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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A escrava

         
       Quando as lamparinas mais distantes, ardiam no hirsuto pavio, a trilha seguia até o paiol, distanciando da casa grande, uma fazenda, por costume e pela imparcialidade dos quais os criados aprenderam, tais nomes e características a serem rotuladas e seguidas. Trazia ainda o aspecto campeiro, ávido como o céu nas alvoradas, fervilhantes tardes e noites frescas, as árvores e o rio contribuíam para o amenizar da temperatura.
         A lua quase escondida, a minguante estava no fim, um lampejo podia ser visto ao longe, e as estrelas estavam ofuscadas, era noite nublada, as objeções do comum e ideal de ter uma noite estrelada caíra por terra, resultando uma sombria e negra noite, as trevas superavam todo rastro lunar, e as árvores tinham aspecto fantasmagórico, paus pelo caminho, um velho trator, e um galinheiro. O silencio demonstrava liderança, até mesmo as aves noturnas, piavam com menor frequência, a escuridão havia as entorpecido.
         O vento bruxuleava a pequena chama, e o azeite em ocasião não era em abundância em teu recipiente, mas ainda assim, não faltaria até que voltasse para a casa grande. De touca, semelhante a um turbante, um vestido maltrapido, as unhas eram negras, e dedos grossos e ásperos, mãos calejadas e envergadas, o uso da potassa ao cuidar das roupas dos patrões e o pilão para socar o milho, as guarneceu de uma pele rude e ríspida. Olhos negros, sem brilho e feios, uma escrava.
       Ao aferir teus pertences, adentrou a porta fechada por tramelas, deixara a lamparina sobre a tábua suspensa, utilizada então para colocar o saco de palhas e sabugos, que rotineiramente servia de alimentos para os ruminantes, agachou, riscou um círculo a giz, colocou velas, e acendeu um incenso, uivou por mais de uma vez, e mastigou um pedaço de palha e gritou.
       Pela manhã, sem conjecturas, ouvia paulatinamente sobre o fogão de lenha, usava um avental cinza e tinha a presença resumida as mariposas, ninguém se importava. Ouvira:
         - Me sinto mal, talvez seja a comida.
         - Começou hoje?
         - Oh! Sim, acho melhor repousar, estou febril.
     Os sintomas interiores da moça realçaram ainda mais teu rosto cadavérico, e as pálpebras desta vez abriam com menor intensidade, após uma semana, morrera. Coincidiu com a lua nova, negra e retumbantemente escura. A noite após o velório, as cerimônias fúnebres iniciaram e nos primeiros raios de luz a enterraram.
         Um riso cruel instaurou no peito da jovem escrava, a ira se fora, sortilégio perfeito.
         Nas dependências da fazenda, quando nada mais sorria, a noite se alastrou e a chuva caiu como uma torrente enfurecida, uma tempestade armara e os raios tintilavam sobre os pastos e árvores. As cabras baliam, os porcos grunhiam, e as vacas e bois mugiam estranhamente, ainda que parecesse uma profecia a se cumprir, os olhos assustados dos animais caracterizam o aspecto fantasmagórico de um espectro rondando o quintal.
       Ao transcender da madrugada um barulho ensurdecedor vibrava no quintal, e os moradores olharam pela janela, a escrava rodopiava entre brasas e um mastro de ferro sobre um circulo em meio a chuva, ainda assim as brasas eram vívidas como as que ficam no fogão, ela dançava e girava como um pião e de acordo com os passos de sua dança macabra as letras se formaram e deram o nome de Lídia, a defunta, os que estavam na janela ficaram atônitos e a chuva cessou.
        Os pés da escrava estavam tão machucados que sangravam, em um aceno de escárnio se entregara do sortilégio lançado a moça que morrera, o ato feito há uma semana do falecimento. Ao que a mesma supunha, veria sua morte através de um dos que estavam na janela, então vociferou aos céus blasfêmias e maldições.
         Um vulto se aproximou, e os olhos de vingança e zombariam tremeram de pavor, os sinos da capela soavam, e o semblante era de horror, o espectro ficara de fronte a feiticeira, o pacto neste momento era cobrado.
         Como num espelho, ela se viu, com a lamparina nas mãos, entrando no paiol, sentiu o gosto da palha, e as velas cintilaram em teus olhos, estava intacta e ereta, o pavor a tinha consumido, e seus pés como ainda sangravam, as corujas voaram próximas, uma a bicou no pé e piou alto e outras começaram a bicar e arranhar o rosto e corpo da escrava, e a pele negra e viscosa sangrava, se contorcia e tentava correr, as corujas adiantaram o banquete, e como o rastro de uma lamparina a sombra subiu aos céus e cortou a dimensão da lua, mostrando então um pequeno L, adiantando a crescente, em resposta ao feitiço da também agora defunta.


- Marcos Leite


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O espírito do vale das mortiças



Na noite de perspectivas ébrias de me tornar um grande homem, assegurando a mim um opaco sabor de rum, não que fossemos piratas, todavia, a bebida de Pinheiros, como favorita era o envelhecido rum dos tonéis da adega dos mortos. Tal nome, uma incongruência na recepção informal do proprietário, que vivia mais de seus aluguéis, do que a venda de bebidas, nas quais era um lugar totalmente falido e cheirava a mofo.
Onde a carquilha de teus olhos passavam sombreando a imensidão deste lugar, o som breve dos clarinetes do rádio e o amontoado de homens possuídos pela doçura gris de um roliço charuto, as dependências das quais nos encontrávamos, eram um frêmito de perdição a nossos intelectos, quais julgamos termos afetados pela falta de clemência de nosso corpo a ingerirmos doses excessivas do líquido carmim, quando observado entre a cortina de fumaça e o surrealismo arbitrário de uma mente insana.
Admirando o que pudesse ser observado, vi aos olhos de Jonas, a luz reluzente de um jovem apaixonado, pelos trejeitos angelicais de uma dama, da qual ele jamais a cortejaria devido suas condições como cavalheiro e propriedades, da quais jamais teve. Embora estivéssemos enfurnados no sub-solo de uma espelunca onde nossos corações sentiam dor ao deixa-la, pude compreender a magnitude de seu olhar fixo a mesa e o semblante imóvel, confessando assim, seus desejos e frustrações quando a jovem donzela.  Bastava um ato inusitado, para que o sorvo longo o fizesse engasgar-se, mas não o faria, tal conduta o feriria quanto a nossa proximidade e compreensão.
- Jonas, asseguro-te, és tarde!
- A que queres dizer Miguel?
- A ti!
- Não sabes ainda o que tenho em meu peito, se soubesse jamais trataria de conceber uma pergunta sobre todo o escárnio descomedido de suas ventas e sobrancelhas.
- Asseguro-te amigo, és bela, mas habita outro mundo.
- Se tivesse dinheiro...
- De nada adiantaria, és belo, todavia, tens o segredo que jamais poderia revelar.
- Maldito, maldito, imundo.
- Não te aborreças.
- Se puderes acompanhar-me, a noite está desanuviando o corpo negro e a lua impõe sua magnitude, mas a vejo fantasmagórica hoje. – prossegui.
- Seja menos poético, não passamos de homens inebriados nessa fria e amaldiçoada noite.
A quietude das vias não se assemelhavam apenas a um cemitério noturno, onde as almas giram em torno da capela, amontoadas de desejos e grunhidos. A imensidão de espaço baldio nos trazia um sopro de existência, garantindo-nos a dúvida da vida e a morte, perscrutando os breves e mínimos resquícios de ruídos, uma noite insípida até mesmo para minhas narinas, sem orvalho, sem odores, apenas um vento opressor, cujas as rajadas vistas ao longe nunca colidiam a nosso semblante.
Jonas, um alto e elegante rapaz, com rosto pálido e olhar fosco, caminhava com a destreza sobre as destoadas formas onde os paralelepípedos mal se encaixavam, um mestre ao possuir tal postura e garbo ao driblar tais meros atritos com os pés. Era descrente de qualquer hipótese noturna de ser amedrontado, seja por um cavalo estirado ou um grito vil de horror. Tinha tais pensamentos focados a formosura de uma moça, que fora repreendida de teus desejos após um ato insensato e inconsciente de ternura e ódio descomedidos.
Matara o irmão de Jacqueline, com golpes de uma adaga familiar, garantindo a polícia um álibi pouco provável mas aceito, que tal tarefa tenha sido heroica ao salvar Denis da mãos de dois meliantes que o seguiram e o esfaquearam até que suas vísceras começassem a jorrar de teu abdômen. Consentido pelos civis, a farsa nunca foi aceita pela população, o martirizando e negando trabalho e suas filhas para o seu sentir íntimo e pessoal, o amor. Esteve só por anos, e ainda continua com tributos recebidos a custas de inquilinos e o acentuado costume de ir ao bordel.
Eu de minhas improváveis amizades e história, aceito como louco, escrevia no jornal textos filosóficos, que obviamente não era a parte mais apreciada do folhetim, se estivesse usando de minha linguagem para encenar a trama fajuta de tal sociedade, trataria de comprometer os homens de respeito e suas mulheres numa valsa de desejos e orgias nefastas sobre o solo da santo e puro em que habitávamos.
- Miguel! Acreditas que sou o culpado da morte de Denis?
- Caro, não trataria de assumir uma opinião quanto a suma competência de afastar-te de mim ou deixar-te colérico.
- Então, acreditas.
- Foi você?
- Céus, não o matei.
- És o único possível, assassino, os meliantes nunca existiram.
- Sim, existiram.
- Um agourado homem.
- Sim, talvez eu seja, entre os dois anjos, do vale das mortiças, há uma caverna enlodada e escorregadiça, após o acontecido, eu caminhei numa noite após sair do La Femelle[1] e encontrei dois lenços, um era de Denis e outro tinha apenas a letra V.
- És maluco!
- Se não crês, deveria acompanhar-me. – relutou Jonas.
Dentro das perspectivas mais comuns de um homem, o corromperia de seu breve intuito da mentira a tornar um real e culpado homem que aceitasse o erro e garantisse uma menor pena no inferno.
Prosseguimos pela rua onde se encontrava o vale, e lá o que mais amedrontava era o aspecto nu dos anjos e suas iniquidades e vergonhas sendo exploradas por nossos olhos e de todo o ser pestilento que ali passasse ou habitasse, havia ainda dizeres que a terra ali era feita para atribuir feitiços e magias.
- Vês Miguel agora!?
- Sim, vejo e percebo ainda que o matou.
- Claro que o matei, imundo, e maldito, perece até hoje na terra, não sabes o quanto sou grato por ter o esfaqueado tantas vezes e a boca e seu abdômen sagrarem com tanta palpitação, sinto como se tivesse o feito hoje e ainda sou grato a mim mesmo por tê-lo executado.
- O que importa a mim?
- Nada, apenas o queria aqui.
- Acerca...
          - Acerca de mostrar minha real identidade. – interpelou Jonas.
- Não é necessário, já o sabia, mesmo que não tivesse envolto no caso, claramente percebi sua injúria contra Denis ao lhe prostrar em praça pública, o humilhando e esvaecendo sua boa intenção com Jacqueline.
- Teve o que merecia, e isso não é o simples fato, apenas o matar me fez querer viver.
- Se pensas assim, tratemos de voltar.
- Voltar? – zombou Jonas.
- Ainda não percebera Miguel.
- Não, ainda não o compreendi, mas tenha certeza que sou mais sagaz que Denis.
- Não o mataria amigo, mas o levaria comigo.
Ao som entonado de tua última palavra, compreendi, onde estava e defronte a tal imundo e medonho espírito eu estivera, Jonas Pinheiros, fora assassinado pela família de Denis três semanas após o caso Ferraz ter saído na mídia da cidade, fora decapitado após sacarem os olhos e queimarem o corpo, a polícia deixou o inquérito engavetado, fazendo assim o gosto da família endinheirada do barão, o comentário em questão na ocasião, fora que o demônio tenha vindo busca-lo após suas transgressões em terra, obviamente que culpado, todavia, sem tal malevolência determinada pela população.
A mim, o que resta é entrar na canoa de Caronte e pagar-lhe o óbolo, já que Jonas meu austero amigo, tenha me buscado do mais enfadonho lugar e trazido a outro pior, assim como em vida, pagar o que fiz em toda minha existência em terra, após a cólera e o enforcamento de Jacqueline, aquela ocasião foi tremendamente prazerosa, ainda não posso contar a Jonas, aposto que ele não soube, intimamente talvez ele o entenda, e meu amor por tal amizade, ele acate como boa atitude, e quem saiba zombe também ao ouvir que tratei de afogar o barão com pedras amarradas em seus pés e braços. Se não fosse tamanha estapafúrdia, ele ter ido ao lago, ébrio e com muitas verdades a proclamar aos ventos, eu não o encontraria, ao sair do La Femelle, o acertei abruptamente na cabeça com um pedaço de madeira, e o amarrei sem deixar pistas, usei luvas de couro e o empurrei até que o lago pudesse o consumir. Velho embusteiro, mereceu ter tal fim.
E que então peguei a mão do espírito no vale das mortiças e encontrei a paz, e o desespero que talvez me espera, mas sei que o efêmero prazer dos assassínios cometidos por mim, tenham se evaporado com a presença inconstante do horror que conheceria após adentrar a caverna, de mãos dadas a meu amigo assombrado.

- Marcos Leite




[1] La Femelle: A feminina, em francês. Casa noturna da cidade apelidada como bordel, prostíbulo.
 
 
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