavel o tempo que passam sem comida, não transmitiria esse estado vital nem mesmo para o mais vil ser na terra, é dorido observar as pessoas morrendo de calor, fome e doenças típicas da África. Organismos fracos e falta de ajuda.
          Pelos dias que se passam, alguns e outros veêm de seus países, fortes, saudáveis e vistosos, com lábios vermelhos como um botão de rosa, cabelos sedosos e corpo escultural, maior parte veêm para visitar e deixar migalhas de comida e dinheiro. Muitos também passam por aqui para promoção pessoal ou de sua pátria, ajudam e retratam em suas câmeras, mas ao abraçar da noite se estabelecem nos recintos mais luxuosos ou partem.
          A fome é dura, é um tormento constante, e com o passar do tempo leva  a loucura, o real e triste martírio mental. Mentes perdidas na ilusão, alguns dormem com esperança de que não acordem, e outros agonizam até que o tempo presenteie com sua ida. Um país flagelado, a população devastada e ceifada pela fome. Mas de um povo forte, que trata das maiores chagas da vida com cara limpa e erguidos de sua postura, humildes e corajosos, traçam suas linhas entre as doenças e a tristeza e não permitem que desapareçam.
          Assolados por conflitos vivem num caos que não se pode pensar o quanto tem ainda de vida, ou se gostariam realmente de viver. Em meio de tanta tirania e covardia, o que se espera é que a justiça seja feita.
          Troquei minha camisa pela primeira vez que cheguei aqui, ja há em média um mês que habito este território, mas ainda que imunda e asquerosa estivesse, trataria de uma vestimenta nova para outro que as suas já estão se rasgando de tão velhas ou a quem não tem uma peça de roupa sequer para ao menos alimentar um pouco de sua diginidade como pessoa e ser humano.
          Aqui sentado, a espera de meu voo, observo e baixo minha cabeça olhando para minhas mãos cruzadas e reflito nos olhares de esperança que tenho, pessoas desesperadas por um sorriso, por um pouco mais de água e também para um trabalho que edifique sua vida e familia. Ainda estou cabisbaixo pensando nos motivos de minha vinda à Africa, o continente exuberante e sombrio, com pessoas raras, batalhadoras e fortes.
          De meu bigode sai o suor salgado de um dia duro, meu chapéu de couro e o mormaço doado pelas nuvens exemplificam a atmosfera em que estou, mas no interior de minha alma estou caído e triste com toda essa tragédia e maldade da vida, peço aos céus que venha chuva, ao menos uma gota para germinar uma semente e que dela nasça uma enorme mangueira para que não lhes faltem o que comer.
          Sei que nada mudará se continuar com meus pés aqui parados, decidi, ainda que há pouco, vou deixar meus dotes e minha ilusão, viverei entre os elefantes e as zebras, e não me lembrarei jamais da sociedade fútil e imunda das cidades, quero trocar meus dias de tormento, pelo perigo das savanas, e atravessar meu espírito nessa terra.

- Marcos Leite

 
 
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